Tomar decisões faz parte da rotina de qualquer empreendedor. Contratar profissionais, definir investimentos, cortar custos, lançar produtos ou mudar uma estratégia exigem escolhas constantes. Embora empresas tenham ampliado o uso de inteligência artificial, automação e análise de dados para reduzir erros, existe um fator que continua interferindo diretamente nessas decisões: o funcionamento do cérebro de quem está no comando.
Segundo o AlixPartners Disruption Index 2026, levantamento realizado com 3.200 CEOs e executivos seniores de 11 países, 45% dos CEOs afirmam ter ficado para trás em conhecimentos e competências. Ao mesmo tempo, 80% dos executivos demonstram otimismo em relação ao impacto da inteligência artificial nas empresas.
Para Thiago Shimada, bacharel em Comunicação Social, com pós-graduação em Neurociência e especialista em neuromodulação aplicada ao mecanismo decisório de donos de negócio e profissionais da alta liderança, a tecnologia pode ampliar a capacidade de análise, mas não impede que padrões mentais interfiram na interpretação das informações.
“O cérebro do empreendedor pode se tornar o principal gargalo da empresa quando decisões que funcionaram no passado passam a ser repetidas automaticamente. O negócio muda de tamanho, aumenta a complexidade, mas o líder continua respondendo aos problemas com as mesmas referências”, afirma.
A seguir, o especialista explica alguns comportamentos que podem prejudicar a tomada de decisão nos negócios.
1. Procurar apenas informações que confirmam uma opinião
O chamado viés de confirmação faz com que as pessoas deem mais atenção a informações que sustentam aquilo em que já acreditam e reduzam o peso de evidências contrárias. No ambiente empresarial, isso pode acontecer quando um empreendedor decide manter determinada estratégia e passa a selecionar apenas indicadores que comprovem que ela está funcionando, ignorando sinais de que uma mudança seria necessária. Com o tempo, esse comportamento pode dificultar correções de rota e prolongar investimentos em iniciativas que já não apresentam os resultados esperados.
2. Confiar demais na própria experiência
A experiência acumulada é importante para a gestão, mas também pode criar certezas difíceis de questionar. Situações semelhantes nem sempre exigem as mesmas respostas, principalmente quando a empresa cresce, muda de público ou passa a atuar em condições diferentes.
“A experiência ajuda a reconhecer padrões, mas também pode criar certezas difíceis de questionar. Quando o líder acredita que já sabe como uma situação vai terminar, aumenta o risco de interpretar os fatos pelas experiências anteriores”, explica o estrategista de Business Performance.
Por isso, decisões importantes precisam considerar não apenas aquilo que funcionou anteriormente, mas também dados atuais e mudanças ocorridas no próprio negócio.

3. Manter um projeto apenas porque já houve investimento
Outro comportamento comum está relacionado à aversão à perda. Depois de investir dinheiro, tempo e energia em um projeto, o empreendedor pode ter dificuldade de interrompê-lo mesmo diante de resultados abaixo do esperado. O receio de admitir uma perda pode levar a novos investimentos na tentativa de recuperar aquilo que já foi empregado. Na prática, porém, insistir em uma estratégia sem perspectivas pode ampliar o prejuízo. Revisar periodicamente metas, custos e resultados ajuda a separar a decisão atual do investimento realizado anteriormente.
4. Usar inteligência artificial para reforçar decisões antigas
Ferramentas de inteligência artificial conseguem cruzar informações, identificar padrões e produzir projeções rapidamente. Isso, no entanto, não significa que suas conclusões serão necessariamente utilizadas na gestão.
“A inteligência artificial pode entregar uma análise sofisticada, mas não obriga ninguém a aceitá-la. Se o empresário procura apenas informações que confirmem aquilo em que já acredita, pode usar uma tecnologia nova para continuar tomando decisões antigas. O cérebro do empreendedor continua sendo parte central dessa equação”, ressalta o especialista em neuromodulação.
Nesse caso, a tecnologia pode até aumentar a quantidade de dados disponíveis sem necessariamente melhorar a qualidade da escolha.
5. Tomar decisões importantes sempre da mesma forma
À medida que uma empresa cresce, decisões que antes tinham impacto limitado passam a envolver equipes maiores, fornecedores, clientes, investimentos e planejamento financeiro. Por isso, critérios utilizados nas fases iniciais do empreendimento podem deixar de funcionar quando a operação se torna mais complexa.
Uma maneira de reduzir essa interferência é definir previamente critérios objetivos para decisões relevantes, comparar percepções pessoais com indicadores e buscar opiniões que contrariem a hipótese inicial. Também é importante observar comportamentos recorrentes em situações de pressão, risco ou necessidade de mudança.
“O comportamento que levou uma empresa até determinado patamar não necessariamente será o mesmo que permitirá chegar ao próximo. Existe um momento em que o empresário precisa deixar de perguntar apenas o que deve mudar no negócio e começar a observar o que precisa mudar na própria forma de decidir”, aponta Thiago Shimada.
Por Carolina Lara