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Painel do Crime

Policiais Militares falam e complicam coronel

  • Por Sâmar Razzak

Derbes e Nereu resolvem
"abrir o jogo" na PF.

Três policiais militares aposentados, presos na última terça-feira, acusados de integrar uma milícia armada que agia na região de Ponta Grossa, prestaram depoimento ontem, na sede da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Ricardo José Derbes, José Valdomiro Maciel e Nereu Paschoal Moreira disseram que foram contratados pelo tenente-coronel Valdir Copetti Neves – também preso pela PF – para fazer a segurança de dez fazendas em Ponta Grossa. Eles recebiam, através do Sindicato Rural de Ponta Grossa, R$ 600 mensais cada um, pelo trabalho.

Os três policiais disseram que não passaram antes estas informações à PF porque foram impedidos pelo advogado do coronel Neves, Cláudio Dalledone. "O advogado do coronel fez de tudo para a gente não abrir a boca. Discutiu com o delegado, ligou para OAB, disse que a gente só deveria falar em juízo", disse Derbes.

Os policiais contaram que estavam trabalhando há cinco meses e meio com Neves. Moreira explicou que os fazendeiros se reuniam com Neves no Sindicato Rural, todo dia 19. Nesta reunião, cada membro do "consórcio" pagava uma cota e, no dia seguinte, os três contratados para fazer a "patrulha" iam receber em cheque o salário na sede do sindicato. "Nunca participamos das reuniões com os fazendeiros. Para nós, o coronel seria como um gerente de tudo", disse.

Derbes explicou que a rotina deles era de visitar a sede das 10 fazendas, conversar com os capatazes ou caseiros para verificar se estava tudo em ordem. "A gente não tinha qualquer orientação para afastar sem terra, somente na fazenda do coronel. Ele queria que a gente ameaçasse, enfiasse escopeta na boca dos sem terra. Mas a gente nunca obedeceu isso e ele gritava, xingava, chamava a gente de frouxo", afirmou.

Quanto às armas encontradas, os policias disseram que todas elas eram de propriedade do coronel. Eles disseram que foram orientados pelo coronel a pegarem duas escopetas na casa de Romário Machado, PM aposentado, responsável pelo patrulhamento das fazendas antes da atual equipe ser formada. Machado – que é conhecido na região de Ponta Grossa como capanga de Neves – teria trabalhado com o coronel no Grupo Águia.

Maciel informou à PF que a arma iraquiana encontrada em sua casa foi pega na empresa Águia, do fazendeiro Ferdinando Scheffer, que também participava do consórcio de fazendeiros que bancava o grupo.

Os policiais citaram o nome de alguns fazendeiros que integravam o esquema: Maria Helena Ribas Coimbra, membro da diretoria do Sindicato Rural; Nelson Klean, Ferdinando Scheffer e Manoel Ribas Neto.

Os cheques de pagamento eram entregues no Sindicato Rural por Eliane que, segundo a PF, é secretária do presidente do sindicato, Marcos Degraff.

Com as informações prestadas à polícia, o advogado dos PMs, Edson Aparecido Stadler, pretende derrubar a prisão preventiva.

O delegado Fernando Francischini, responsável pelo inquérito, afirmou que as informações dadas são coerentes com a linha de investigação da polícia. "O único que não quer falar é o Sbardella, que trazia do Paraguai as armas para o coronel Neves", disse.

Sindicalista garantia combustível

Em Ponta Grossa, o presidente do Sindicato Rural, Marcos Degraff, não quis comentar o assunto. Na terça-feira, ele esteve na sede da Polícia Federal (PF) e prestou depoimento, dizendo que não tinha qualquer conhecimento da formação de milícias bancadas por fazendeiros ligados ao sindicato. No entanto, de acordo com as informações passadas à polícia ontem, a secretária de Degraff, Eliane, era quem entregava os cheques de pagamento para os três policiais.

Maria Helena Ribas Coimbra, membro da diretoria do sindicato, pagava para que fosse feito o patrulhamento na fazenda Jaguarão, de sua propriedade. De acordo com Taís Moreira, filha do PM aposentado Nereu Paschoal Moreira, Maria Helena era a responsável por pagar o combustível usado pelo grupo para fazer o patrulhamento nas fazendas. "Ela pagava por mês a gasolina no posto Santa Rita, lá de Ponta Grossa", disse.

O diretor jurídico do Sindicato Rural, Amauri Paulo Constantine, disse que Maria Helena não iria responder nenhuma acusação antes de conhecer com detalhes o depoimento prestado pelos PMs. Procurada pela reportagem, Maria Helena não foi encontrada em casa e, segundo seu advogado, estaria em Londrina.

Constantine disse ainda que, dos nomes de fazendeiros citados pelos PMs como usuários do serviço de patrulhamento que faziam, apenas Maria Helena é filiada ao sindicato.

Inverdades

O advogado do tenente-coronel Valdir Copetti Neves, Cláudio Dalledone, disse que realmente orientou os três PMs presos na última terça-feira a não responderem nenhuma pergunta da PF, durante o primeiro interrogatório. "Esta é a orientação que dou a todos os meus clientes, para que falem apenas em juízo. Mas é uma mentira dizer que impedi alguém de falar. Só os orientei", afirmou.

Dalledone disse que o coronel Neves não vai responder às acusações sofridas. "Meu cliente não vai ficar batendo boca com estas pessoas através de manchetes de jornais". Segundo Dalledone, o grupo de PMs já mudou três vezes de advogado e a atitude tomada ontem, ao prestarem depoimento na PF, demostra "o desespero de quem não sabe o que dizer, que a cada dia muda de versão".

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