Polícia Federal prende quadrilha de contrabandistas

A Polícia Federal (PF) desmantelou ontem uma quadrilha que seria responsável pela entrada -via terrestre – de metade de todo o contrabando e pirataria que circula pelo Brasil. A operação foi realizada simultaneamente em quatro estados e resultou na prisão de 63 pessoas – 28 detidas no Paraná, 23 no Mato Grosso do Sul, nove em São Paulo e três no Mato Grosso. Entre os presos estão seis policiais militares e um federal, acusados de facilitarem a ação da quadrilha.

Ao todo, a Justiça Federal de Maringá decretou a prisão de 87 suspeitos e expediu outros 149 mandados de busca e apreensão a serem cumpridos nos quatro estados. A sede "logística" da quadrilha funcionava em Maringá. No entanto, haviam ramificações em Umuarama e Foz do Iguaçu, no Paraná, além de Eldorado e Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul. O grupo era especializado na compra, venda e transporte de mercadorias contrabandeadas de alta qualidade e bom valor de mercado, como eletroeletrônicos, equipamentos de informática, cigarros, materiais e equipamentos médicos e odontológicos, agrotóxicos, medicamentos, compostos farmacêuticos e pneus, entre outros.

José Doniseth Balan foi preso em Mato Grosso do Sul acusado de ser o mandante da quadrilha. Ele, que já havia sido citado na CPI da Pirataria, também já foi investigado pela PF durante a Operação Nicotina, realizada em novembro de 2002.

O esquema da quadrilha funcionava com o apoio de policiais rodoviários. Entre os seis PMs presos estão os cabos G. de Oliveira e Adilson Victreo, e os soldados Osvaldo Sotana e Silas Farias – detidos na região de Londrina. As transportadoras ligadas à quadrilha traziam contrabando do Paraguai em carretas com fundo falso, que na maioria das vezes transportavam grãos. Depois de cruzarem a fronteira com o Brasil, as carretas tinham o lacre violado e o contrabando escondido era descarregado e distribuído para o resto do Brasil. Os policiais faziam vistas grossas para os lacres rompidos ou ajudavam a providenciar novos quando necessário. A carga tinha como destino final os estados de São Paulo, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

Balan é dono da Transbalan, uma transportadora sediada em Maringá e que fazia toda a distribuição do contrabando trazido pela quadrilha. Só desta empresa, a Justiça determinou que fossem apreendidos 422 veículos. O Batalhão de Infantaria do Exército, em Apucarana, ofereceu apoio logístico à PF e cedeu um terreno para abrigar estes veículos.

Balan também é dono da Transportadora Taba, que, segundo a PF, servia de sede para reuniões do grupo e também era usada para lavagem de dinheiro, através da venda de carrocerias para caminhões. Uma terceira empresa, a Albina Caminhões – também de Maringá – estaria igualmente envolvida no esquema.

De acordo com o superintendente da PF, Jaber Saadi, foram 10 meses de investigações para chegar até os integrantes da quadrilha. Durante este tempo, a PF apreendeu cerca de US$ 4 milhões em contrabando. No entanto, acredita-se que o grupo atuava há muito tempo e só depois de analisados os documentos e computadores apreendidos vai ser possível fazer uma estimativa de quanto o comércio ilícito da quadrilha movimentou. A PF informou ainda que as apreensões de cigarros relacionadas à quadrilha totalizam cerca de 4.150.000 maços, o equivalente a R$ 2,9 milhões.

Ao todo 650 policiais federais foram destacados para trabalhar na operação que foi batizada de Hidra, fazendo alusão ao monstro mitológico com diversas cabeças que representariam as ramificações do grupo. O Exército e a Aeronáutica também foram acionados para prestar auxílio. Esta foi a maior operação do gênero já realizada no país.

Policiais rodoviários eram "colaboradores"

Ao todo, as investigações da Polícia Federal apontaram o envolvimento de 150 pessoas na estrutura direta da quadrilha, como gerentes operacionais, motoristas, contadores, olheiros e agentes públicos. Em ações anteriores à operação realizada ontem, já haviam sido presas 29 pessoas envolvidas com a quadrilha. Também foram apreendidos 32 veículos de carga que transportavam mais de US$ 4 milhões em produtos.

Todo o contrabando era escoado pela malha rodoviária do Paraná e só acontecia através da participação de policiais rodoviários, que garantiam a atuação do grupo.

De acordo com o Procurador da República em Maringá, Natalício Claro da Silva, que trabalha no caso, as investigações sobre a quadrilha começaram em agosto de 2003 com uma denúncia anônima enviada à Procuradoria da República de Foz do Iguaçu e repassada à unidade do Ministério Público Federal em Maringá. Durante quase um ano foram realizadas investigações para levantar os números telefônicos dos principais articuladores da rede criminosa de contrabando. A partir agosto de 2004, as investigações se intensificaram e foi necessário estruturar "redes de inteligência" em Maringá, Cuiabá, Campo Grande e São Paulo. No entanto, mesmo com uma ramificação em outros estados, toda a coordenação da Operação Hidra foi centralizada em Maringá.

Os acusados serão indiciados pela prática de crimes como contrabando e descaminho; formação de quadrilha; estelionato, corrupção ativa, corrupção passiva, facilitação de contrabando e ou descaminho, falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais.

Os presos foram encaminhados para as delegacias de Polícia Federal em Maringá e Dourados (MS), Cuiabá e São Paulo, e ficam à disposição da Justiça Federal de Maringá. As prisões são temporárias – pelo prazo máximo de cinco dias prorrogáveis por mais cinco – e poderão, a pedido da Polícia Federal, ser convertidas em prisão preventiva.

Família envolvida em crimes há 24 anos

A família Balan é velha conhecida da Polícia Federal no interior do Paraná. Dados da PF apontam que os Balan estão envolvidos com contrabando desde 1981. O próprio José Doniseth Balan – preso ontem, apontado como o mandante da quadrilha – já havia sido preso em Guaíra, acusado de contrabandear café para o Paraguai.

Em maio de 2003, a PF de Londrina – em conjunto com a Delegacia de Entorpecentes de São Paulo – prendeu o policial civil aposentado Rui Costa Balan. Ele foi pego quando retornava a Londrina, depois de entregar 319 quilos de cocaína no Bairro da Saúde, em São Paulo. Rui Balan estava envolvido com uma quadrilha acusada de utilizar os Correios para vender cocaína.

Balan foi preso em Sertaneja (PR) e levado para São Paulo. De acordo com a PF, o aposentado – que trabalhou na Polícia Civil de Londrina – recebia a droga em uma chácara em Bela Vista do Paraíso (PR) e era encarregado de transportar a mercadoria até São Paulo. Para isso, utilizava caminhões com fundos falsos. A cocaína era distribuída na capital paulista e enviada para a Europa e Oriente Médio. A droga, originária da Colômbia, chegava ao Brasil de avião, vinda do Paraguai.

Fora casos isolados como esse – de membros da família Balan envolvidos com contrabando – a PF não sabe dizer desde quando a formação atual do grupo funciona. A quadrilha era conhecida como "A Firma". O nome faz alusão ao famoso livro de John Grishan que depois virou sucesso nas telas do cinema, contando a história de um advogado que ganha fortunas para trabalhar numa empresa que faz negócios obscuros, mas que na verdade, serve de fachada para lavar dinheiro da máfia. Como na ficção, o grupo desmantelado ontem pela PF utilizava empresas fantasmas – principalmente transportadoras de Maringá e Umuarama – para distribuir contrabando pelo Brasil.

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