A ansiedade está entre as queixas frequentes nos consultórios de saúde mental. Para o psiquiatra e pesquisador Nassir Ghaemi, porém, identificar esse sintoma não deveria encerrar a investigação clínica. Em sua abordagem, é necessário compreender o que está por trás da manifestação, considerando a possibilidade de ela estar associada a outras condições psiquiátricas, como depressão e transtorno bipolar.

continua após a publicidade

O especialista compara a ansiedade à febre: embora ambas possam ser manifestações de diferentes condições, nem sempre representam, isoladamente, a origem do problema. A analogia sustenta sua crítica a uma prática que considera excessivamente concentrada no alívio dos sintomas, sem investigação suficiente das possíveis causas.

“A psiquiatria difere em um aspecto importante: não dispomos de bons exames laboratoriais. Como resultado, tornou-se comum que psiquiatras e outros profissionais de saúde mental se limitem ao nível dos sintomas”, afirma Nassir Ghaemi.

O pesquisador defende que a avaliação psiquiátrica considere não apenas o que o paciente sente no momento da consulta, mas também a trajetória dos sintomas, os episódios anteriores, o histórico familiar e as respostas a tratamentos já realizados. Sua posição vai além do entendimento clínico convencional, pois questiona se determinadas manifestações classificadas como transtornos de ansiedade constituem doenças independentes ou fazem parte de outros quadros.

continua após a publicidade

A seguir, Nassir Ghaemi explica cinco questões que, em sua perspectiva, merecem atenção na investigação clínica da ansiedade.

1. A ansiedade é a origem do problema ou uma manifestação de outra condição?

Para Nassir Ghaemi, a primeira questão é distinguir o sintoma da condição que pode estar provocando sua manifestação. Assim como a febre pode ocorrer em diferentes doenças, a ansiedade pode aparecer em contextos clínicos distintos.

continua após a publicidade

“Quando alguém apresenta ansiedade, isso não constitui uma doença específica por si só; é algo causado por outro fator. E, se não for causada por outro fator, trata-se simplesmente de uma característica da personalidade da pessoa”, afirma.

O psiquiatra considera que a ansiedade pode estar relacionada, entre outras possibilidades, à depressão e ao transtorno bipolar. Por isso, defende que a avaliação não parta automaticamente do sintoma para a definição de um diagnóstico independente.

A posição é controversa: as classificações e diretrizes psiquiátricas atuais reconhecem transtornos de ansiedade específicos, que podem ocorrer isoladamente ou em associação com outras condições. A questão levantada pelo pesquisador é se, em determinados casos, a investigação das possíveis causas e da hierarquia entre os diagnósticos recebe atenção suficiente.

2. Por que investigar a história clínica e não apenas os sintomas atuais?

Uma consulta oferece um retrato do estado do paciente naquele momento, mas nem sempre revela como o quadro se desenvolveu. Para Nassir Ghaemi, a evolução dos sintomas é fundamental para compreender seu significado clínico.

O médico cita o exemplo de uma mulher de 30 anos que procura atendimento por apresentar ataques de pânico. Ao investigar seu histórico, descobre que ela teve episódios depressivos graves aos 15, 20 e 25 anos, cada um com duração aproximada de três meses. Em todas as ocasiões, os ataques de pânico também estavam presentes. Na avaliação atual, o profissional identifica novamente sintomas depressivos. O histórico familiar revela ainda casos de depressão grave na mãe, na irmã e em dois tios, um deles falecido por suicídio.

Para Nassir Ghaemi, a combinação dessas informações muda a interpretação do caso: os ataques de pânico poderiam estar associados a um episódio depressivo, em vez de representar, necessariamente, um problema independente. O exemplo ilustra o raciocínio defendido pelo pesquisador, mas não estabelece uma regra universal. A identificação da condição responsável pelos sintomas exige avaliação individualizada e consideração de outras hipóteses clínicas.

