Integrantes das três gangues da Vila Torres se uniram pela primeira vez, na tarde de ontem. Eles aderiram ao protesto de moradores, que pediam justiça pelo assassinato de André Santos das Neves, 21 anos, morto pela Polícia Militar na madrugada de anteontem.

O protesto iniciou às 16h30 com o fechamento da Avenida Comendador Franco (Avenida das Torres), entre a Rua Engenheiro Rebouças e a Guabirotuba. Nos arredores da vila, cada gangue bloqueou as ruas em sua área de atuação, gerando cerca de 15 quilômetros de congestionamento. Os bloqueios foram feitos com fogueiras de pneus, pedaços de madeira retirados de outdoors, lixo e outros objetos.

Limite da orientação e agressão foi quebrado algumas vezes.

Batalha

A manifestação virou selvageria e a via ficou parecendo campo de batalha. Quem tentava passar pelo bloqueio, tinha o veículo apedrejado. Uma mulher ficou com o rosto ferido, dos estilhaços dos vidros de seu carro. Todas as vias de acesso à Vila Torres foram bloqueadas.

Havia a participação de muitas mulheres e crianças, com pedaços de pau nas mãos, revoltadas com a morte de André. Outros bebiam no meio da confusão, parecendo não se importar muito com o motivo do protesto.

O movimento era itinerante, ora na Avenida Comendador Franco, ora em parte da Rua Guabirotuba. Os manifestantes não ficavam parados ao lado dos bloqueios de fogo.

Como se não bastasse o caos que se formou bem no horário de pico, integrantes das gangues davam tiros para o alto. Até explosão de bombas foram presenciadas pela equipe do Paraná-Online.

Há informações, extra-oficiais, que marginais estariam cobrando R$ 2,00 de pedágio, a quem passasse pela Rua Embaixador Hipólito de Araújo. Moradores e comerciantes locais entraram em pânico e muitos correram às pressa da vila. Outros, que tinham familiares chegando em casa naquele horário, tentavam fazer contato pelos celulares para que esperassem longe dali.

Trânsito ficou parado cerca de três horas.

Polícia

Aproximadamente 10 viaturas do 12.º Batalhão da PM, com dois policiais cada, estiveram no local e mantiveram o policiamento de longe, para evitar represálias e confrontos com os participantes.

O Regimento de Polícia Montada deu apoio ao 12.º Batalhão. Não houve nenhum tipo de animosidade entre manifestantes e policiais. Por volta das 19h, o protesto já havia terminado e as duas pistas da Avenida Comendador Franco estavam liberadas. Muito lentamente o trânsito voltou ao normal.

Família de vítima contesta PM

Faixas e cartazes pediam que a polícia tivesse “clemência”. “A polícia não se interessa se a gente trabalha, se estuda ou não faz nada da vida. Eles generalizam que todo morador daqui é bandido”, reclamou Ane Caroline Barreto, 19 anos, prima de André e uma das líderes do protesto.

Ela contestou a versão dada pela PM, de que André foi visto caminhando próximo à Avenida do Canal e correu atirando contra os policiais. No revide, ele teria sido atingido e levado com vida ao Hospital Cajuru, onde morreu pouco depois. No boletim registrado pela PM, André foi encontrado com uma espingarda calibre 12, uma submetralhadora 9 milímetros e 50 pedras de crack.

Versão

Ane mora ao lado da casa do primo. Ela contou que André dormia em casa com a esposa, grávida de quatro meses, quando os policiais arrombaram a porta. Sete viaturas fecharam a pequena rua, sob a justi,ficativa de denúncia anônima de tráfico de drogas.

As armas e o crack, na versão da jovem, foram ”plantados” pelos policiais. “Meu primo estava cursando o segundo grau (ensino médio). Sequer tinha passagens pela polícia”, disse a jovem.

Ane ainda afirmou que, há uma semana, policiais deram uma “geral” em seu primo e em outros rapazes que participavam de um churrasco na vila. Não se sabe por qual motivo, André foi jurado de morte pelos policiais, ameaça que teria sido cumprida na madrugada de anteontem.

Oficial

Sobre as acusações feitas por Ane, a assessoria de comunicação da PM apenas informou, ontem à noite, que todos os fatos sobre a morte de André estão sendo investigados.

A corporação garantiu que irá se pronunciar assim que tudo estiver apurado. No dia do crime, o major Antônio Zanatta Neto, da comunicação da PM, já havia informado que, além do inquérito instaurado pela Polícia Civil, um procedimento semelhante foi aberto pela PM para apurar responsabilidades.

Vida no meio do horror

Giselle Ulbrich

“Aqui se vive de pavor”, contou um morador antigo da Vila Torres, assustado com a confusão. Ele não quis ter o nome divulgado, com medo de represálias, mas contou que a bandidagem manda no local. “Aqui a polícia não tem o menor valor. Os bandidos botam os policiais pra correr”, disse.

Ele revelou que todos os dias, sem exceção, tem tiroteio na Vila Torres. “Aqui é o pior bairro do Brasil. Vemos moleque de 12 anos com armamento pesado na mão. Se você quiser uma arma, qualquer uma, você consegue rapidinho por aqui.

A PUC, aqui ao lado, corre o maior perigo. Acho que, quando esses bandidos matarem algum estudante da universidade, as autoridades farão alguma coisa”, desabafou o morador.

Ainda na versão do denunciante, a maioria dos integrantes das gangues estuda no Colégio Hildebrando de Araújo, próximo da vila. “De manhã, todos se toleram na escola. À tarde, eles se juntam a suas gangues e são inimigos. Hoje, com esse protesto, a população está apavorada. Não temos para onde correr”, relatou.