O Dia Internacional da Língua Materna, celebrado em 21 de fevereiro, foi instituído oficialmente pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 1999, a partir de uma iniciativa de Bangladesh, país do sul do continente asiático. A data pretende valorizar a importância do idioma natal na manutenção e preservação de culturas. 

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De acordo com dados da instituição internacional, 40% da população mundial não tem acesso à educação em seu próprio idioma, o que evidencia um desafio estrutural que vai além da sala de aula. Em um mundo globalizado, cresce o debate sobre a valorização da língua materna — seja na cultura, na educação ou nas manifestações artísticas.

Mais do que um idioma, a língua materna é uma fonte histórica e forma de resistência cultural. Ao trazer essa realidade ao Brasil, um país cuja língua nasceu de uma junção de diferentes matrizes, os desafios são ainda maiores, pois convivemos com uma ampla diversidade de regionalismos, sotaques e variações linguísticas

O preconceito linguístico é um dos principais entraves. Nesse cenário, a educação surge como agente crucial para promover o respeito à diversidade, combatendo estigmas associados a variações regionais e fortalecendo o domínio do idioma.

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Pensando nisso, trouxemos a visão de gestores, educadores e especialistas para aprofundar o debate e entender os caminhos possíveis para a valorização da língua materna no Brasil.

Preconceito linguístico

Sotaques, dizeres populares e regionalismos muitas vezes são vistos como desvios da norma “correta” da língua portuguesa. Isso ocorre porque, considerando a dimensão territorial do Brasil e o processo histórico de colonização, a língua foi moldada por diferentes influências que deram origem a múltiplas variações. 

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Para Henrique Braga, professor e autor do Sistema Anglo de Ensino, o português — assim como o francês e o espanhol — é resultado do “latim vulgar”, ou seja, da língua popular, misturada aos falares indígenas e africanos. 

“Certas vogais que ‘inventamos’ na pronúncia, por exemplo, nos trazem ecos do falar de povos escravizados. A língua que falamos é um enorme registro de muitos que passaram por aqui, inclusive daqueles que nem sempre tiveram suas vozes escutadas”, afirma.

O primeiro passo para combater preconceitos no ambiente escolar está no reconhecimento dessas variações, como explica Clarissa Lima, assessora pedagógica da Plataforma Amplia. Para ela, ensinar gramática e norma-padrão deve ampliar o repertório dos alunos, e não apagar identidades.

“A língua é diversa e o português padrão é apenas uma convenção social. Mesmo que importante como ferramenta de circulação, não se faz superior às outras variedades. Em sala de aula, é essencial trabalhar diferentes usos da língua, discutir a relação entre linguagem e desigualdade e deixar nítido que discriminar a fala de alguém também é um preconceito”, complementa. 

menina jovem de camisa azul, cabelo longo, segurando pastas e mexendo no celular
O uso de plataformas digitais também pode influenciar o vocabulário (Imagem: Antonio Guillem | Shutterstock)

Globalização e internet 

Em um contexto de hiperconexão, as redes sociais e a internet exercem papel central nas transformações linguísticas contemporâneas, ao acelerar o ritmo das mudanças na forma como as pessoas se comunicam. Esse processo se intensifica diante do acesso cada vez mais precoce às plataformas digitais, que passam a influenciar vocabulário, abreviações, expressões e até a construção da escrita desde a infância.

No entanto, para Diogo D’Ippolito, autor de Língua Portuguesa do Sistema de Ensino pH, esse fenômeno representa a vivacidade e a capacidade de reinvenção da língua portuguesa.

“Novas palavras, abreviações, memes, recursos de humor e modos de escrita que misturam oralidade e texto circulam com rapidez, popularizando expressões como ‘viralizar’, ‘crush’, ‘printar’ e ‘shippar’, além de evidenciar a aproximação entre fala e escrita. Longe de enfraquecer a língua, esse movimento demonstra que ela permanece viva, dinâmica e em constante reinvenção, seja no papel, seja nas telas”, afirma.

Por outro lado, as redes sociais podem causar o afastamento da língua formal, que também é necessária para o desenvolvimento cognitivo dos alunos. Frente a isso, a literatura entra como uma escolha estratégica para essa reaproximação.

“Pensando nos dias de hoje, fazer experiências de leitura com linguagens e jeitos diferentes de ler pode ser divertido. Literaturas regionais costumam render bons momentos de atenção e clubes de leitura são ótimas experiências coletivas”, complementa o professor de Filosofia e Sociologia e autor da Rede Pitágoras, Luiz Cláudio de Araujo Pinho.

Por Victória Gorski