Rogerio Galindo, Rosana Félix, Bruna Maestri Walter e José Marcos Lopes
Pelo menos 50 testemunhas de homicídios cometidos em Curitiba, entre 2010 e 2013, foram mortas no curso das investigações. Algumas não chegaram a contar o que haviam visto
Vanderlea de Paula Tosta era uma velha conhecida da polícia: comandava uma gangue de meninas que faziam pequenos furtos no Centro de Curitiba, a “turma da Xuxa”. Ela foi baleada em 27 de março de 2010, em casa, na presença de duas garotas. No boletim de ocorrência, consta que os assassinos estariam vestidos com coletes semelhantes ao da Polícia Civil. Quem disse isso? Ninguém jamais terá a resposta. Com o passar do tempo, as testemunhas do crime foram sendo assassinadas uma a uma – no total, três outras pessoas ligadas ao caso morreram desde 2010.
Comum
Esta não é uma situação rara. Ao ler inquéritos relativos a mil assassinatos ocorridos em Curitiba, a reportagem da Gazeta do Povo descobriu pelo menos 50 casos em que pessoas foram mortas depois de ter seu nome arrolado em investigações de outros homicídios. Eram namoradas, vizinhos, amigos. Em alguns casos, elas já haviam dado sua versão sobre o crime. Em outros, não tiveram tempo para isso.
“O Estado não dá garantias de proteção a testemunhas”, avalia Arthur Trindade Maranhão, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança da Universidade de Brasília. “São frequentes os casos em que testemunhas depõem contra determinada pessoa suspeita e nada acontece [com o suspeito]. E as pessoas depois sofrem as represálias porque as polícias também não têm condições de garantir a segurança delas”, completa.
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| Vanderlea, da turma da Xuxa. |
O juiz Pedro Sanson Corat, representante paranaense na gestão do Programa de Proteção às Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita), diz que proteger as testemunhas seria uma maneira de acabar com a “Lei do silêncio” que impera em comunidades onde há organizações criminosas. “Temos exemplos de sucesso em que a pessoa, se sentindo protegida, ajudou a desvendar chacinas”, conta.
Dominó
No caso de Xuxa, a única testemunha que a polícia ouviu oficialmente na delegacia, um vizinho, diz que não viu nada. K., uma garota de 14 anos que presenciou o crime, nunca foi ouvida. Tanto ela como a proprietária da casa foram mortas com tiros na cabeça, em cena típica de execução, em Campo Largo.
O filho de Xuxa, Luiz Fernando Tosta Carvalho, conhecia as três vítimas, e até era um dos suspeitos do duplo assassinato. Se poderia esclarecer algo, porém, nunca se saberá: ele foi morto a tiros em maio de 2012. Apesar de seus números de telefone constarem no inquérito de sua mãe, ele nunca foi ouvido pela polícia.
Outra que morreu sem nunca dar seu depoimento foi a namorada de um jovem de 21 anos morto em 12 de outubro de 2010, no Ganchinho. Única testemunha ocular do crime, ela fugiu depois do assassinato. Os investigadores entraram em contato com familiares da jovem e disseram ter ido várias vezes aos locais onde ela poderia estar. Ela morreu no início de novembro daquele ano.




