Todo mês, pelo menos um homicídio tem a participação de adolescentes em Curitiba, segundo informações da Vara do Adolescente Infrator. Não é de hoje que jovens se envolvem em crimes. No entanto, a participação de menores de idade em crimes cada vez mais chocantes tem aumentado (ver quadro no final do texto).

Pelo menos esta é a percepção de profissionais que trabalham na área, como o psicólogo Celso Durat Junior, que há 12 anos atua com adolescentes infratores. “Antes não havia essa quantidade tão grande de crimes nem ocorrências tão desumanas”, afirma.

Descontrole emocional, dificuldade de se relacionar com outras pessoas, estresse e falta de religiosidade são algumas características comuns que apresentam os jovens infratores, segundo constatou o psicólogo. Freqüente entre a garotada, o discurso do “não dá nada” é uma das coisas que mais preocupa, pois demonstra que eles não vêem importância no resultado de suas ações e seus crimes. “Eles não têm limites, perderam o referencial social e, mais que isso, não conseguem ver figuras de autoridade”, explicou.

Por trás da prática de crimes, na maioria das vezes estão jovens com falta de estrutura familiar. São poucos os que vivem com pai e mãe na mesma casa. A rejeição, aliada à falta de proximidade com outros integrantes da família, contribuem no comportamento do jovem. “Muitos filhos saem para a rua para conseguir a atenção que não recebem em casa”, diagnostica o psicólogo.

Uma outra mudança significativa dos últimos anos é o grau de escolaridade dos jovens infratores, que têm aumentado. Muitos cursaram até o Ensino Médio. “Eles têm capacidade cognitiva, conhecimento das leis e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)”, apontou Durat Junior.

Solução?

Partir do pressuposto de que todo ser humano é passível de mudança é o início para quem trabalha na recuperação do jovem infrator, segundo o psicólogo. Mudança na qual os pais ou parentes próximos também devem acreditar e investir, assim como a escola. “Nós entendemos que cometer infração é um pedido de socorro, uma última tentativa de ser ouvido”, opina a psicóloga Terezinha Kulka, do centro de atendimento aos adolescentes infratores em São José dos Pinhais.

No início da adolescência, muita coisa pode ser feita para prevenir o envolvimento de jovens com o crime. “Escolas integrais e políticas públicas voltadas a essa faixa etária são os caminhos, assim como ocupar os adolescentes com atividades culturais, esportivas e cursos extra-escolares”, finaliza Durat Junior.

Sonho de um menino infrator

E.C. tem 15 anos. Quer terminar os estudos, procurar um trabalho, casar e ter dois filhos: um menino e uma menina. Seus planos ele contou à reportagem de O Estado enquanto cumpre a internação na Delegacia do Adolescente, em Curitiba, por homicídio cometido em Guaratuba, no litoral, no mês passado. Quando voltava da escola, onde cursava a 6.ª série, o jovem foi ameaçado de morte por um conhecido, que também teria ameaçado a sua família. Acuado, o jovem descarregou no homem, que tinha entre 20 e 25 anos, os seis tiros da arma que comprou especificamente para o crime, segundo seu relato.

O jovem nunca conheceu seu pai. O contato com a mãe, que nunca morou com ele, é superficial. Ele sabe que ela tentou abortá-lo mais de uma vez, o que fez com que ele nascesse com problemas respiratórios e que até hoje o obriga a se submeter a tratamento de saúde. Aos 13 anos, teve sua primeira apreensão em Foz do Iguaçu, região oeste do Estado, pelo porte de maconha.

Junto com o jovem, a Delegacia do Adolescente tem cerca de 90 internos. O índice de reincidência é de 12%. Alguns familiares avaliam como positiva a apreensão do adolescente pela delegacia, como últ,imo recurso, como a mãe Zedita do Carmo Miranda, cujo filho de 14 anos se envolveu num roubo no Uberaba. “A gente dá graças de ele ter caído aqui. Ele estudou só até a 3.ª série, depois não quis mais ir para escola. Eu não podia mais com ele, então deixei quieto”, admitiu. Segundo ela, a rebeldia sempre foi uma característica do filho, que mora com ela e com o padrasto em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. “Só quero que ele se torne um bom homem, assim como os irmãos mais velhos dele são”, revelou. (LC)

Homicídios ainda são minoria

O índice de atos infracionais graves emitidos aos adolescentes tem aumentado. No entanto, os homicídios ainda são minoria do total de atendimentos, de acordo com a promotora de Justiça Luciana Linero, da Vara do Adolescente Infrator, que atende os jovens de Curitiba. “Crimes mais graves ganham mais repercussão pelo choque que causa um adolescente portando uma arma ou fazendo uma ameaça”, afirmou.

A média mensal registrada pela Vara é de 250 autos infracionais lavrados. Do total do atendimento, 85% ainda são infrações leves, como briga na escola, ameaças ou uso de entorpecentes. Dos outros 15%, cerca de 10% correspondem a roubos e o restante divide-se entre ocorrências de envolvimento com o tráfico de drogas, latrocínio ou homicídio. Anos atrás, os furtos eram bem mais freqüentes que os roubos, situação que agora se inverteu, segundo Linero. “Muito disso se deve ao crescente uso de substâncias entorpecentes, principalmente o crack, utilizado por praticamente 90% dos jovens que cometem ato infracional grave”, disse a promotora.

Apreendido em flagrante, o adolescente infrator fica na Delegacia do Adolescente até que seja ouvido por um promotor da Vara do Adolescente Infrator, que tem o papel de ouvir os jovens e seus respectivos responsáveis, em todos os casos. Se a infração é leve, o jovem é encaminhado para medidas em meio aberto. Caso contrário, o jovem pode ficar provisoriamente no Centro de Socioeducação (Cense) por até 45 dias. Dependendo de decisão judicial, o jovem pode ficar por um período máximo de três anos no Educandário São Francisco, em Piraquara, ou ser levado à unidade de Fazenda Rio Grande, ambos na Região Metropolitana de Curitiba.