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Cantando hap, jovem revela
seus dramas e aspirações.

Da boca que saía a voz de assalto, hoje canta o rap; o corpo que já lutou muitas vezes na rua, agora dança; e mãos que carregaram o peso da violência hoje fazem deslizar um pincel. É sob esta nova perspectiva que cerca de 140 adolescentes, internos do Educandário São Francisco, em Piraquara, se preparam para deixar as celas e voltar a viver em sociedade, com a esperança de conseguir uma vida digna, bem longe da criminalidade.

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Em maio deste ano, sob a coordenação do psicólogo Leandro José Muller, a unidade social passou a desenvolver várias oficinas destinadas à cultura.

Entre elas teatro, pintura, grafite, rap, street dance e até desenho de moda. Sob os olhares atentos da artista plástica Rosana Rolim, os alunos estão desenvolvendo a pintura em óleo sobre tela. Há dois meses, quando deu início à oficina, Rosana conta que os primeiros desenhos remetiam a cenas da criminalidade, pintura de caixões, sempre com cores escuras. Hoje, o colorido da aquarela e os desenhos de mar, paisagens e da própria família já invadiram as telas. "Disse para eles imaginar a tela como uma janela em que possam ver o melhor que esperam da vida", revela Rosana.

Em meio aos internos que participam da oficina, os olhos azuis de um deles refletem o oásis do deserto que pintou. Recolhido há 9 meses, depois de tentar assassinar o padrasto a golpes de faca, o jovem pertencia a uma realidade diferente da maioria internada. Quando morou com a avó, teve aulas de pintura e, em meio a relação perturbada com o padrasto, que se arrasta desde seus 12 anos, teve aulas de tênis e música. Garantindo estar arrependido, faz planos para o futuro. "Quero morar sozinho, voltar a estudar, trabalhar e ser independente", diz ele.

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A idéia de independência é trabalhada com freqüência entre os internos. De acordo com a diretora da unidade, Solimar de Gouveia, um dos objetivos é discutir o conceito de responsabilidade e de emancipação, fazendo os jovens refletirem o quanto são responsáveis por eles e pelas pessoas que os cercam, pois muitos já têm filhos e são casados.

Música

Um projeto desenvolvido com o apoio do conhecido rapper curitibano, David Black motivou muitos jovens a correrem atrás de seus sonhos e encheu de esperança a vida de dez internos. Este ano eles tiveram aulas de rap, onde aprenderam a compor e cantar a realidade que vivenciam. O estilo musical, que surgiu na periferia, é a porta pela qual eles podem extravasar sentimentos e experiências. O CD, gravado em estúdio profissional, é fruto de seis meses de ensaios e aulas ministradas por David Black e Daniel Barbosa. Cada um dos internos compôs e cantou sua própria música de acordo com o que pensa. O resultado do trabalho foi uma coletânea de experiências, vozes e revelações. Do grupo, três adolescentes já estão fora da unidade e continuam a carreira como cantores. "As músicas foram gravadas de acordo com o estilo de cada um, incluindo até mesmo as gírias e trocadilhos que eles costumam usar. As letras vieram de dentro e a realidade não tenho como maquiar", disse David. Os cantores agora esperam as questões jurídicas para que o CD seja comercializado e com isso a renda possa dar o primeiro empurrão na vida dos futuros músicos. O resultado também motivou outros internos que passaram a freqüentar a oficina e já planejam a edição do segundo disco.

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No educandário os jovens também têm a oportunidade de fazer vários cursos profissionalizantes, desenvolvidos em parceria com o Senai, como desenho mecânico, metrologia, marcenaria, panificação, prática de escritório e informática. Praticamente todos os adolescentes participam de pelo menos um curso, mas para evitar tumulto eles são divididos em duas alas, cujos critérios são idade, periculosidade e porte físico. "Estes jovens estão recuperando a auto-estima, pois antes de serem internados só eram visíveis com um revólver na mão. Hoje eles têm outras ferramentas para conquistar o respeito da sociedade", finalizou o psicólogo responsável pelas oficinas culturais que acontecem todas as sextas-feiras no educandário.

Sociedade tem que fazer o seu papel

Na direção do Educandário São Francisco há um ano e meio, Solimar de Gouveia garante que muitos adolescente deixam a unidade ressocializados, mas infelizmente alguns voltam a cometer crimes. "Nós sempre dizemos que o resultado depende de dois fatores: escolha e oportunidade. Por mais que eles façam a escolha certa, estes jovens precisam que a sociedade os aceite e lhes dê uma nova chance", diz Solimar.

Com a chegada do final do ano muitos conquistam o direito de deixar o reformatório. Porém, a decisão judicial geralmente não vem com aviso prévio, tornando-se uma surpresa tanto para os educadores quanto para os adolescentes. No dia em que a Tribuna esteve na unidade, um rapaz de 18 anos estava deixando o educandário, depois de 8 meses de internamento. Apreensivo, pois havia acabado de receber a notícia, e com suas poucas roupas em duas mochilas, o jovem fez um balanço dos meses que ficou recolhido. Garantiu que aprendeu muitas coisas boas, mas também muitas ruins, as quais pretende esquecer. "O que mais quero é curtir minha família e trabalhar, pois aqui fiz curso de datilografia e quase terminei o primeiro grau. Meus pais são comerciantes e pretendo ajudar, pois tenho outros cinco irmãos", disse. Ele havia sido detido por roubo, crime que leva a maioria dos adolescentes ao internamento.

A realidade deste jovem, que agora volta para casa onde pai e mãe o aguardam, é diferente da de muitos. Segundo Solimar, geralmente as visitas são feitas apenas pelas mães, uma vez que muitos pais são ausentes ou não moram com a família. É justamente a falta da figura paterna no seio familiar que colabora para que os filhos se insiram no crime. "As mães são muito lutadoras e carinhosas, o problema é que o adolescente precisa da figura forte que remete à autoridade que o pai geralmente representa. Como muitos não a encontram em casa eles a buscam na rua, com os líderes de bandos. Estes marginais ?valorizam’ o adolescente e ele se sente importante. Por isso a sociedade precisa valorizar, aceitar e dar uma nova chance a este jovem", explica Solimar.