Saúde

Bebê com incômodo ao mamar? Novo guia ensina a tratar intolerância à lactose sem tirar o leite materno

Imagem mostra um detalhe dos pezinhos de um bebê.
A realização de exames neonatais de rotina, como o teste do pezinho, permite a identificação precoce de doenças metabólicas e genéticas, assegurando intervenções em tempo hábil. Foto: Pixabay/ Marjon Besteman.

Bebês prematuros e recém-nascidos podem apresentar dificuldade para digerir a lactose, principal carboidrato do leite materno, porque ainda não produzem quantidade suficiente de lactase, enzima intestinal responsável por quebrar esse açúcar. Diferentemente da rara doença genética que impede a produção da enzima, a intolerância nessa fase da vida costuma estar ligada à imaturidade do sistema digestivo ou a lesões intestinais temporárias. Um novo consenso clínico oferece orientações práticas para identificar o problema e ajustar a alimentação sem comprometer a nutrição do bebê, segundo estudo publicado na revista Pediatric Discovery.

Os sinais mais comuns incluem choro persistente, regurgitação, distensão abdominal e fezes amolecidas, mas esses mesmos sintomas aparecem em infecções, alergia à proteína do leite de vaca e doenças intestinais graves. Testes desenvolvidos para crianças maiores podem ser pouco confiáveis ou impraticáveis em recém-nascidos, e mudanças desnecessárias na dieta podem prejudicar o crescimento. Por isso, o diagnóstico preciso e as escolhas alimentares adequadas continuam sendo um desafio para médicos e famílias.

O documento foi elaborado por grupo multidisciplinar coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa Clínica para Saúde e Distúrbios Infantis, em Chongqing, na China, com participação do Hospital Infantil da Universidade Médica de Chongqing e outras instituições chinesas. Sob coordenação geral de Yuan Shi, o trabalho traduziu evidências científicas e experiência clínica em dez recomendações práticas sobre reconhecimento de sintomas, testes diagnósticos, diagnóstico diferencial e tratamento, especialmente para prematuros.

O grupo revisou 61 publicações, incluindo ensaios clínicos randomizados, estudos observacionais, revisões sistemáticas e diretrizes anteriores. A qualidade das evidências foi avaliada pelo sistema GRADE, e o processo Delphi modificado foi aplicado quando as evidências eram limitadas. O protocolo começa pela observação de sintomas e alterações nas fezes, incluindo odor ácido incomum.

Como identificar e confirmar intolerância à lactose em bebês?

Para recém-nascidos sintomáticos, testes de açúcares redutores nas fezes ou dosagem de galactose na urina podem apoiar a triagem inicial, mas nenhum exame isolado fecha o diagnóstico. Os médicos devem antes descartar condições como enterocolite necrosante e alergia à proteína do leite de vaca. Em seguida, podem considerar um teste de eliminação supervisionado, avaliando se os sintomas melhoram com suplementação de lactase ou redução da lactose na dieta.

Para bebês amamentados com intolerância à lactose, a recomendação mais forte é manter o aleitamento materno e adicionar lactase. Bebês alimentados com fórmula podem receber lactase ou fórmula com teor reduzido de lactose. Fórmula totalmente sem lactose não é recomendada como primeira linha nem como alimentação preventiva. O tratamento geralmente dura pelo menos duas semanas, com duração ajustada conforme a recuperação clínica.

Probióticos que produzem a enzima beta-galactosidase são descritos como possíveis coadjuvantes, embora as evidências em recém-nascidos sejam limitadas e existam preocupações de segurança em prematuros extremos. O consenso também favorece preparações de lactase com segurança e eficácia demonstradas, em vez de produtos não validados.

Quando manter o leite materno?

Os autores destacaram que as decisões alimentares devem responder aos sintomas e à condição clínica do bebê, não à suposição de que a lactose sempre precisa ser evitada. Eles enfatizaram que as recomendações visam ajudar os médicos a distinguir intolerância à lactose de outras causas de desconforto alimentar, preservando as vantagens nutricionais do leite humano. Também alertaram que as evidências permanecem desiguais, especialmente para prematuros extremos e tratamentos com probióticos.

O consenso oferece ponto de partida prático para cuidado mais consistente, mas não substitui avaliação individualizada nem ensaios clínicos mais robustos. Para equipes de terapia intensiva neonatal e pediatras, o documento apresenta estrutura passo a passo para decidir quando testar, quando intervir e quando reconsiderar um diagnóstico. Também pode ajudar famílias a entender por que continuar o leite materno pode ser compatível com o manejo da intolerância à lactose.

As recomendações se aplicam a recém-nascidos e prematuros abaixo de 44 semanas de idade gestacional corrigida, mas não são prescrição universal. Bebês gravemente doentes e aqueles com deficiência congênita rara de lactase exigem avaliação e manejo diferentes. Os autores pedem ensaios clínicos randomizados maiores para esclarecer momento do tratamento, desfechos de longo prazo e segurança de probióticos, particularmente nos prematuros mais extremos.

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