Saúde

Imaginar o bebê na gravidez muda fisicamente o cérebro da mãe, revela estudo

Imagem mostra uma mulher grávida segurando a barriga com as duas mãos.
O acompanhamento pré-natal regular é indispensável para monitorar o desenvolvimento gestacional e assegurar o bem-estar tanto da mãe quanto do bebê. Foto: Depositphotos.

Mulheres que imaginam mais o bebê durante a gestação e interagem com o feto apresentam maior coordenação de atividade entre regiões específicas do cérebro. A descoberta sugere que aspectos do vínculo emocional entre mãe e filho já se refletem na atividade cerebral materna antes do nascimento, segundo estudo publicado na revista científica Developmental Cognitive Neuroscience.

A gravidez é marcada por mudanças psicológicas e neurobiológicas associadas à transição para a maternidade e ao desenvolvimento de comportamentos de cuidado. Um dos aspectos centrais desse processo é o apego materno-fetal, o vínculo emocional entre a gestante e o bebê ainda não nascido, expresso em pensamentos, sentimentos e comportamentos direcionados ao feto.

Esse apego é multidimensional: envolve desde a atenção da gestante às mudanças no corpo e aos movimentos fetais até interações com o feto, a capacidade de imaginar o bebê e antecipar a vida juntos, além da motivação para adotar comportamentos que promovam a saúde e o bem-estar do filho.

Pesquisas anteriores indicam que níveis mais elevados de apego materno-fetal durante a gravidez estão associados a vínculos pós-natais mais fortes, comportamento materno mais sensível e interações mãe-bebê mais responsivas após o nascimento. Apesar de décadas de pesquisa sobre o tema, porém, sua base neurobiológica permanecia pouco compreendida.

Kathy Ayala e Helena Rutherford, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, conduziram um estudo com 35 mulheres no terceiro trimestre de gestação, com idade gestacional média de 36,8 semanas. As participantes foram submetidas a um eletroencefalograma em repouso. A partir desses registros, as pesquisadoras analisaram a coerência dos sinais cerebrais, uma medida de conectividade entre regiões do córtex associada a processos cognitivos, atencionais e emocionais relevantes para a parentalidade.

Usando os dados do eletroencefalograma, as cientistas calcularam a coerência na banda alfa em regiões intrafrontais, intraparietais e frontoparietais. Essa medida estima o grau em que a atividade em diferentes regiões cerebrais ocorre de forma coordenada. O apego materno-fetal foi avaliado por meio do Inventário de Apego Pré-natal Revisado, que compreende três dimensões: antecipação, interação e diferenciação.

Os resultados mostraram que o aumento da coerência alfa frontoparietal esquerda e intrafrontal estava associado a pontuações mais altas nas subescalas de antecipação e interação do inventário. Ou seja, gestantes que imaginavam o bebê com mais frequência, antecipavam a vida juntos e se engajavam mais com o feto também apresentavam maior coordenação de atividade entre regiões cerebrais específicas. Essas associações permaneceram mesmo após considerar a idade gestacional e a paridade, isto é, se a mulher já havia dado à luz anteriormente.

As descobertas sugerem que diferenças individuais na conectividade cortical estão associadas ao apego materno-fetal, particularmente aos aspectos antecipatórios e interacionais do envolvimento psicológico da gestante com o feto. Identificar essas associações neurais indica que alguns processos relacionados ao apego materno-fetal podem estar refletidos na conectividade cerebral durante a gravidez, contribuindo para uma melhor compreensão da base neurobiológica desse vínculo precoce.

“Nosso estudo sugere que diferenças individuais na conectividade cerebral materna estão associadas a aspectos específicos do vínculo emocional com o feto, oferecendo novas perspectivas sobre a base neurobiológica dessa relação precoce entre mãe e filho”, afirma Helena Rutherford.

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