O silêncio que a doença de Alzheimer costuma impor à rotina de muitas famílias às vezes é interrompido por algo inesperado: uma canção. Em Londrina, no Norte do Paraná, uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Estadual de Londrina investigou justamente como a musicoterapia pode transformar, ainda que por instantes, o cotidiano de pessoas que vivem com demência e de seus familiares cuidadores.

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O estudo acompanhou durante um ano as sessões do projeto MusicalMente, desenvolvido pelo Instituto Não Me Esqueças, organização referência nacional em terapias não farmacológicas voltadas ao cuidado de pessoas com Alzheimer e outras demências. A pesquisa foi conduzida pela fisioterapeuta e pesquisadora Larissa Laskovski, sob orientação da professora Suhaila Mahmoud Smaili, do Departamento de Fisioterapia da UEL.

Mais do que medir resultados clínicos, a investigação buscou compreender experiências, emoções e mudanças percebidas por quem participa das sessões. O trabalho mostrou que a música passou a ocupar novos papéis na vida das famílias: virou ferramenta de comunicação, aproximação afetiva e até manejo de momentos de agitação.

“As expectativas sobre a participação de um indivíduo com diagnóstico de demência em uma intervenção de musicoterapia não devem estar baseadas nos resultados finais e, sim, no processo”, explica Larissa. “Buscar a musicoterapia como cura da doença ou reversão das falhas de memória seria um erro. O mais importante é a experiência subjetiva valiosa que traz alegria, melhora atenção, estabelece interação social e muda o comportamento daqueles que participam”, afirma.

Conexões que resistem à doença

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Ao longo da pesquisa, Larissa acompanhou semanalmente os encontros da musicoterapia, participando das atividades ao lado dos pacientes e familiares. Foram analisados relatos, reações emocionais e mudanças observadas dentro e fora das sessões.

Segundo a pesquisadora, mesmo pacientes em estágios avançados da doença demonstravam envolvimento com as propostas musicais. Muitos chegavam mais atentos, comunicativos e dispostos a interagir. Em alguns casos, familiares relataram redução da agitação e melhora no humor nas horas seguintes às sessões. “Os pacientes ficavam mais alegres, mais expressivos e com menos agitações durante todo o dia em que a sessão acontecia”, conta Larissa.

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Em um dos relatos reunidos pela pesquisa, uma esposa afirmou que o marido, diagnosticado com demência frontotemporal, permanecia tão tranquilo após os encontros que conseguia ficar um ou dois dias sem medicação para conter agitação.

Outro aspecto que chamou atenção foi o fato de o hábito prévio de ouvir música não influenciar no engajamento dos participantes. Mesmo idosos sem relação próxima com canções no cotidiano respondiam positivamente às atividades conduzidas pela musicoterapeuta. “Muitas famílias acreditam que a musicoterapia não vai funcionar porque aquele idoso nunca gostou de música. Mas isso é um engano”, diz Larissa. “A música está em tudo que envolve nossa vida e nossa cultura.”

Para a professora Suhaila Mahmoud Smaili, a música consegue acessar caminhos que permanecem preservados mesmo com o avanço da doença. “Os circuitos neurais necessários para cantar ou apreciar uma música são menos propensos a serem interrompidos do que aqueles necessários para a fala”, explica. “Embora muitas pessoas em estágio avançado do Alzheimer estejam incapazes de falar, elas ainda apreciam e reagem à música.”

Sessões de musicoterapia do Instituto Não Me Esqueças ajudam a fortalecer vínculos afetivos entre pacientes com Alzheimer e familiares cuidadores. Foto: Cristiano Nakajima/Instituto Não me Esqueças

Instituto Não Me Esqueças amplia cuidado gratuito a famílias com Alzheimer

Criado em 2017 a partir da experiência de mulheres que cuidavam de familiares com Alzheimer, o Instituto Não Me Esqueças nasceu em Londrina com a missão de oferecer acolhimento, orientação e terapias gratuitas para pessoas que vivem com demência e seus cuidadores.

A presidente da instituição, Elaine Mateus, afirma que o trabalho busca combater o isolamento e transformar a forma como a sociedade enxerga a doença. “Quando comecei a buscar informação e apoio, encontrei pouca orientação acessível e um discurso muito marcado pela ideia de perda e tristeza. Aquilo não correspondia à mulher ativa e alegre que minha mãe continuava sendo”, conta.

Hoje, o instituto oferece oficinas de estimulação cognitiva, grupos de apoio, terapia comunitária integrativa e sessões de musicoterapia. Apenas em 2025, foram realizados mais de 14 mil atendimentos gratuitos, a maioria voltada a famílias dependentes do SUS.

O acesso às atividades ocorre principalmente por meio do CAPAz, serviço de Cuidado e Apoio a Pessoas com Alzheimer e seus familiares. O MusicalMente prioriza pacientes já acompanhados pelo instituto e pessoas que apresentam dificuldade de participação em outras oficinas terapêuticas. A inclusão depende de avaliação da equipe e da disponibilidade de vagas: atualmente, cerca de 40 famílias aguardam atendimento.

Além da sede em Londrina, o Instituto também realiza ações em centros de convivência da cidade e promove palestras, grupos psicoeducativos e atividades abertas à comunidade. Segundo Elaine, a proposta é garantir acesso gratuito a terapias não farmacológicas e ampliar a conscientização sobre demências. “As estratégias não medicamentosas não curam a demência, mas podem ajudar a preservar capacidades, reduzir o isolamento e oferecer maior qualidade de vida pelo maior tempo possível”, afirma.