Foto: Allan Costa Pinto

Sem a vigilância privada crimes viraram rotina na vila.

A impotência do poder público em coibir a violência que assola o bairro Campo de Santana, uniu, na tarde de ontem, mais de 1.500 moradores da Moradias Rio Bonito. Com faixas em punho e ânimos exaltados, todos pediam por mais segurança e pela reabertura da empresa de vigilância Impacto Assessoria, que, segundo eles, era a única autoridade policial com que podiam contar.

A partir das 17h30, comerciantes e moradores chegavam para a reunião no prédio da associação de moradores, onde também funcionava a Impacto. Entretanto, a adesão à reivindicação para a volta da empresa foi tão grande que a reunião teve que ser feita na Rua Marcos Bertoldi.

Morte

Segundo os moradores, depois que a Impacto foi fechada – no domingo – a violência aumentou na região. Nos últimos três dias, cinco casas e dois comércios foram arrombados e dois ônibus assaltados. Ontem, um homem foi assassinado no bairro. Com o fim da vigilância privada, que oferecia serviço 24 horas, com funcionários que ocupavam quatro motocicletas e dois automóveis, resta apenas um carro da Polícia Militar, com dois policiais, para atendê-los. Esta mesma viatura também é responsável pelo policiamento do Caximba, bairro vizinho ao Campo de Santana.

A falta de efetivo policial resulta na demora ao atendimento à população, o que, segundo os moradores, não acontecia quando a Impacto atuava no bairro. Ela cobrava R$ 10 mensais por residência e R$ 25 pelos comércios, prestando um atendimento rápido.

?A gente ligava e, em menos de dez minutos, eles estavam na nossa casa. Um dia fui assaltada e eles chegaram antes mesmo dos bandidos irem embora. Os marginais tiveram que fugir pelos fundo do mercado?, contou uma comerciante.

Polícia

O policial militar que atende a região, primeiro-tenente Ribeiro, do 13.º BPM, recomendou que todos ligassem para o número 181, para denunciar, e ofereceu a sede da 2.º Companhia para atender a população. Apesar de sua boa vontade, os moradores o vaiaram e disseram que isso de nada adiantaria. ?Estamos órfãos e não temos mais a quem recorrer. Não importa se a Impacto era clandestina, o que importa é que ela resolvia nossos problemas?, diziam os moradores.

Parto, incêndio e remédios

A Moradias Rio Bonito é formada por 6.100 lotes onde moram cerca de 30 mil pessoas. Começou a ser ocupada em 2001, quando também chegou a violência. Em janeiro deste ano, a Impacto Assessoria passou a oferecer seus serviços e levou tranqüilidade à população, que mesmo de baixa renda, não hesitou em pagar pela segurança privada.

Emocionada, uma moradora conta que, em 4 de junho, sua filha entrou em trabalho de parto no meio da rua. Um comerciante ligou para a Impacto e os vigilantes levaram a gestante até o hospital, uma vez que as ambulâncias do Siate e do Samu demoravam a chegar. Juarez Osório Lopes Klatte, 39 anos, preso no último domingo, fez o parto da garota no carro da empresa. ?Não deu tempo de ela chegar ao hospital e Juarez e outros dois seguranças ajudaram meu neto nascer?, contou a moradora.

Medo

Outra mulher lembra quando a casa de sua vizinha pegou fogo e os seguranças apagaram as chamas antes da chegada dos bombeiros. ?Ela não pagava a empresa e, mesmo assim, eles a atenderam?, contou. O dono de um mercado também citou as vezes em que a empresa trouxe-lhe remédios.

Por fim, uma senhora, de 65 anos, disse que tem medo de morrer agora que a Impacto fechou. ?Meu filho é usuário de drogas e sempre quando ele me agredia eu chamava os seguranças e eles davam um corretivo nele. Hoje meu filho me deu uma cadeirada e ironizou, dizendo que era para eu chamar a Impacto?, contou a mulher com lágrimas nos olhos.

Assassinato provocou o fechamento

A Impacto foi fechada domingo, depois que seu proprietário Alisson Daniel Martins, 30 anos, assassinou a tiros Sidnei Costa Rodrigues, 24. Além dele, outros quatro funcionários foram presos. Segundo os moradores, Alisson matou Sidnei porque era ameaçado de morte pela vítima. Sidnei era tido no bairro como uma pessoa violenta, que costumava dar tiros para o alto e atormentar a população.

As queixas contra Sidnei foram rebatidas pela família dele, que resolveu enfrentar os vizinhos e participar da reunião. A esposa e os pais da vítima pediram por mais segurança, desde que seja feita pela Polícia Militar. Emocionado, o pai dele, Manoel Rodrigues, disse que concordaria se Alisson tivesse prendido seu filho e o entregue à Polícia Civil.

?Ele jamais poderia tê-lo matado?, disse Manoel. Como resposta ele recebeu vaias da população.

Gangue

Segundo os moradores, Sidnei participava do grupo conhecido como ?Os Carçudo?, por usarem caças e blusas largas. ?Eles são marginais e comandam o tráfico de drogas aqui. Sem a Impacto eles vão aterrorizar as nossas vidas?, contam eles.