É muito comum abrir as páginas dos jornais e observar uma série de crimes praticados por grupos de jovens. Só no mês passado foram diversos casos. Em Curitiba, um grupo tentou invadir uma escola no bairro Boqueirão e na confusão agrediu o diretor, que precisou ser hospitalizado. Em meados de março, três pessoas ficaram feridas e uma morreu em um tiroteio na saída de um bailão. A briga foi motivada por uma rixa antiga entre grupos rivais. No Centro da capital, a população e os comerciantes estão reclamando que são alvos de constantes assaltos de meninos de rua. Em São José dos Pinhais, num confronto entre rivais, vários coletivos foram destruídos. De um lado está a corrente que defende maior rigor na punição contra os jovens, como a redução da maioridade penal. Do outro, uma corrente que afirma que esses jovens é que são as maiores vítimas da violência impregnada na sociedade.  

Mas para o neuropsicólogo, especialista em educação, Eugênio Pereira de Paula Júnior, os jovens não são os bandidos desta história e muito menos as vítimas. Ele prefere dizer que a violência praticada por alguns grupos é apenas um sintoma de uma sociedade cheia de problemas. Eugênio explica que tudo começa com a dificuldade que os jovens têm para criar uma identidade. O problema já começa com a família, que não é bem constituída e onde há uma profunda ausência de valores.

A sociedade também não é isenta. Todos pregam que o cigarro faz mal para saúde, mas boa parte fuma. A ética e a solidariedade também são valores apregoados, mas no dia-a-dia não é isto que se vê. Um bom exemplo são os escândalos políticos que aparecem com freqüência nos jornais.

Sem uma identidade definida, o jovem procura um grupo que tenha os mesmos valores que ele, mesmo que instáveis, em busca de proteção. A partir disto, começam a entrar em choque com tudo o que é diferente do que é aceito pelos colegas. ?De modo inconsciente lutam contra tudo o que pode ameaçar a constituição do grupo?, comenta Eugênio.

Para ele, o problema só será resolvido com o resgate de valores em todos os níveis, começando pela família. Além disto, Eugênio diz que a sociedade é muito permissiva. O neuropsicólogo defende a adoção do padrão de tolerância zero, adotado na cidade de Nova York (EUA), que conseguiu baixar os índices de criminalidade. ?As famílias, as escolas e a sociedade têm sido tolerantes. Os jovens entram pela porta de trás dos tubos de ônibus, os filhos chegam em casa depois do horário estipulado pela família, e não acontece nada?, comenta. ?Não adianta querer resolver o problema de forma macro, mas nas pequenas coisas e cada um tem que fazer a parte que lhe cabe?, completa.

?Não existem gangues?, diz Bodê

Foto: Aliocha Maurício

Bodê afirma que só existem grupos com ligações sociais.

A palavra gangue vem sendo aplicada com naturalidade no dia-a-dia para denominar os grupos de jovens que se metem em confusão, praticam delitos ou crimes. No entanto, o coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Pedro Bodê, afirma que as gangues não existem na capital e Região Metropolitana. Ele explica que este termo não é apropriado para denominar esses grupos de jovens que vivem na capital. As gangues são bem organizadas e agem nos moldes dos mafiosos do filme O Poderoso Chefão, por exemplo. ?Mate para entrar, morra para sair?, é um dos lemas. O que existe em Curitiba e na Região de Curitiba são grupos de jovens que possuem ligações sociais, mas que em algum momento partem para a prática de atos violentos.

Bodê diz que quando são chamados de gangues, a população se mobiliza para cobrar políticas de repressão, em vez cobrar políticas públicas para resolver o problema e prevenir que mais jovens sejam levados por este caminho. Bodê comenta, ainda, que o costume de se reunir em grupos não é coisa de jovens, mas de todas as idades. Os adultos também têm os amigos do futebol, do bar, da universidade, do trabalho…

Para ele, a própria sociedade é a culpada pela violência praticada por estes grupos. Ele explica que o jovem não nasce mal, mas aprende os valores que são repassados. O mundo adulto prega a ética, o respeito, a solidariedade. Mas o que se vê por aí é a corrupção, desvio de verbas públicas e um mercado de trabalho competitivo.

Chácara dá apoio a menores em risco

Jonathan Gomes da Silva, 20 anos, trabalha e cursa o 2.º período de turismo na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Hoje, o futuro lhe parece bem promissor. Mas não o era há 10 anos. A mãe e o padrasto eram alcoólatras. Ele e o irmão estiveram a um passo de ir para a rua. Um caminho que leva para o mundo do crime e das drogas, muitas vezes sem volta.

Jonathan olha para trás e lembra da revolta que carregava dentro de si quando chegou à Chácara Quatro Pinheiros. Conta que com o tempo começou a abrir a mente e ganhou sonhos. Lá, recebeu apoio psicológico, escola e fez uma série de cursos. ?Quando começo a pensar vejo que vivi mais da metade da minha vida aqui. Se não tivesse recebido apoio talvez nem estivesse vivo?, fala. Para ele, boa parte dos jovens não entra na criminalidade por opção, mas por falta de oportunidades.

Junto com ele, vivem na chácara mais 80 meninos que também viviam em situação de risco. ?A primeira coisa que fazemos aqui é estimular que essas crianças tenham um sonho. Como elas podem se recuperar se não esperam nada da sociedade??, comenta o administrador do lugar, Fernando Francisco de Góes.