A morte do ex-PM Manfredo Flores Mondragon, 42 anos, no último domingo, mostra que o clima voltou a esquentar na máfia que controla o jogo do bicho. Esta foi a sétima morte de estreitas ligações com a jogatina, oficialmente conhecida, nos últimos 13 anos. Agora uma nova notícia dá conta de um possível desentendimento entre os dois principais ?capos? que comandam a ?cooperativa? de contravenção. Um dos líderes, incomodado com a divisão do poder, estaria planejando a morte do ?sócio?.

Esta cooperativa funciona há quase 10 anos. Foi criada para unificar o controle de apostas, pagamento de prêmios e divisão de lucros entre todas as bancas, inicialmente de Curitiba e cidades próximas. Com o tempo, os tentáculos do grupo se estenderam a outras localidades, como o litoral do Estado, sempre na base da ?imposição?.

Lá, em setembro de 1999, foi assassinado Paulo Yoshiaru Skamoto, conhecido como ?Paulo Bicheiro?

ou ?Japonês?, que bancava o jogo em Paranaguá. Meses depois, quem pagou com a vida foi Paulo Canhola, também em Paranaguá. Mesmo destino do estivador Luís Félix da Silva, o ?Sapo?.

Caça-níqueis

Entretanto, crime que mais manchou a cooperativa foi o assassinato de Almir José Solarewicz, fuzilado no dia 20 de setembro de 2000, na rua onde morava, no Juvevê. Almir foi o primeiro articulador da cooperativa e sonhava em legalizar o jogo do bicho. Iniciou com as máquinas caça-níqueis em Curitiba, o que provocou a ira dos demais, que não aceitavam a queda da arrecadação nas apostas tradicionais.

Depois dessa série de mortes, sobraram dois líderes, que atualmente comandam todo o esquema.

A informação sobre os atuais desentendimentos e de um possível plano que um deles estaria arquitetando pra matar o outro, foi confirmada por duas fontes, que preferiram não se identificar, com medo.

A investigação sobre a morte de Mondragon está a cargo do delegado Adonai Armstrong, titular da Delegacia de Homicídios.

Ele acredita que, pela vida complicada levada pela vítima, trata-se de uma execução sumária, ?queima de arquivo?. ?Teremos que verificar várias informações para levantar a autoria do crime?, afirmou.

Delegacia acredita em queima de arquivo

A Delegacia de Homicídios descobriu que a moto usada pelos assassinos de Mondragon foi roubada dias antes do crime, na Avenida Brasília, Capão Raso. Mondragon foi assassinado a tiros, dentro da pizzaria do cunhado, onde trabalhava, no bairro Capão Raso, na noite do último domingo. Dois indivíduos armados invadiram o estabelecimento e executaram o ex-policial na frente do filho dele e de um funcionário, depois de darem voz de assalto. Em seguida, os criminosos fugiram em uma motocicleta Falcon, que abandonaram a poucos metros da pizzaria, sem levar qualquer quantia em dinheiro ou objetos.

Os policiais apanharam o veículo e chegaram até o proprietário, que contou que teve sua moto roubada no final da tarde do dia 26, durante um assalto. No final da tarde de segunda-feira, o dono da moto e testemunhas do crime foram ouvidas. ?Vamos cruzar as informações para saber se os homens que roubaram a moto são os mesmos que cometeram o crime?, disse o delegado Jaime da Luz. Durante a tarde de ontem a família de Mondragon aguradava autorização judicial para cremar o corpo no Crematório Vaticano.

Queima

A polícia investiga a possibilidade do ex-policial ter sido executado como ?queima de arquivo?. Ele era segurança de Marcelo Bertoldo, assassinado em 16 de março, no bairro Santo Inácio, em Curitiba. O ex-policial era acusado de tentar tomar as bancas do jogo do bicho da cooperativa de bicheiros, junto com Bertoldo. Mondragon foi preso em novembro de 2005 por policiais civis da Promotoria de Investigação Criminal (PIC), por coação. Ele ameaçou membros do Ministério Público de morte, inclusive o então coordenador das Promotorias de Investigação Criminal do Paraná, o procurador de Justiça Dartagnan Cadilhe Abilhôa.

O ex-sargento foi exonerado da PM em razão da prática de crimes. Em um deles, o ex-policial entrou em confronto com policiais do Grupo Tigre, ferindo um deles gravemente. Mondragon também teria comandado invasões nas sedes da cooperativa, para tentar ?tomar à força? as bancas administradas pelos contraventores.