A recente polêmica em torno do alto custo de manutenção dos veículos Scénic, da frota da Polícia Militar do Paraná, gerou até investigação por parte do Procon. Para a população, o fato levantou uma questão mais ampla: será que os carros utilizados como viaturas pela polícia paranaense estão de acordo com as especificações exigidas pelo trabalho policial? A reportagem da Tribuna conversou com três especialistas no assunto. Todos foram unânimes em apontar as principais exigências para uma viatura policial, tanto da Civil quanto da Militar: devem ser carros com manutenção simples e mecânica forte, que agüentem o desgaste do serviço diuturno. Em termos de equipamentos específicos, os que são utilizados atualmente parecem atender satisfatoriamente às atividades do dia-a-dia da polícia do Paraná.

Ao contrário do que muita gente pensa, a potência do motor não é um item importante. Nossa polícia não precisa de veículos supervelozes. A orientação dos policiais, atualmente, é de não empreender perseguição motorizada a marginais em veículos, a não ser em último caso e quando a situação apresentar condições favoráveis – em uma estrada vicinal, por exemplo. As polícias Civil e Militar do Paraná recebem instrução de, ao invés de perseguir, empreender procedimentos táticos para alcançar os suspeitos. É uma questão de segurança: correr atrás de bandidos armados pelas ruas das cidades põe em risco a vida da população e dos próprios policiais.

Situação bem diferente da polícia dos Estados Unidos, que parece ter na perseguição de carro uma das suas atividades mais freqüentes. Como se vê em filmes de ação americanos, são comuns as disputas entre polícia e bandidos nas enormes “freeways” (estradas) que circundam e ligam cidades norte-americanas.

Por isso, as viaturas da polícia americana são bem diferentes das brasileiras. Além de velozes, são munidas com sofisticados equipamentos como computador de bordo, sistema de identificação online e outros. Vale lembrar que nos EUA a polícia é unificada – não existe divisão entre Militar e Civil – portanto a natureza do trabalho também é diferente.

Custo de manutenção do Scénic é 50% maior

A partir de um relatório elaborado pela oficina autorizada surgiu a denúncia de que os veículos Scénic, da montadora Renault, não são adequados para o trabalho da Polícia Militar. O relatório abrange um período de pouco mais de três meses e é bem detalhado. De acordo com o tenente-coronel João Antônio Pazinatto, chefe do Centro de Manutenção de Viaturas da PM, os custos de oficina e a quantidade de vezes que as Scénic foram para conserto chamaram atenção por estarem bem acima da média dos demais veículos da frota.

Pazinatto lembra que a comparação se refere às viaturas que fazem policiamento ostensivo motorizado. São 2.446 viaturas da PM em todo o Paraná. Estão excluídos desta conta os veículos do Corpo de Bombeiros, as motocicletas e as embarcações da PM.

Custos

De acordo com o relatório da Pavema – empresa que venceu, ano passado, a licitação para prestar de serviços de manutenção e conserto da frota da polícia paranaense – o custo médio de manutenção das Scénic, em comparação com as demais viaturas, foi 50% mais alto. “Somente as Scénic absorveram 30% do custo total de serviços com oficina”, explica Pazinatto. “Elas representam 19% da nossa frota e são praticamente novas – começaram a ser utilizadas em 2002”, complementa.

Na média, cada Scénic gastou, em consertos, R$ 1.469,48, entre 12 de setembro e 31 de dezembro de 2003. No mesmo período, os veículos GM custaram, cada um, R$ 1.065,21 em manutenção, enquanto os da Volks tiveram custo médio de manutenção de R$ 659,31 cada.

Fragilidade

A explicação para a média de custo mais alta pode estar no fato de que algumas peças são importadas. Mas, além disso, aponta o coronel responsável pela frota, as Scénic demonstraram fragilidade no dia-a-dia do trabalho da PM. A maioria apresentou defeitos como quebra de câmbio, rompimento da correia dentada, defeito em coxins e quebra da embreagem. Também tiveram que ir para o conserto por defeitos na suspensão, nos vidros elétricos e nas fechaduras. “Esse veículo não responde bem na área rural e em terrenos acidentados. Quebra muito fácil”, aponta Pazinatto.

São 469 veículos Scénic na PM – mas 30% delas estão, nas palavras de Pazinatto, “fora de combate” – desativadas devido a problemas diversos. As 381 que estão trabalhando passaram por 536 consertos em três meses. Alguns consertos, conforme o relatório, chegaram a custar R$ 5 mil.

Frota

As demais viaturas da PM seguem a seguinte proporção: 26% dos veículos são da montadora GM (Ipanema, S-10 e Blazer); 21% da Volkswagen (Gol, Parati e Santana); 15% da Toyota (Hilux e Bandeirantes); 5% da Fiat (Palio, Tempra e Uno), na categoria de veículos leves. Os 14% restantes da frota se dividem entre Land Rover, Ford, Nissan e Mercedes e entram na categoria de veículos pesados. Cerca de 30% da frota tem menos de 3 anos, e 57% são veículos seminovos (entre 3 e 10 anos).

