Pesquisa mostra que brasileiro tem medo

Evitar sair de casa à noite, andar com os vidros do carro fechados, contratar serviços e equipamentos de segurança. Estes são só alguns exemplos das atitudes que os brasileiros estão tomando cada vez com mais freqüência, por medo da violência. Uma pesquisa realizada pelo Ibope no início de agosto em todo o Brasil, sobre insegurança, mostrou que 40% dos entrevistados tomam entre três e cinco atitudes em sua rotina para se proteger contra a violência. A pesquisa apontou ainda que 43% das pessoas acham a cidade onde moram insegura e 49% disseram que a violência piorou nos últimos dois anos. 

A pesquisa do Ibope foi realizada entre os dias 7 e 9 de agosto e ouviu uma amostra de 1,4 mil pessoas a partir dos 16 anos nas cinco regiões do País. Destas, 32% contaram que já foram vítimas de violência nos últimos dez anos. E a pesquisa apontou que as classes mais altas são os principais alvos: 45% das pessoas que ganham mais de dez salários mínimos já sofreram com agressões. O estudo aponta que os índices diminuem conforme a renda cai. Do total das pessoas que ganham até um salário mínimo, 26% relataram que já sofreram qualquer tipo de violência.

Mas, apesar de a pesquisa mostrar que as pessoas com nível social mais alto são as principais vítimas de crimes, o sociólogo e coordenador do Grupo de Estudos da Violência da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Pedro Bodê, lembra que a pesquisa fala em violência e agressão e não especifica qual o tipo. Por isso, explicou, estes índices aparecem desta forma. ?O estudo não aborda a violência homicida, que vitima em sua maioria pessoas com renda menor?, comentou.

Medo real

O medo é reflexo de um problema real e não fruto da abordagem ou atenção que a mídia dá ao assunto. Isto é o que disseram 79% dos entrevistados. Para eles, é possível sentir o aumento do perigo. Entre as regiões brasileiras, o Sul foi que recebeu o maior índice quando o assunto é o aumento da insegurança. Enquanto no resultado nacional 49% das pessoas disseram que a situação da segurança piorou nos últimos dois anos, no Sul 59% tiveram esta avaliação. O Sudeste quase empatou com o resultado nacional (50% das pessoas sentiram a piora nos últimos dois anos).

Os números das entidades de segurança privada ajudam a comprovar o medo da população. Segundo o presidente do Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado do Paraná (Sindesp-PR), Jeferson Nazário, entre 2006 e 2007 aumentou em 14% a procura por serviços de segurança privada no Estado. Ele aponta que o público que pode pagar está adquirindo este tipo de serviço, assim como paga plano de saúde para ter garantia de atendimento ou escola particular para assegurar a qualidade de ensino.

Sociedade não pode ser refém

O Ibope questionou os entrevistados sobre as atitudes específicas que tomam para se proteger da violência. Dos 1,4 mil entrevistados, 61% andam com o vidro do carro fechado em alguns horários e locais, 58% não deixam o filho ou outro parente sair sozinho à noite, 53% não andam pelas ruas do bairro ou vão a festas ou bares à noite. Mas, apesar de a autoproteção ser o principal foco das pessoas para combater a violência, especialistas defendem que só uma atitude mais participativa em relação aos problemas sociais pode colaborar para a diminuição da violência.

?As pessoas não estão enfrentando as suas responsabilidades. Se alguém passa por um menino de rua e dá dinheiro, no outro dia ele vai estar com um canivete na janela de um carro?, afirmou o psicólogo e presidente da Comissão de Ética do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), Alan Galleazzo. O psicólogo defende que ao invés de se enclausurar, as pessoas devem exercer a cidadania e participar dos conselhos de bairro, de controle social, para poder opinar e ajudar a melhorar. ?Se a pessoa ajuda a resolver, propõe solução, o receio pára?, completou.

O presidente do Sindesp-PR, Jeferson Nazário, também argumenta que a população tem que se organizar e encontrar formas de combate à violência. ?A sociedade tem que cobrar políticas inteligentes de segurança. Uma união da sociedade com o poder público e privado?, defendeu. Segundo ele, as pessoas não podem se tornar reféns de atitudes ou dicas de segurança. ?Se fizerem tudo deste jeito, daqui um tempo as pessoas vão começar a trabalhar em casa. Não vão sair para mais nada?, concluiu. ?Os conselhos são uma grande idéia. Mas os membros têm que ter informações do que há de novo e têm que ser independentes de partidos políticos?, afirmou o sociólogo e coordenador do Grupo de Estudos da Violência da UFPR, Pedro Bodê. (AB)

População tem receio da polícia

Um outro ponto referente ao medo apontado no estudo é o receio da polícia. Vinte e seis por cento dos entrevistados têm medo da polícia. A maioria, 42%, teme ser confundido com bandidos. Já 25% temem ser extorquidos e 16% têm medo de apanhar. A confiança das pessoas nas instituições ligadas à segurança também foi abordado. O pior resultado ficou com a Justiça brasileira, que recebeu índice de desconfiança de 63%. A Polícia Militar e a Polícia Civil são desacreditadas por 47% dos entrevistados. A pesquisa mostra que quanto maior o poder aquisitivo e maior o grau de escolaridade, maior a desconfiança da Justiça.

?Esta percepção acontece por causa de alguns elementos como o baixo número de juízes, não há informatização do Judiciário?, explicou o sociólogo e coordenador do Grupo de Estudos da Violência da UFPR, Pedro Bodê. (AB)

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