Uma sessão de terapia em andamento, mostrando um profissional de costas fazendo anotações enquanto uma jovem com fones de ouvido no pescoço e uma mulher adulta com óculos conversam sentadas em um sofá
Conhecer os antecedentes familiares ajuda a ampliar a investigação para além da queixa que motivou a consulta (Imagem: Yuganov Konstantin | Shutterstock)

3. Qual é o papel do histórico familiar na investigação da ansiedade?

O histórico familiar é outro elemento que Nassir Ghaemi considera importante. A ocorrência de transtornos psiquiátricos entre parentes pode oferecer informações relevantes sobre a predisposição a determinadas condições, especialmente quando analisada em conjunto com a trajetória clínica do paciente.

Segundo o especialista, conhecer os antecedentes familiares ajuda a ampliar a investigação para além da queixa que motivou a consulta. No exemplo apresentado anteriormente, a presença de vários familiares com depressão grave reforça a necessidade de investigar essa possibilidade na paciente que apresenta ataques de pânico.

O histórico familiar, entretanto, não determina que uma pessoa desenvolverá uma doença nem permite estabelecer um diagnóstico isoladamente. Seu valor está na combinação com os sintomas, a evolução do quadro e os demais dados clínicos.

4. A melhora com medicamentos confirma que o diagnóstico está correto?

Na avaliação de Nassir Ghaemi, a resposta ao tratamento precisa ser interpretada com cautela. O alívio de um sintoma não demonstra, por si só, que a hipótese diagnóstica inicial esteja correta. Para explicar o argumento, o psiquiatra retoma a analogia da febre: um medicamento pode reduzir a temperatura corporal sem eliminar a doença que provocou o sintoma. “Em outras palavras, a melhora dos sintomas não significa que o diagnóstico esteja correto”, afirma.

O raciocínio também vale para a ausência de melhora. Quando o tratamento não produz o resultado esperado, o médico considera que isso pode ser um motivo adicional para reavaliar a hipótese diagnóstica, embora não constitua prova de que ela esteja errada.

A resposta terapêutica deve ser analisada junto a outros elementos, como a evolução dos sintomas, o histórico pessoal e familiar, a adequação do tratamento e possíveis efeitos adversos. Nenhuma dessas informações, isoladamente, confirma ou descarta um diagnóstico.

5. O que precisa mudar na avaliação psiquiátrica, segundo o pesquisador?

A principal crítica de Nassir Ghaemi é dirigida ao que considera uma tendência de concentrar a avaliação e o tratamento nos sintomas, sem investigar suficientemente as condições que podem estar relacionadas a eles. Para o psiquiatra, a prática clínica deve valorizar uma perspectiva longitudinal, que considere o histórico do paciente, os episódios anteriores, os antecedentes familiares e as respostas a tratamentos prévios.

Ele também questiona os limites dos modelos de classificação diagnóstica quando aplicados sem uma análise mais ampla do caso individual. Sua proposta é dar maior atenção à relação entre os sintomas e o quadro clínico como um todo.

Essa discussão dialoga com um princípio presente em diretrizes internacionais: a avaliação de pessoas com suspeita de transtornos de ansiedade não deve se restringir à contagem ou à intensidade dos sintomas. A orientação do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), do Reino Unido, recomenda considerar também o histórico de saúde mental, condições concomitantes e respostas a tratamentos anteriores.

A divergência está no alcance das conclusões. Enquanto as diretrizes reconhecem transtornos de ansiedade como condições clínicas específicas, Nassir Ghaemi questiona a validade de determinadas categorias e defende que parte dos casos seja compreendida a partir de outros diagnósticos ou de características individuais.

Para o pesquisador, o objetivo é evitar que o alívio de uma manifestação seja confundido com a compreensão completa do quadro. A avaliação deve ser conduzida por um profissional qualificado, e qualquer mudança no tratamento precisa ser discutida com o médico responsável.

Por Ana Carolina Freitas