Átila Alberti
Paulo Mandelli, um dos homens mais procurados do Paraná, foi preso em Caxias do Sul (RS).

Paulo Gilberto Pacheco Mandelli, 50 anos, um dos foragidos mais procurados do Paraná, foi preso por agentes da Polícia Federal, na manhã de ontem, numa casa situada à Rua Afonso Gasparin, 805, bairro Colina Sorriso, Caxias do Sul (RS), onde morava. O irmão dele, Valdoir Pacheco Mandelli, foi preso simultaneamente em Balneário Camboriú (SC). Os dois não resistiram à prisão.

 De acordo com a Polícia Federal este é o resultado de um trabalho desenvolvido há um ano e foi denominado ?Operação Tentáculos III?, já que é uma continuidade de outras duas operações. A primeira levou cerca de 30 pessoas para trás das grades e a segunda prendeu o investigador da Polícia Civil Samir Skandar, que usava as prerrogativas de suas funções, valendo-se especialmente de sua passagem pela Delegacia de Furtos e Roubos de Curitiba, para impedir ações policiais contra a quadrilha de Paulo.

Os irmãos Mandelli desembarcaram no aeroporto do Bacacheri, às 15h10 de ontem, e chegaram na sede da Polícia Federal vinte minutos depois. Na entrada, Paulo não escondeu o rosto e avisou que se a polícia permitisse iria dar entrevistas à imprensa.

Na casa de Paulo, a polícia apreendeu diversos carros, entre eles um Mercedes conversível, um BMW e uma camioneta, além de várias armas. Assim como o restante do patrimônio de Paulo, incluindo apartamentos em Curitiba e Miami (EUA), e a chácara em Tijucas do Sul, a polícia acredita que o dinheiro para adquirir o império veio do mundo do crime. ?A empresa de construção civil também é de fachada para a lavagem de dinheiro?, argumentou o secretário de Estado da Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari.

CPI

O superintendente da Polícia Federal no Paraná, Jaber Saadi, explicou que a instituição entrou no caso a pedido da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), já que a operação para a prisão se desenvolveu nos três estados do Sul. Dono da maior revenda de peças de automóveis usadas de Curitiba, Paulo ficou conhecido como ?Rei do Desmanche? e teve a prisão decretada pela primeira vez na CPI do Narcotráfico em 2000. Desde então, está foragido. Apesar de ter quatro mandados de prisão decretados, ele circulava normalmente na região Sul do Brasil, mas nunca havia sido apanhado. ?Não sabemos a quanto tempo ele estava morando em Caxias do Sul. Se soubéssemos, o teríamos prendido antes?, salientou Saadi.

Em Caxias do Sul, o criminoso estava usando o nome de Paulo, mas fez uma pequena alteração no sobrenome para evitar ser reconhecido. Ele trocou ?Mandelli? por ?Manelli? e estava trabalhando no ramo de construção civil. ?Ele já foi condenado por porte ilegal de armas?, comentou Saadi. Já Valdoir estava com mandado de prisão decretado e é condenado a 11 anos de reclusão em regime fechado.

Nas investigações da CPI, Paulo foi acusado de ser um dos chefes do roubo, furto, receptação e dono de desmanches do Sul do País. Com as denúncias, indiciamentos e quatro mandados de prisão, ele começou a ser procurado. Durante um período, teve seus mandados de prisão revogados, mas outros foram decretados posteriomente.

De acordo com dados fornecidos pela Sesp, Paulo era dono de três lojas e dois barracões de peças usadas em Curitiba, de uma loja em Foz do Iguaçu e outra em Santa Catarina.

?Se eu tiver culpa, já cumpri minha pena?

?Se eu tiver culpa, já cumpri minha pena. Ficar cinco anos escondido já é uma pena.? A frase é de Paulo Mandelli, acusado de diversos crimes, que concedeu entrevista coletiva à imprensa, durante dez minutos, no saguão da sede da Polícia Federal.

Paulo contou que quando teve o primeiro mandado de prisão decretado fugiu para Miami (EUA). Depois retornou ao Brasil e ficou entre os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Ele disse que durante esse período teve vontade de se entregar, mas foi impedido por familiares. ?Tentei falar várias vezes, mas ninguém quis me ouvir?, ressaltou. ?Agora vão me conhecer, vão ver que não é verdade o que estão dizendo. Sou empresário e Curitiba é o lugar que escolhi para morar?, salientou. Ele frisou que seu comércio de peças usadas funcionou durante 20 anos em Curitiba, no mesmo endereço, e nunca teve problemas. Nenhum ladrão falou que vendeu carro roubado para mim. Até porque comprava peças de empresas idôneas do Rio de Janeiro e São Paulo?, contou.

Ele alegou que as peças de veículos adulterados que havia em seu estabelecimento foram ?plantadas? pela Polícia Militar. ?Colocaram chassi de BMW, que não serve para nada porque é decodificado.?

Segundo Paulo, ele sempre tentou falar para a Justiça e para a Promotoria de Investigação Criminal (PIC), mas ninguém quis ouvi-lo. ?Fui diversas vezes na Central de Inquéritos. Todas as vezes que fui recebido, o juiz se fazia acompanhar de aproximadamente quatro pessoas, já que tinha medo do que iam falar dele. Até que um dia, me pediu para não ir mais lá. Eu só queria falar?, argumentou.

Samir

Quanto às acusações de que Paulo se associou ao policial Samir Skandar (preso na Operação Tentáculos II), que recebia altas quantias em dinheiro para proteger os seus negócios, ele desmentiu. ?O Samir é meu amigo. Já emprestei dinheiro para ele, assim como o fiz para todos os meus amigos, mas ele me pagou. Não tenho nenhum negócio com o Samir. Só sou amigo dele e de sua família?, garantiu.

Operação Tentáculos terá continuidade

O secretário de Estado da Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, prometeu dar continuidade à Operação Tentáculos. ?Ela foi desencadeada para apurar o crime dentro da organização policial. É uma limpeza ética e moral que faz parte da política do governo?, disse Delazari.

Ele disse que há absoluta certeza da relação entre o investigador da Polícia Civil Samir Skandar e Paulo Mandelli. ?Evidentemente, que além dos crimes a que o Mandelli responde, há corrupção passiva e ativa. Continuamos as investigações para apurar estes crimes?, adiantou, preferindo não citar nomes.

De acordo o secretário, o fato de que veículos roubados e furtados em Curitiba são levados para desmanches no estado vizinho de Santa Catarina, não é mais uma investigação, mas uma constatação. ?Isto é concreto. Há uma quadrilha de 20 pessoas liderada por um homem chamado Almeida, que já tem mandado de prisão decretado. Esta informação é segura?, disse Delazari.