Sobreviventes não falam do caso e querem esquecer o crime que abalou o Paraná.
(Fotos: Mara Cornelsen)
A foto, anexada ao inquérito, mostra o corpo de Mariana e o sangue no banheiro. 18 anos depois, as mesmas manchas estão no chão.

Três pessoas mortas e outras quatro gravemente feridas. Três versões para o caso e 18 anos de mistério. Assim pode ser resumido o violento episódio que ficou conhecido como a ?chacina de Carambeí?, envolvendo sete membros da família Boer, de ascendência holandesa e uma das mais tradicionais da região de Castro, grande pólo produtor de laticínios do Paraná. Transcorridos tantos anos, o inquérito policial, de três volumes e quase mil páginas, ainda transita pela delegacia, sem uma solução.

Os sobreviventes não falam do caso e asseguram não ter mais interesse em descobrir os autores ou mandantes. As investigações viraram ?pedra no sapato? de alguns delegados que, frustrados, não conseguiram esclarecer o crime, ainda hoje comentado à boca pequena pela população local. A partir desta edição, a Tribuna trará – em seis capítulos – uma reportagem completa sobre o que foi a ?chacina de Carambeí?, seus personagens e os dramas que os envolveram.

O banheiro de ladrilhos antigos e azulejos brancos ainda é o mesmo. Apesar das centenas de faxinas que já sofreu nos últimos 18 anos, até hoje é possível ver no chão e nas paredes as manchas de sangue das vítimas da ?chacina de Carambeí?.

Os atuais moradores do Sítio Sete Quedas, onde sete pessoas foram massacradas a golpes de faca e pauladas, já fizeram de tudo. Passaram até ácido no chão, porém, as manchas não saem. Permanecem no mesmo lugar, como se alertassem para o fato de que os assassinos (ou assassino) ainda estão soltos, impunes. Sequer o motivo de tamanha brutalidade chegou a ser apurado pela polícia.

A trágica história começa na terça-feira de Carnaval, 7 de fevereiro de 1989. Adrianus Loss Boer, na época com 50 anos, era o superintendente das Indústrias Batavo e da Cooperativa Central Batavo. Cargos de relevância e influência. Ele morava no centro de Carambeí com a mulher, Mariana Guilhermina Maria Loss Boer, 52. Dois dos filhos deles, Dirk Boer, 24, e Leenderd Ari Boer, 30, moravam no Sítio Sete Quedas e na Chácara Mangabeira, respectivamente, distantes cerca de 10 e 15 quilômetros da residência dos pais.

Família

Um dos filhos de Leenderd precisou fazer uma cirurgia de hérnia. Para que o garoto se recuperasse com tranqüilidade, o pai mandou os dois filhos menores, Tony, 8, e Leonardo, 6, passarem alguns dias na casa dos avós. Dirk, por sua vez, havia terminado o curso de Economia, na faculdade de Ponta Grossa, e trabalhava duro no sítio – recém-adquirido – com a ajuda da mulher, Mirian Delfrasio Boer, 24. Eram pais de Thiago André Boer, de 1 ano e 3 meses.

O fato de ser feriado e Carnaval não fazia diferença para a família Boer, acostumada a lidar com pecuária e agricultura. As plantações e os animais necessitam de trato diário, independente do calendário. Dirk cuidava dos afazeres no Sete Quedas, enquanto a mulher fazia companhia para Thiago, dentro de casa. No início da tarde, por volta das 14h30, chegaram para uma visita Adrianus, Mariana e os dois netos, Tony e Leonardo.

A partir daí, toda a história fica nebulosa. Ninguém sabe, ao certo, o que aconteceu. O fato é que no dia seguinte, Mirian, gravemente ferida e com o corpo coberto de sangue, conseguiu se arrastar até a estrada e parar um caminhão de bóias-frias que transportava trabalhadores rurais para uma fazenda próxima. Ela pediu socorro ao motorista – Aroldo Bueno, que levava empregados à fazenda Aurora -, avisando que tinha mais pessoas feridas dentro da casa. O motorista seguiu em busca de ajuda e avisou os vizinhos, Sieb Greydanus de Geus e Pedro Greydanus de Geus, pai e filho, proprietários da Fazenda Santa Cruz, distante pouco mais de um quilômetro do Sete Quedas. Enquanto Sieb pegava sua camioneta para ir ao sítio vizinho, o filho comunicou o fato à polícia e também ligou para a Batavo, pedindo ambulância e médico. Pretendia comunicar Adrianus de que algo errado havia ocorrido na casa de Dirk, sem saber que o superintendente da cooperativa estava entre as vítimas.

O quadro que os socorristas viram foi aterrador. No banheiro da casa, Mariana estava morta, caída ao lado do filho Dirk e dos dois netos. Os três desacordados, com as cabeças feridas e lavados de sangue. No quarto do casal, o bebê estava morto na cama, ao lado do avô Adrianus, este também desacordado e com ferimentos na cabeça. Todos estavam irreconhecíveis, segundo as testemunhas. Mirian, que conseguiu retornar à garagem após o pedido de ajuda, foi levada para o quarto e deixada ao lado do filho e do sogro, enquanto esperava transporte para o hospital.

Dirk morreu no dia seguinte. Ele e a mãe, além das pauladas, receberam também golpes de faca. Sua mulher, seu pai e os dois sobrinhos ficaram internados alguns dias no Hospital de Ponta Grossa, um dos meninos em estado de coma. Quando se recuperaram, mais tumultuaram as investigações do que ajudaram, contribuindo para que, até hoje, o mistério da chacina perdure.

*Na edição de amanhã, o leitor conhecerá os sobreviventes da tragédia.