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Dieta carnívora: entenda os prejuízos dela para a saúde

A dieta carnívora é considerada restritiva e desequilibrada (Imagem: KieferPix | Shutterstock)
A dieta carnívora é considerada restritiva e desequilibrada (Imagem: KieferPix | Shutterstock)

Nas redes sociais, a dieta carnívora tem ganhado visibilidade, e não é raro encontrar influenciadores defendendo o método, tratando o consumo de gordura como saudável e deixando de lado o tradicional arroz com feijão. Porém, para a comunidade científica, esse padrão alimentar é restritivo e desequilibrado, podendo prejudicar a saúde de variadas maneiras.

“Pratos enormes só com carne, pessoas comendo barra de manteiga, costelas empilhadas sobre tábuas de madeira… A dieta carnívora leva à dieta ‘low-carb’ ao extremo, eliminando todos os alimentos vegetais em favor de carne, ovos e laticínios. Alguns adeptos vão além, vivendo quase exclusivamente de carne vermelha”, explica Dra. Marcella Garcez, médica nutróloga, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

A dieta carnívora não favorece a saúde. “Esse tipo de conteúdo engana as pessoas, prometendo emagrecimento rápido e melhora de marcadores metabólicos, mas não é o que acontece na prática. Esse tipo de dieta altamente restritiva exclui fibras, vitaminas e compostos bioativos presentes nos alimentos vegetais e que são altamente benéficos para o organismo”, alerta a médica.

Dieta carnívora não favorece um emagrecimento saudável

Entre as primeiras mudanças relatadas pelas pessoas ao adotar a dieta carnívora está a digestão: menos inchaço, menos gases e uma cintura mais definida. “Essas alegações de saúde são apenas especulativas. Quando os carboidratos desaparecem, o corpo recorre às reservas de glicogênio, cadeias de glicose armazenadas nos músculos e no fígado, para obter energia. À medida que essas reservas são queimadas, elas liberam água, levando à rápida perda de peso, composta principalmente de água, não de gordura”, explica a Dra. Marcella Garcez.

A nutróloga também detalha o que acontece na sequência desse processo metabólico. “Logo depois, o corpo entra em cetose, um estado metabólico em que a gordura se torna a principal fonte de energia. A cetose também suprime os hormônios da fome e aumenta os sinais de saciedade, o que ajuda a explicar por que muitos adeptos da dieta carnívora relatam sentir-se mais leves, magros e com menos fome nas primeiras semanas”, explica.

No entanto, ela reforça que os resultados não estão necessariamente ligados ao consumo exclusivo de carne. “Mas isso é resultado de um déficit calórico, não do consumo exclusivo de carne. Uma dieta bem estruturada, variada e o mais natural possível, traria esse benefício sem os efeitos colaterais da dieta carnívora”, pontua.

Fibras são indispensáveis na alimentação

A exclusão das fibras da alimentação também tem impactos negativos na saúde. “No final das contas, o que esse tipo de dieta favorece é a constipação e o aumento do risco do câncer colorretal. A remoção de fibras por longos períodos é altamente preocupante, pois elas são essenciais para a saúde a longo prazo. As fibras são um dos componentes mais protetores da dieta humana, estando associadas a menores riscos de doenças cardíacas, câncer, diabetes e até mesmo à melhora da longevidade e da saúde cognitiva”, afirma a Dra. Marcella Garcez, que acrescenta: “No final das contas, remover completamente as fibras elimina uma das melhores defesas que temos para o corpo e a mente”.

Ilustração de um fígado sobre as mãos de uma médica
A alta ingestão de proteínas sobrecarrega o fígado e os rins (Imagem: Natali _ Mis | Shutterstock)

Prejuízos da dieta carnívora para todo o organismo

A ausência de alimentos de origem vegetal na dieta também causa uma cascata de perdas de nutrientes. “Sem frutas, vegetais e grãos, o corpo perde o acesso a nutrientes essenciais como vitamina C, antioxidantes e compostos vegetais, conhecidos como fitonutrientes, que ajudam a combater a inflamação e a manter a saúde a longo prazo”, diz a Dra. Marcella Garcez.

O consumo de proteínas em excesso traz uma sucessão de prejuízos. “Em contraponto, a alta ingestão de proteínas em dietas carnívoras também sobrecarrega o fígado e os rins. O fígado precisa trabalhar mais para converter o excesso de nitrogênio das proteínas em ureia, que os rins então filtram; esse processo está associado a um risco aumentado de cálculos renais e estresse a longo prazo nos órgãos”, diz a médica.

O cérebro também pode ser outra vítima negligenciada. “Dietas ricas em fibras de alimentos vegetais, como a dieta mediterrânea, estão associadas a um humor melhor, menor risco de depressão e proteção da saúde cerebral”, afirma a especialista.

Os efeitos se estendem ainda ao coração. “Dietas centradas em carnes vermelhas e processadas, ricas em gorduras saturadas e colesterol, têm sido associadas a níveis elevados de colesterol LDL, um fator de risco fundamental para doenças cardiovasculares”, diz a nutróloga, ressaltando: “Nesse ponto, a ausência de fibras também é um problema, pois ela elimina uma das ferramentas naturais do corpo para reduzir o LDL, já que a fibra solúvel se liga ao colesterol no intestino e ajuda a removê-lo da circulação”.

Ilusão da ‘dieta da eliminação’

Muitos dos que seguem a dieta carnívora se sentem atraídos pela simplicidade e pelo apelo de ‘dieta de eliminação’. “Alguns tentam essa dieta para soluções rápidas ou para aliviar sintomas intestinais, achando que cortar alimentos irá ‘reiniciar’ o organismo. A curto prazo, as melhoras são explicadas porque as pessoas que consumiam grandes quantidades de alimentos ultraprocessados deixam de ter esse tipo de padrão. Mas a trajetória de saúde a longo prazo permanece incerta. É importante ficar claro: retirar alimentos ultraprocessados é importante, mas os vegetais não devem ser excluídos. Os riscos a longo prazo aumentam com essa exclusão”, finaliza a nutróloga.

Por Guilherme Zanette

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