Foto: Portos Casela/Tribuna
Lupércio preparou-se para enfrentar o concorrido mercado.

O sonho da liberdade finalmente se transformou em realidade para Lupércio Pereira, 34 anos. Na manhã de quinta-feira, ele ganhou a "condicional" e foi embora da Colônia Penal Agrícola (CPA), em Piraquara, onde passou um ano e sete meses. Entretanto, Lupércio não é apenas mais um preso que sai do sistema penitenciário despreparado para enfrentar o concorrido mercado de trabalho no "mundo livre". Graças à sua força de vontade e das oportunidades proporcionadas pelo Estado, através da promoção e desenvolvimento de cursos de capacitação, o ex-detento tem grandes perspectivas de futuro.

Durante o tempo em que passou na CPA, Lupércio aproveitou a reclusão para se profissionalizar e aprender diferentes trabalhos. No total, fez 13 diferentes cursos para sentir-se preparado e "agarrar a oportunidade de trabalho que aparecer", como ele mesmo diz. Ao invés de ficar ocioso, Lupércio se concentrou em aprender novas atividades. Nos últimos 19 meses, participou de cursos de fruticultura, plantas medicinais, jardinagem, adubo orgânico, mata ciliar, tratorista, piscicultura, cabeleireiro e cultivo de morango, uva e erva-mate. Além disso, aperfeiçoou-se em técnicas de artesanato, dom que já desenvolvera durante a época que passou preso nas delegacias de Ivaiporã e Campo Mourão, no interior do Estado.

Boa vontade

"Eu aprendi muito aqui na CPA porque queria aprender. Incentivei muita gente a estudar e fazer os cursos, mas nem todos se interessam. Se ficasse mais tempo, faria o curso de apicultura", disse. Para ele, o fato de sempre ter trabalhado na lavoura o ajudou na escolha dos cursos, pois ele já tinha identificação com as atividades. "As pessoas criadas na cidade grande não têm vontade de fazer os aperfeiçoamentos que fiz. Elas têm outras prioridades, mas não pensam que tudo pode abrir novas portas", explicou.

Lupércio é um exemplo a ser seguido pelos detentos. Inclusive ganhou uma carta de recomendação da empresa para a qual prestou seu último serviço na CPA, relacionado ao plantio de mudas de pinho. O diretor da unidade prisional, Lauro Valeixo, também demonstrou entusiasmo com o empenho do ex-detento. "Vamos continuar apoiando o Lupércio e se ele tiver alguma dificuldade, pode contar com o nosso auxílio", afirmou.

CPA

Na Colônia Penal são desenvolvidas várias atividades de capacitação de presos e trabalhos educacionais – nível de ensino fundamental e médio. Para que os cursos profissionalizantes possam ocorrer é imprescindível a colaboração da iniciativa privada, que realiza convênios junto à CPA. Todos os internos podem usufruir dessas atividades. Para isso basta se inscreverem e passar por uma triagem. Caso o curso oferecido tenha grande procura é aberta uma lista de espera. Valeixo fez questão de ressaltar o importante convênio fechado durante esta semana com a Faculdade Espírita do Paraná, através do qual 100 internos terão a oportunidade de ingressar num curso técnico-agrícola, que terá a duração de dois anos.

Dessa maneira a CPA consegue cumprir com a missão para qual foi criada: promover a reintegração social do preso através da profissionalização e da educação.

Trabalhar e esquecer o passado é a nova meta

Demonstrando a alegria de quem está prestes a se tornar uma pessoa livre, Lupércio falou o que espera para seu futuro. Assim que ultrapassasse os portões da Colônia Penal Agrícola (CPA), ele pegaria um ônibus para Campo Mourão (PR) e seguiria para o distrito de São Vicente, onde moram seus pais. Naquela cidade, ele pretende montar uma marcenaria e colocar em prática suas habilidades em artesanato. Caso não consiga dinheiro suficiente para abrir o negócio, irá buscar auxílio com o irmão. "Ele tem terras naquela região e lá poderei ajudá-lo. Por isso fiz os cursos na CPA. Estou preparado", afirmou.

Outra motivação que levou Lupércio a seguir em frente e buscar alternativas para crescer, mesmo que atrás das grades, foi o apoio dos pais. "Eles acreditaram em mim e sempre me deram força. O apoio da família é fundamental", explicou.

Passado

O ex-detento também almeja esquecer o passado que ficou marcado pela falta de oportunidades de emprego, obrigando-o a passar necessidades juntamente com a família. Foi pela falta de dinheiro e de condições de sustentar a mulher e a filha pequena que Lupércio entrou no mundo do crime. Encorajado pela bebida alcoólica – ele disse que abusava da pinga -, cometeu um assalto contra uma residência e, por isso, foi preso, julgado e condenado.

Mudança de comportamento

"A cadeia é o pior sofrimento de um ser humano." Com essa afirmação, Lupércio sintetizou o tempo que passou atrás das grades: 4 anos, 3 meses e 13 dias. Ele recebeu o benefício da liberdade em 23 de fevereiro último, mesmo com 2 anos e 5 meses de pena ainda para cumprir. Caso cometa algum delito, perderá o direito à liberdade condicional e retornará à prisão.

Em seu histórico prisional constam observações do tipo "péssimo comportamento carcerário" durante o período em que passou recolhido nas delegacias de Ivaiporã e Campo Mourão, tendo participado de tentativas de fuga. Entretanto, quando foi transferido à unidade de regime semi-aberto (CPA) não apresentou mais problemas. A trajetória de vida de Lupeércio é um exemplo de que, quando são dadas oportunidades de crescimento a uma pessoa, ela pode dar uma guinada e buscar um futuro melhor.