Fabiana Karla, Shakira, Natalie Portman, Geovanna Tominaga e, mais recentemente, Bruna Louise já falaram publicamente sobre altas habilidades e superdotação. A presença de mulheres famosas nessa discussão ajuda a ampliar o debate e mostra que a identificação não acontece apenas na infância.
Pensamento acelerado, necessidade intensa de aprender, perfeccionismo, sensibilidade e sensação de não pertencimento podem aparecer em mulheres com altas habilidades, mas também podem ser confundidos com outros comportamentos ou condições. No Dia Internacional da Superdotação, celebrado em 10 de agosto, especialistas explicam sete sinais que podem passar despercebidos. Confira!
1. Sensação de ser diferente desde a infância
Interesses intensos, perguntas profundas e uma necessidade maior de compreender como as coisas funcionam podem aparecer desde os primeiros anos. Algumas meninas, porém, passam a vida tentando entender por que se sentem diferentes das pessoas ao redor.
“Muitas mulheres relatam que sempre sentiram que pensavam de maneira diferente das outras pessoas. Elas podem ter interesses muito variados, fazer perguntas profundas desde a infância e apresentar uma necessidade intensa de compreender o funcionamento das coisas. Quando não encontram pessoas com interesses ou ritmo de raciocínio compatíveis, isso pode ser interpretado como timidez ou dificuldade social”, explica a psiquiatra Fabrícia Signorelli, especialista em Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA) e altas habilidades do Supera.
2. Perfeccionismo e autocobrança
A busca constante por excelência pode fazer parte da experiência de algumas mulheres com altas habilidades. Quando a cobrança interna se torna excessiva, porém, o comportamento pode ser interpretado apenas como traço de personalidade.
Para Jessica Martani, psiquiatra, o contexto é fundamental para compreender esse tipo de comportamento. “O perfeccionismo pode estar relacionado a uma necessidade muito grande de domínio e de realização, mas não deve ser analisado sozinho. Quando existe uma cobrança interna intensa, acompanhada de pensamento acelerado e necessidade constante de novos desafios, vale investigar como essas características se conectam ao funcionamento global daquela mulher”, explica.
3. Pensamento acelerado não significa necessariamente ansiedade
A ansiedade e a superdotação podem coexistir. Jessica Martani explica que é preciso investigar o funcionamento global antes de chegar a uma conclusão. “Uma mulher que pensa muito rápido, questiona constantemente, mergulha profundamente em determinados assuntos e precisa de estímulo intelectual pode ser vista apenas como ansiosa ou inquieta. É fundamental entender se estamos diante de um transtorno, de uma característica de personalidade, de altas habilidades ou de uma combinação desses fatores”, pontua.

4. Tédio diante de atividades repetitivas
A falta de desafio pode gerar desinteresse na escola ou frustração no trabalho. Isso não significa, porém, que uma pessoa superdotada seja excelente em todas as áreas. Fabrícia Signorelli ressalta que as altas habilidades podem se manifestar de forma desigual.
“Uma pessoa superdotada pode ter uma capacidade muito acima da média em determinada área e apresentar um desempenho apenas mediano em outra. Por isso, esperar que ela seja brilhante o tempo inteiro é um erro. A falta de desafio também pode levar ao desengajamento, principalmente quando as atividades não despertam curiosidade”, explica a médica.
5. Esconder o próprio conhecimento para se adaptar
Algumas meninas aprendem cedo a controlar a demonstração de suas capacidades para evitar rejeição ou para se encaixar no grupo. Esse processo pode dificultar o reconhecimento das altas habilidades pela família e pela escola.
“A identificação da superdotação ainda carrega vieses históricos. Durante muito tempo, o imaginário sobre a pessoa superdotada esteve associado a manifestações mais evidentes de desempenho, produtividade e destaque acadêmico, características que nem sempre aparecem dessa forma nas mulheres”, explica o psicólogo e neuropsicólogo Damião Silva, especialista em superdotação, TDAH e autismo.
Importância do diagnóstico de superdotação
Apresentar algumas características não confirma superdotação. Damião Silva alerta que é preciso considerar o conjunto de informações e a possibilidade de coexistência com outras condições. “Intensidade emocional, elevada autocrítica, perfeccionismo, necessidade de aprofundamento, sensibilidade, pensamento muito acelerado, interesses intensos e sensação de inadequação podem aparecer em algumas mulheres superdotadas. Isoladamente, porém, nenhuma dessas características identifica superdotação”, ressalta.
A identificação pode acontecer somente na vida adulta, depois de anos de dúvidas sobre a própria forma de pensar, aprender e se relacionar. O processo pode ajudar a ressignificar experiências, mas não deve ser usado para explicar automaticamente toda a trajetória da pessoa.
“Vale buscar uma avaliação especializada quando compreender que esse funcionamento pode responder questões importantes sobre a própria história, aprendizagem, trabalho ou saúde emocional. Uma avaliação adequada precisa ser abrangente e não pode se limitar a um teste de QI: deve integrar dados cognitivos, emocionais, comportamentais, desenvolvimentais e contextuais”, explica Damião Silva.
A discussão sobre mulheres famosas como Fabiana Karla, Shakira, Natalie Portman, Geovanna Tominaga e Bruna Louise ajuda a ampliar a percepção sobre as diferentes formas de manifestação das altas habilidades. Para muitas mulheres, compreender esse funcionamento pode representar não apenas uma resposta para experiências passadas, mas uma oportunidade de construir uma relação mais consciente com suas potencialidades, necessidades e desafios.
Por Sarah Carvalho