O coronel Pazinatto afirma que o critério para aquisição dos veículos da Renault, feito em 2001, no governo de Jaime Lerner, foi “político e econômico”. “A Renault apresentou o melhor preço na licitação. Para a montadora, recém-instalada no Paraná, era bom negócio vender muitos veículos, mesmo que a custo baixo”, comenta. Ele acredita que os altos custos com as Scénic podem levar o governo a decidir pela alienação e substituição dessas viaturas. (BM)

Tática e menor velocidade

Na opinião do tenente-coronel João Antônio Pazinatto, responsável pelo Centro de Manutenção de Viaturas da Polícia Militar, o veículo ideal para atuar como viatura da PM deve atender aos seguintes requisitos: ter suspensão resistente, arrancada rápida, estabilidade e sistemas de freios e embreagens também resistentes.

“A viatura policial sofre muito desgaste. Roda diuturnamente, muitas vezes por terrenos acidentados. Além disso, está sempre saindo em arrancada para atender ocorrências”, explica.

Quanto aos equipamentos, Pazinatto afirma que os atuais são suficientes. As viaturas de policiamento ostensivo contam com rádio-comunicador, em contato com a central da PM, e cela para transporte dos detidos. O rádio permite identificação de antecedentes dos suspeitos – a central têm os dados e repassa para as viaturas – e comunicação para procedimentos táticos. “Em vez de empreender perseguição, usamos o comunicador para empreender bloqueio e interceptação para captura de fugitivos ou suspeitos”.

Há ainda um projeto para aquisição de 150 computadores portáteis (laptop) para uso da Polícia Militar.

“Expert”

Um ex-policial que pediu para não ser identificado e é expert no assunto veículos e viaturas – trabalhou anos no setor – também afirma que os carros de polícia brasileiros não precisam ser velozes nem superequipados como as viaturas da polícia norte-americana.

Quanto aos equipamentos, o expert sente falta de dispositivos internos para encaixar armas de grande porte.

Na comparação com viaturas da polícia americana, ele enfatiza a diferença. “Lá eles perseguem bandido a toda velocidade, por aquelas estradas enormes, as freeways. Aqui não tem condições. Na cidade, uma perseguição põe em risco o povo, os policiais e também os marginais. Por isso os policiais são orientados a usar tática e não velocidade”, observa. (BM)

Frota da Civil será renovada

A Polícia Civil do Paraná deve receber, até o final deste ano, entre 500 e 600 viaturas novas. O delegado Francisco José Batista da Costa, responsável pelo departamento de Infra Estrutura da Polícia Civil, afirma que as licitações para aquisição dos veículos já estão sendo preparadas. Com isso, os 465 carros que, atualmente, são alugados, serão substituídos.

O restante da frota – 825 veículos – também será parcialmente substituído. São carros velhos -556 viaturas têm mais de dez anos de uso. No interior do Paraná, a polícia ainda tem até Fusca e Chevette rodando.

De acordo com o delegado Costa, os veículos mais novos da frota da Polícia Civil, adquiridos em 2001, são Parati (VW), Palio (Fiat), Scénic e Mégane (Renault) e Blazer (GM). Determinados setores da Polícia Civil como o Grupo Tigre a Delegacia do Meio Ambiente, divisão de transporte de presos e delegacias do interior contam com modelos diferenciados, específicos para o trabalho, com tração 4X4 e motor a diesel, por exemplo.

Tropa de elite usa Blazer em ocorrências de alto risco

A Ronda Ostensiva de Natureza Especial (Rone), uma das quatro subdivisões do Grupamento de Choque da Polícia Militar, conta com 20 veículos Blazer como viaturas. Os policiais da Rone são treinados para ocorrências de alto risco, e por isso tem conhecimento mais aprofundado sobre armamentos, além de passarem por treinamentos especiais toda semana. A viatura reflete a especificidade do trabalho desses policiais.

Cada Blazer está equipada com metralhadora, carabina, fuzil e espingarda calibre 12. Portanto, quando sai a campo, a viatura tem oito armas – as quatro citadas e as pistolas que cada policial carrega consigo.

Além disso, as viaturas têm um kit com material de guerra química (três diferentes tipos de granadas), escudos balísticos, munição extra e munição não-letal. A metade da frota conta ainda com dois rádios – um na freqüência da polícia e outro interligado especificamente às viaturas da PM da região onde vai atuar.

De acordo com o tenente Sérgio, que atualmente responde pelo comando da Rone, a Blazer tem se mostrado um veículo adequado para o trabalho. A única reclamação diz respeito ao espaço interno. “Os policiais mais altos e mais fortes vão um pouco apertados ali dentro”, observa. Os veículos têm quatro portas e a suspensão é levemente rebaixada. “É a única coisa que modificamos no veículo. Não se mexe em motor, nada disso. E o rebaixamento é mínimo, apenas para oferecer mais estabilidade. Nem de longe é carro de “playboy??, como andaram divulgando erroneamente na internet”, explica o tenente Sérgio.

Também ele explica que a velocidade não é um item primordial para a viatura policial. “A perseguição é evitada, só fazemos quando a situação não oferece risco”, conclui.