A polícia investiga a denúncia feita por uma mãe que descobriu que o filho de 16 anos com paralisia cerebral era maltratado por uma das cuidadoras dele em Colombo. O caso veio à tona depois que a mãe desconfiou de marcas roxas no menino, colocou uma câmera no quarto e descobriu tudo.

A técnica em enfermagem Orotilde de Fátima de Lara Vaz, de 52 anos, foi flagrada em um plantão de 12h agredindo o menino de várias formas. Maria Aparecida de Souza, que é auxiliar de enfermagem, contou que começou a desconfiar da violência que o filho sofria depois que as outras enfermeiras que trabalhavam na casa encontraram marcas roxas nos braços do filho.

As mulheres alertaram que algo de errado estava acontecendo e fizeram com que Maria tomasse um atitude. “Com a ajuda de um rapaz que trabalha com instalação de equipamentos de segurança, colocamos a câmera no quarto”, disse a mãe. Ele instalou a câmera e toda a aparelhagem sem cobrar nada.

Não demorou uma semana e, no plantão seguinte de Orotilde, a mãe descobriu tudo. “Ela pediu para trocar de horário com as outras moças e com a troca de plantão, enquanto ela trabalhava, eu também trabalhava, portanto ela ficava sozinha em casa com meu filho”, contou Maria Aparecida. A mãe disse ainda que, mesmo com os sinais no corpo do menino e com as suspeitas das outras enfermeiras, não acreditava que a mulher poderia agredir o menino gratuitamente. “Achava que as manchas roxas no corpo dele tinham acontecido por um descuido, talvez por deixar algum objeto apertado demais, um descuido talvez, mas sem culpa, jamais imaginei algo ruim vindo dela, eu confiava”.

Quando chegou à casa, Orotilde já não estava mais lá. Maria sentou para assistir as imagens e entrou em estado de choque. “Eu não tinha reação. Não sabia se eu chorava ou se eu corria para a delegacia”, disse. Foi o que fez. Desesperada, no dia 11 de abril, dia seguinte à descoberta, a mãe procurou a polícia e fez a denúncia. As imagens comprovando o ato foram entregues no dia 12 e um perito do Instituto Médico Legal foi até a casa de Maria para que fossem feitos os exames que comprovassem as agressões.

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A técnica em enfermagem Orotilde de Fátima de Lara Vaz prestou depoimento e negou as agressões.

De acordo com o delegado Iacri Meneghel, da Delegacia do Alto Maracanã, a denúncia foi recebida e a agressora só não foi presa em flagrante pela falta das imagens no dia da agressão. “A mãe nos trouxe as imagens dois dias depois que aconteceu o fato e isso fez com que passasse das 24 horas do flagrante, por isso não conseguimos prendê-la”.

Na manhã desta quarta-feira, Orotilde foi ouvida. A enfermeira foi à delegacia com dois advogados, que não quiseram dar entrevista, mas o delegado afirma que ela nega tudo. “Ela diz que sempre foi muito atenciosa, que gosta do que faz e que manejava o paciente com muito cuidado”. Mesmo assim, o delegado confirmou que as imagens comprovam o ato. “De qualquer forma, outras pessoas serão ouvidas e dependemos também do laudo do IML para comprovar ainda mais as agressões”.

Ainda segundo o delegado, no vídeo é possível ver que a mulher disfarçava o que fazia. “O vídeo mostra certa truculência, mas não de forma extremamente agressiva, porque ao mesmo tempo em que é possível ver que ela o agride, também vemos que ela faz carinho como se nada estivesse acontecendo, por isso temos que tomar cuidado com as investigações”, diz.

A mãe explica que a enfermeira disfarçava porque ouvia barulho na casa,. “Quando ela estava sozinha, agredia ele, mas se ela ouvia barulho de alguém chegando, do portão abrindo lá fora, por exemplo, já o tratava com carinho”, disse Maria. Em algumas vezes, a mulher o tratava com agressividade, mas falando como se estivesse fazendo carinho, conta a mãe.

As investigações da denúncia continuam e segundo o delegado, a mulher pode responder por três crimes diferentes. “A princípio ela será investigada por maus tratos, lesão corporal e tortura”. Se condenada por tortura, por exemplo, pode ficar de dois a oito anos presa. “Mas tudo vai depender do entendimento da Justiça”, explica Iacri Meneghel.

A mãe quer apenas que a enfermeira pague pelo o que fez. “Com certeza meu filho não foi o primeiro, mas eu não tenho duvida de que ele foi o último, porque agora eu vou viver para ver essa bruxa pagar pelo que ela fez”, diz Maria, que está afastada das atividades profissionais e não sabe quando vai conseguir voltar ao trabalho. “Eu cuidava dos meus pacientes com o maior cuidado e achava que meu filho estava sendo bem cuidado por uma colega de profissão, mas ele estava sendo maltratado. Isso machucou demais e eu ainda não tenho cabeça para lidar com a situação”, explica.

Outras punições

Além do processo criminal, a técnica em enfermagem pode ter o registro profissional cassado. O Conselho Regional de Enfermagem (Coren) abriu um processo ético disciplinar para apurar as denúncias. “Devido às circunstâncias, acredito que o processo deve ser concluído em quatro meses”, afirma o presidente do Coren no Paraná, Luís Eugênio Miranda. As punições podem variar entre advertência verbal, censura, suspensão, multa ou cassação do registro profissional.

Maria Aparecida de Souza também fez uma denúncia à Amil, plano de saúde da família, que fornece o atendimento domiciliar. O Paraná Online entrou em contato com a operadora, que informou que a responsabilidade pelo serviço de home care é da Empresa de Serviços Hospitalares (Esho), que pertence ao mesmo grupo.

Em nota, a Esho afirmou “ter tomado todas as providências administrativas e legais cabíveis em relação à técnica de enfermagem prestadora de serviço”. De acordo com a empresa, o processo de seleção dos profissionais de home care inclui a solicitação de declarações, emitidas pelos órgãos competentes, prova de avaliação técnica, entrevista, capacitação específica para trabalho em ambiente domiciliar e treinamento periódico.

Colaboração Kelli Kadanus