Foto: Sesp

Ex-deputado foi preso em casa, ontem pela manhã. à noite, RIC rescindiu contrato.

O apresentador de televisão, radialista e ex-deputado Ricardo Chab foi preso ontem, junto com seu advogado Antônio Neiva de Macedo Filho, por extorsão. Pela manhã, eles receberam R$ 35 mil, nas dependências da Rádio Mais, em São José dos Pinhais, do proprietário da Centronic. O dinheiro seria parte do pagamento para que o apresentador não falasse mais da empresa de vigilância em seus programas.

O presidente da Câmara de Vereadores de Colombo, Onéias Ribeiro, que também é radialista e amigo de Chab, foi indiciado, acusado de fazer parte do esquema criminoso. Toda a ação foi acompanhada pelos policiais da Delegacia de Estelionato e Desvio de Cargas (Dedc), que prenderam o advogado e o apresentador em flagrante. Ainda ontem, ambos seriam encaminhados ao Centro de Operações Policiais Especiais (Cope). De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, toda a operação foi acompanhada pelo juiz Pedro Luís Sanson Corat, da Vara de Inquéritos Policiais, e por representante do Ministério Público.

Investigação

A polícia soube das chantagens há dez dias, quando o proprietário da Centronic, Nilson Rodrigues de Godoes, levou à Dedc uma gravação telefônica e registrou queixa. Com autorização judicial, o delegado Marcos Vinícius Michelotto grampeou os telefones do apresentador e do advogado e comprovou as chantagens.

Para comprovar o crime, na manhã de ontem, Nilson foi até a rádio, de propriedade de Chab, com uma pequena maleta com os R$ 35 mil. Com uma câmera escondida, filmou o momento que ele entregou o dinheiro ao advogado Antônio Neiva de Macedo.

Ricardo Chab não participou da transação, permanecendo em sua sala, no piso superior do prédio. Enquanto isso, os policiais esperavam a conclusão da extorsão, perto dali. Comprovado o crime, minutos depois o apresentador e o advogado foram presos dentro da rádio.

De acordo com o delegado, apesar de Chab não receber o dinheiro, as interceptações telefônicas comprovam sua participação no esquema. O vereador Onéias Ribeiro só não foi preso em flagrante, porque saiu da sala no momento da extorsão. Ele teria usado sua ?amizade? com Nilson para pressioná-lo a pagar a quantia pedida. O dinheiro seria dividido entre o advogado, o apresentador e o vereador.

Advogado alega armação

Foto: Átila Alberti

Natter: grana era honorário.

Ricardo Chab não conversou com a imprensa. O advogado dele, Haroldo César Natter, afirmou que o apresentador foi vítima de armação, promovida pela Centronic, empresa que ele chama de ?tropa de elite da segurança privada?, pela truculência empregada em seus trabalhos. Segundo Natter, a Centronic procurou Chab várias vezes para fazer publicidade em seu programa de rádio e, com isso, garantir que sua empresa não fosse difamada. O apresentador não teria aceito a proposta.

Quanto à participação do advogado Antônio Neiva de Macedo Filho, que também defende um dos vigilantes envolvidos no caso Bruno Strobel, Natter afirmou que o dinheiro recebido era referente aos seus honorários. ?Macedo estava na rádio, porque é advogado de Chab e participa de um quadro de entrevistas. Chab sequer viu esse dinheiro ser entregue, que era referente à defesa de um dos vigilantes da empresa. Trata-se de armação para fazer o apresentador se calar. E, todos vocês jornalistas, estão sujeitos a isso?, afirmou Nater.

Por telefone, o vereador Onéias Ribeiro conversou com o Paraná-Online e disse que o único contato que teve com a Centronic foi no ano passado, quando a empresa o procurou para fazer publicidade. ?Eu apresentava um programa na Rádio Mais, que na época era Eldorado, e a Centronic queria publicar uma nota de esclarecimento, como fez em vários veículos de comunicação. Encaminhei-os para o departamento comercial. Foi só isso?, garantiu Onéias.

Rescisão

A Rede Independência de Comunicação, emissora onde Chab apresenta o programa Na Hora do Almoço, divulgou nota oficial afirmando que se surpreendeu com a prisão do apresentador e que repudia veementemente o ocorrido. Na nota, a emissora afirma que espera a apuração rigorosa por parte das autoridades competentes. Na próxima segunda-feira, Chab estrearia na nova programação da Ric, no programa Balanço Geral, porém, no jornal da noite, a emissora disse que rescindiu o contrato com Ricardo Chab.

Leia a nota na íntegra. 

Negociações

Em novembro do ano passado, quando vigilantes da Centronic foram presos, acusados de matar o estudante Bruno Strobel Coelho, Nilson teria pago R$ 80 mil para que Chab não explorasse imagens da empresa em seu programa de televisão. ?O valor inicial era de R$ 1 milhão, mas não tínhamos todo este dinheiro.?

Este mês, quando três vigilantes conseguiram habeas corpus e o caso Centronic voltou à mídia, Chab teria pedido mais R$ 150 mil, para não divulgar nova denúncia contra a empresa. A informação é que uma pessoa teria sido vista pela última vez com dois homens que trajavam uniformes azuis, similares ao da Centronic, em Colombo. O caso é investigado pela delegacia local.

O advogado da empresa, Elias Matar Assad, disse que se encontrou com o advogado Macedo Filho e pediu para que parassem as chantagens. Sem negociação, o dono da empresa levou o caso ao delegado Michelotto. Um funcionário da empresa, que teria feito a negociação com Chab e o advogado por telefone, disse que Nilson poderia pagar R$ 70 mil, R$ 35 ontem e o restante no próximo mês.

Caso Bruno volta à tona

Giselle Ulbrich

Vigilantes da Centronic foram acusados de, em outubro do ano passado, se envolverem na morte de Bruno Strobel Coelho Santos. Bruno teria sido flagrado pichando o muro de uma clínica no Alto da XV, vigiada pela Centronic. Ele foi levado à sede da empresa, onde teria sido torturado, e depois, a Almirante Tamandaré, onde foi morto com um tiro na cabeça.

Sete funcionários da Centronic foram denunciados pelo Ministério Público. Marlon Balem Janke, Douglas Rodrigo Sampaio Rodrigues e Eliandro Luiz Marconcini foram presos. Os três conseguiram habeas corpus na semana passada, mas Douglas continuou preso por porte ilegal de arma. Ricardo Cordeiro Reysel está preso em São Paulo e Leônidas Leonel de Souza permanece foragido. Emerson Carlos Roika e Roberto Prado Franchi respondem em liberdade.

Comunicação e política

Ricardo Jota Chab, 50 anos, é natural de Santa Izabel do Ivaí, noroeste do estado. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, atuou em diversos programas de rádio e televisão. Atualmente, apresentava o programa Na Hora do Almoço, na Rede Independência de Comunicação (RIC) e outro na Rádio Mais (antiga Eldorado).

Decidiu seguir a carreira política e foi eleito deputado estadual, pelo PMDB, em 1995, com quase 33 mil votos. Em 1998, foi reeleito pelo PTB, com mais de 38 mil votos. Na Assembléia Legislativa, passou por diversas comissões, inclusive presidindo a de Segurança Pública.