Foto: Átila Alberti/Tribuna

Pais e amigos pediam justiça
em frente ao fórum.

O adolescente de 17 anos que atirou contra o pequeno David Pereira da Silva, 9 anos, na noite de terça-feira, em Colombo, se apresentou ontem à polícia. Enquanto era interrogado pela promotora da Vara da Infância e Juventude, no Fórum de Colombo, parentes da criança assassinada protestavam por justiça.

De acordo com o delegado Hamilton da Paz, da delegacia do Alto Maracanã, o adolescente se apresentou pela manhã, junto com a advogada e uma irmã. Ele confessou ser o autor do tiro que pôs fim à vida da criança e entregou a arma do crime, um revólver calibre 38. No interrogatório, contou que, durante a tarde de quarta-feira, ingeriu muita bebida alcoólica junto com um amigo. No começo da noite, eles foram até a casa de um outro indivíduo que entregou a arma para o adolescente.

?Ele alegou que queria dar um susto em um rapaz chamado Ederson, porque ele o teria roubado?, disse o delegado.

Quando chegou na Rua Mário Guarize, por volta das 20h30, o adolescente deu um tiro para cima e outros três em direção a seu inimigo. David estava entre eles e foi atingido com um tiro no pescoço.

O menino estava com um punhado de moedas na mão para comprar doces, e andava rumo ao bar onde o pai jogava sinuca. O adolescente afirmou que não usa drogas, mas informações que chegaram à polícia dão conta que ele é um dos traficantes do Jardim Ana Terra.

Revolta

Depois de atirar, o adolescente foi para casa e, quando soube que a criança tinha morrido, fugiu para a casa de uma tia, em Campina Grande do Sul. Convencido pela família, resolveu se entregar ontem. Depois de interrogado, ele foi levado ao fórum.

A notícia logo chegou aos ouvidos da família de David, que no começo da tarde se instalou em frente ao fórum. Enquanto o adolescente era ouvido pela promotora, os pais de David, Edileuza Pereira, 25, e Vanderlei Souza Silva, 28, exigiam justiça junto com outros familiares.

Para conter o protesto, policiais civis e militares foram até o local. Com uma arma de grosso calibre em punho, um dos investigadores da delegacia do centro de Colombo intimidava os populares.

Os parentes aguardavam com revolta a saída do atirador, porém a polícia despistou a atenção de todos e o retirou do fórum por uma porta lateral.

Enquanto os parentes xingavam e tentavam correr atrás do carro onde estava o adolescente, policiais civis, em outra viatura, deixavam o local. ?É uma palhaçada. Os policiais defendem um assassino, intimidam a gente com arma e vão embora rindo da nossa cara?, diziam revoltados os parentes de David. O menor foi apreendido e levado à delegacia. Caberá à promotora decidir qual será a medida sócio-educativa aplicada ao adolescente.

A delegacia deve investigar quem forneceu a arma do crime.

Sonho guardado na mochila

Durante o protesto, os pais de David seguravam emocionados várias cartas que o filho tinha escrito. Porém, uma delas chamava a atenção. Em algumas frases o menino parecia pressentir a tragédia que iria acontecer. Depois que o filho morreu, Edileuza e Vanderlei abriram a mala escolar do garoto e lá encontraram uma redação escolar. No texto, David exprime seu desejo pela paz. Ele diz que gostaria que as pessoas parassem de matar e que tudo fosse tranqüilo como em sua casa. ?Levei um susto quando vi essa carta. Parece que ele pressentia alguma coisa?, disse a mãe emocionada.

Segundo Edileuza, David estava na 4.ª série e adorava escrever. Paredes, portas de guarda-roupa ou armários, qualquer lugar era usado pelo menino rabiscar com giz. ?Ele tinha dois quadros de giz que estavam quebrados. No aniversário dele a gente iria dar um novo. Além disso, meu filho sempre fazia muitas cartinhas pra nós?, contou a mulher.

Na semana passada, David entregou outra carta que também chamou a atenção dos pais. ?Ele escreveu pedindo desculpas por tudo o que tinha feito de errado?, completou a mãe, segurando outras declarações de amor do filho, expressas em cartolinas e folhas de caderno.

Durante a semana David morava com a avó, no Jardim Monza, em Colombo. Ele visitava os pais apenas nos finais de semana. A decisão foi tomada por Ediliezua e Vanderlei há dois anos. ?Nós trabalhamos o dia inteiro, por isso, preferíamos que ele ficasse com os meus pais durante a semana. Tínhamos medo que David passasse o dia sozinho em casa, e, com a minha mãe, ele estava seguro, pois ela ia buscar e levar ele todo o dia na escola. No dia que ele veio nos visitar, porque não tinha aula, aconteceu toda a tragédia?, finalizou a mãe.