Um morto, dois feridos
e três foragidos.

Um morto, dois feridos e três foragidos. Este foi o saldo da rebelião de presos ocorrida no 11.º Distrito Policial, que movimentou a região da Cidade Industrial na tarde de ontem e durou seis horas. Os presos renderam um policial, tomaram sua arma e depois trocaram tiros com os plantonistas. Eles só devolveram a pistola ponto 40, às 19h45 de ontem.

Para conter os detentos, mais de 30 homens do Tático Integrado de Grupos de Repressão (Tigre), Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), do 8.º Distrito (Portão), e da própria distrital, além de militares e de bombeiros, participaram da operação.

Por volta das 14h, os plantonistas ouviram gritos vindos do xadrez, onde estavam 81 presos. Um dos policiais desceu até a carceragem, que fica numa espécie de porão, para ver o que estava acontecendo e encontrou um dos presos coberto de sangue. Ele retirou o detento da cela e o colocou em outra. Em seguida, retornou para a sala do plantão, que antecede a carceragem. Minutos depois, os gritos recomeçaram. Novamente o policial foi ver o que tinha acontecido. Só que assim que abriu o cadeado do corredor foi cercado pelos presos, que já haviam serrado todos os cadeados dos cubículos. Os detentos tomaram a pistola calibre ponto 40 do policial e mais dois carregadores, contendo munição, que estavam na cinta. Durante o tumulto, o assaltante Willian Ferreira Andrade e os ladrões Alex Fernando de Oliveira Saraiva, Erick dos Santos e João Altair Gomes conseguiram transpor a porta e escaparam pela frente da delegacia. Somente um deles, João Altair, foi recapturado minutos depois. Os outros três continuavam sendo procurados até o final da noite de ontem.

O plantonista conseguiu se desvencilhar dos presos e trancou o cadeado do corredor, subiu a escada e também trancou a porta de madeira que separa o plantão da carceragem. Armados, os presos trocaram tiros com o outro plantonista. Mais de 15 projéteis ficaram crivados nas portas e paredes da delegacia. Um dos rebelados, identificado como Anderson Serednicki, foi atingido no peito e morreu dentro da carceragem. Marcos Roberto Martins de Córdoba, 35 anos (preso por porte ilegal de arma) e José Carlos Martins de Oliveira, 29 (preso por roubo), foram espancados pelos colegas.

A pistola que estava em poder dos presos e a do plantonista, foram recolhidas pelo perito Emir, da Polícia Científica, para exames que indicarão quem deu o tiro que matou Anderson.

Negociações difíceis duraram seis horas

Após cessar a troca de tiros, os dois plantonistas pediram reforço aos seus colegas de outras delegacias e a policiais militares para conter os presos. Os primeiros a chegar foram os policiais do 8.º Distrito (Portão), na seqüência, órgãos especializados da Polícia Civil e milicianos.

Mesmo com a delegacia cercada pela polícia, os detentos continuaram a aterrorizar seus colegas de cela, talvez para chamar a atenção dos policiais. Mais tiros foram disparados dentro do xadrez, possivelmente foi um deles que matou Anderson Serenicki. Os amotinados ainda tentaram escapar pelo telhado, mas como toda a delegacia já estava cercada, foram impedidos novamente. Ambulâncias do Siate foram chamadas para atender os feridos.

Com a chegada dos policiais do Grupo Tigre, o delegado Rockebar entrou no corredor que dá acesso à carceragem, para negociar com os detentos, que se negavam a entregar a arma. Um deles, que aparentava liderar o grupo, contou que um preso já estava morto e alegou que ele foi atingido durante a troca de tiros entre os policiais e os rebelados. Aparentemente, os presos não tinham exigência alguma para fazer, como a transferência para o sistema penitenciário.

Por volta das 16h, eles exigiram a presença da imprensa para continuar a negociação. O cinegrafista da emissora de televisão ficou ao lado dos policiais, durante horas, e os presos ainda se recusavam a entregar a arma. Por volta das 19h, os detentos fizeram nova exigência: a presença de seus advogados. Os policiais entraram em contato com mais de dez defensores, mas somente três se dispuseram a comparecer na delegacia. A espera foi longa, mas às 19h45, os detentos se renderam e entregaram a pistola com um dos carregadores, contendo apenas quatro projéteis. Outros nove já haviam sido disparados. Quando os advogados chegaram a situação já estava controlada.

"Eles queriam fugir"

O delegado Sérgio Taborda, titular do 11.º Distrito Policial (CIC), disse que a intenção dos presos era só fugir. "Normalmente quando ocorrem rebeliões, eles têm reclamações como superlotação, transferências, alimentação, entre outras, mas não foi o caso. Tanto que não tinham nem exigências para fazer durante a negociação", salientou o delegado.

Taborda disse que, no último dia 7 de abril, os presos receberam a visita do juiz da Corregedoria dos Presídios, que inspecionou todas as celas. "Eles não pediram nada. Nem remoções para Colônia Penal Agrícola ou para o sistema penitenciário, que é um local mais adequado", ressaltou Taborda, informando que o xadrez tem capacidade para 40 detentos e está abrigando o dobro. Comparando com outras delegacias, o distrito até que está em uma posição confortável e fora de risco. Segundo o delegado, entre os presos há condenados, mas estes são foragidos que foram recapturados há pouco tempo.

O delegado informou que a última fuga que aconteceu na delegacia foi em dezembro de 2003. Em fevereiro do ano passado, um grupo tentou resgatar traficantes. Houve troca de tiros, mas somente um cachorro, que perambula pelo pátio da delegacia foi ferido por um dos disparos.

Situação caótica

Dois plantonistas para atender 81 detentos e ainda registrar ocorrências. A situação caótica vivida, não só pelo 11.º Distrito, mas pela grande maioria das delegacias, faz com que presos ousados, aproveitando da deficiência de pessoal na polícia, tomem atitudes como a de ontem à tarde, que por pouco não resultou em uma tragédia.

A situação é ainda pior na Região Metropolitana, onde um único policial toma conta de dezenas de presos, amontoados em celas sem a menor condição de higiene. A falta de estrutura acaba motivando fugas e invasões, como aconteceu no ano passado em Colombo, onde um investigador foi morto para impedir o arrebatamento de presos.