Mais de 4,2 bilhões de pessoas utilizam redes sociais em todo o mundo, segundo dados da Hootsuite e WeAreSocial. No Brasil, esse número é ainda mais expressivo, refletindo a forte presença digital de profissionais e empresas. Em um cenário tão conectado, tudo o que é publicado online pode ser avaliado por recrutadores, líderes e parceiros de negócios. Durante períodos de maior exposição, como o Carnaval, o cuidado com a imagem digital se torna ainda mais relevante.
A rede social funciona como um currículo permanente
Em algumas empresas, avaliadores utilizam informações públicas para complementar a análise curricular. Conforme o estudo “Digital footprints and recruitment: an experimental study on the impact of social media content on hiring decisions”, publicado na revista Frontiers in Psychology, o conteúdo publicado nas redes sociais impacta diretamente a percepção de profissionalismo, responsabilidade e confiabilidade do candidato a uma vaga de emprego.
Para a advogada Silvana Campos, especialista em direito do trabalho, a influência das redes sociais vai muito além da fase de contratação. Ela explica que comportamentos incompatíveis com os valores da empresa, como discursos ofensivos ou postagens que coloquem em risco a imagem institucional, podem gerar advertências e até demissão por justa causa.
A Justiça do Trabalho reconhece que a conduta fora do ambiente físico da empresa pode afetar diretamente o vínculo empregatício. “Liberdade de expressão não exclui responsabilidade sobre o que é publicado, especialmente quando isso impacta colegas, clientes ou a reputação da organização”, afirma.
Conteúdo coerente aumenta percepção de competência
A mesma pesquisa da Frontiers in Psychology mostrou que perfis com postagens alinhadas a valores profissionais aumentam a percepção de competência técnica e estabilidade emocional. Recrutadores tendem a avaliar positivamente perfis que demonstram coerência entre discurso, comportamento e trajetória.
A psicóloga Zora Viana, fundadora da Faculdade FEX Educação, explica que isso é ainda mais sensível no caso de empresários e líderes. “A imagem digital comunica quem você é quando ninguém está olhando. Empresários ou líderes que se posicionam de forma impulsiva ou agressiva nas redes podem transmitir sinais de instabilidade emocional, falta de visão estratégica e até despreparo para liderar. O público não separa completamente a pessoa física da marca pessoal. Por isso, cada comentário, postagem e interação tem peso na percepção que os outros têm da sua capacidade profissional”, afirma.
Comportamento online revela traços psicológicos
Para Jackline Georgia, especialista em oratória, psicanálise e comunicação estratégica, comentários e interações nas redes sociais influenciam julgamentos profissionais. “A maneira como alguém responde a críticas ou debates públicos revela competências socioemocionais essenciais no trabalho”, explica.
Segundo ela, a maneira como uma pessoa se comunica diante de desafios revela muito sobre sua maturidade emocional e postura profissional. “Quem reage com empatia, autocontrole e habilidade de argumentação demonstra inteligência emocional e capacidade de colaboração. Por outro lado, comunicações impulsivas ou agressivas podem indicar dificuldade de trabalho em equipe e problemas de liderança, o que é observado de forma inconsciente por colegas e gestores”, alerta.
Exposição excessiva pode gerar ruído reputacional
Perfis que apresentam excesso de exposição pessoal ou comportamentos incoerentes podem gerar dúvidas sobre maturidade e clareza de posicionamento. A especialista em gestão empresarial Juliana D’Andrades comenta que o problema não está em mostrar a vida pessoal, mas em fazê-lo sem estratégia.
“Cada postagem constrói uma narrativa sobre quem você é profissionalmente. Quando essa narrativa é contraditória ou exagerada, o mercado interpreta como falta de posicionamento e critério, prejudicando oportunidades de crescimento, parcerias e relações de confiança com clientes e equipe”, explica.

Privacidade é estratégia de gestão de imagem
Durante o Carnaval e eventos de grande circulação digital, gerenciar a própria exposição online se torna ainda mais importante. A advogada Silvana Campos reforça que a privacidade é uma forma de proteger a carreira.
Administrar as opções de privacidade representa uma atitude estratégica para preservar a imagem pessoal. “Muitos conflitos trabalhistas poderiam ser evitados se houvesse maior consciência sobre o que é público e o que deve permanecer privado. Saber escolher o que compartilhar, com quem e em qual contexto é tão importante quanto manter um bom currículo e evita problemas futuros”, comenta.
O que postar nas redes sociais durante o Carnaval
Para Alana Miranda, estrategista de marca e conteúdo digital, o Carnaval é uma grande oportunidade, mas também um desafio para quem quer fortalecer a reputação profissional. “O Carnaval é um dos maiores eventos culturais do Brasil, com blocos de rua, megablocos nas cidades, desfiles e ritmos que viram tendências nas redes. Diferentemente de outras épocas, a folia ativa conexões emocionais muito fortes e exige ainda mais estratégia, intenção e bom senso de quem cria conteúdo”, afirma.
Segundo ela, é importante tomar cuidado com as publicações nas redes sociais. “Postagens impulsivas, feitas no calor do momento, podem mostrar excessos, consumo de álcool, uso de substâncias ou uma ideia de festa eterna, como se não houvesse consequências. Para quem constrói marca, esse tipo de conteúdo compromete imagem, credibilidade e posicionamento. É fundamental contextualizar a presença, escolher os formatos certos, priorizar interações e manter a coerência com os valores da marca”, afirma.
Ela recomenda avaliar cada postagem antes de publicar, mesmo stories simples, porque “a rede social é um canal profissional e tudo que vai ao ar constrói ou destrói reputação. Saber editar o que fica de fora e escolher o que comunicar é parte essencial da estratégia”.
Por Sarah Monteiro