Nos últimos anos, vídeos sobre autismo, especialmente sobre o antigo diagnóstico de Síndrome de Asperger, passaram a acumular milhões de visualizações nas redes sociais. Relatos sobre dificuldade de socialização, sensação de inadequação, interesses específicos e desconforto em ambientes sociais fizeram com que muitas pessoas passassem a se identificar com características associadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).

continua após a publicidade

O fenômeno tem contribuído para ampliar a conscientização sobre o autismo em adultos, mas também acendeu um alerta entre especialistas: até que ponto a popularização do tema está ajudando no reconhecimento de casos reais e quando passa a estimular autodiagnósticos equivocados? Segundo a médica e pesquisadora Gabriela Guimarães, o debate exige cautela, porque o termo “asperger” carrega uma história complexa e muitas vezes desconhecida pelo público.

“O conceito foi descrito pelo médico austríaco Hans Asperger durante a década de 1940, em um contexto histórico marcado por práticas de classificação de crianças e ideias eugênicas presentes na Europa da época. Atualmente, o diagnóstico de Síndrome de Asperger não existe mais de forma separada e foi incorporado ao transtorno do espectro autista”, explica.

Nem toda dificuldade social é autismo

A especialista afirma que uma das principais confusões observadas atualmente é a associação automática entre dificuldades sociais e autismo. “Timidez, introversão, ansiedade social, traumas, transtornos de humor, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), altas habilidades e até períodos de isolamento podem gerar experiências semelhantes em alguns aspectos. Isso não significa que a pessoa seja autista”, afirma.

continua após a publicidade

De acordo com Gabriela Guimarães, o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, ou seja, suas características estão presentes desde a infância, mesmo que nem sempre tenham sido identificadas na época. “O diagnóstico não pode ser baseado apenas na identificação com conteúdos da internet. É necessário avaliar a história do desenvolvimento, os sinais precoces, o impacto funcional e realizar um diagnóstico diferencial cuidadoso”, destaca.

Para muitas mulheres adultas, um vídeo nas redes foi o primeiro contato com informações sobre autismo após anos convivendo com dificuldades sem explicação (Imagem: Dean Drobot | Shutterstock)

O papel das redes sociais

As redes sociais tiveram um papel importante ao ampliar a discussão sobre saúde mental e neurodiversidade. Para muitos adultos, especialmente mulheres, elas funcionaram como uma porta de entrada para buscar avaliação especializada após anos sem respostas para suas dificuldades.

continua após a publicidade

Ao mesmo tempo, algoritmos costumam simplificar conceitos complexos, transformando comportamentos relativamente comuns em possíveis sinais diagnósticos. “Existe uma diferença entre ampliar o acesso à informação e transformar características humanas universais em categorias clínicas. Nem toda sensação de inadequação social indica um transtorno do neurodesenvolvimento”, ressalta Gabriela Guimarães.

O que é considerado no diagnóstico?

Segundo a médica, a avaliação do transtorno do espectro autista envolve diversos fatores, entre eles:

  • Histórico de desenvolvimento desde a infância;
  • Dificuldades persistentes na comunicação e interação social;
  • Presença de interesses restritos ou comportamentos repetitivos;
  • Alterações sensoriais;
  • Impacto funcional na vida cotidiana;
  • Investigação de outras condições que possam explicar os sintomas.

A análise costuma incluir entrevistas clínicas, histórico familiar, informações escolares e, quando possível, relatos de pessoas que acompanharam o desenvolvimento do paciente.

Entre conscientização e banalização

Para Gabriela Guimarães, o desafio atual é encontrar equilíbrio entre reconhecer pessoas que passaram décadas sem diagnóstico e evitar a banalização de uma condição complexa. “Autismo nível 1 de suporte existe e merece visibilidade. Mas também é importante preservar a precisão diagnóstica. O objetivo não é invalidar o sofrimento de quem busca respostas, e sim garantir que cada pessoa receba a avaliação correta e o tratamento mais adequado para sua realidade”, conclui.

Por Daiane Maio / Edicase