O decreto do governador Roberto Requião fechando os bingos em todo o Estado tem agradado familiares e pessoas que têm ou já tiveram sérios problemas devido à compulsividade pelo jogo.

Segundo o coordenador do grupo Jogadores Anônimos (JA) de Curitiba, C. L. M; desde o ano passado, a maioria das pessoas que tem procurado ajuda é viciada em jogos eletrônicos (caça-níqueis). No entanto, ele enfatiza que o JA não tem como bandeira a luta pelo fechamento desses estabelecimentos, mas sim de ajudar os doentes a se reabilitarem.

C.L.M. já enfrentou sérios problemas devido à vontade desmedida de estar jogando. Afirma que com o fechamento das casas de jogos haverá menos locais para que os compulsivos desenvolvam o problema. Ele mesmo teve uma recaída em uma casa de jogos. Lembra que aos 15 anos comprava raspinha e, em pouco tempo, já estava gastando todo o salário em jogos. O próximo passo foi pegar dinheiro da empresa e ser demitido.

Depois disso, até os 18 anos, manteve-se longe dos jogos. Mas uma colega de trabalho o convidou para ir a uma casa de bingo. Gastaram R$ 20 e combinaram de voltar depois de três meses. Mas no outro dia C. L. M. já estava lá. Na primeira semana ganhou quase o que recebia trabalhando. “Cheguei a falar para minha mãe que iria largar o trabalho e viver com o bingo”, diz.

Foi o suficiente para voltar ao vício novamente. A partir disso, recomeçaram as perdas. Teve que sair de casa porque pegava dinheiro da família, perdeu o emprego novamente e largou a faculdade. Só quando chegou ao fundo do poço entendeu que precisava de ajuda. Se internou e procurou o JA.

Outro exemplo

U.S.E. também sofreu com o problema. Em 1995 perdeu um apartamento, em 1997 uma casa, em 2000 outro apartamento e depois o emprego que cultivava há 18 anos em um banco. Àquelas alturas a mulher também já o havia abandonado. “A maioria das pessoas só procura ajuda quando já perdeu tudo. Outros ficam tão desesperados que se matam”, comenta.

U.S.E conta que costumava ficar o dia inteiro jogando e, quando o estabelecimento fechava, voltava para casa frustrado por ter perdido tanta coisa. A reabilitação só veio com internamento e com as reuniões do JA. Ele comenta que há jogadores tão fissurados que chegam até a apostar o vale-transporte, e para ir embora chegam a andar 20 quilômetros. Mas ele não vê qualquer benefício no fechamento das casas. “Se a pessoa já tem o vício, ele vai canalizá-lo para outro tipo de jogo”, explica.

No entanto, E.P; pai de um jogador compulsivo, não esconde a satisfação pelo fechamento dos bingos. Ele ajudou a fundar, há seis anos, o JA e o grupo de apoio aos familiares. Na época, o filho havia perdido muito dinheiro. “Quantas famílias tem pão hoje na mesa porque o dinheiro não foi gasto com o jogo?”, questiona.

Atendimento

A coordenadora do grupo de Familiares e Amigos de Jogadores Compulsivos (Jog-Anon) reclama que em Curitiba não existe um local especializado para esse tipo de tratamento. As pessoas com o problema são internadas em clínicas para alcoólatras e dependentes químicos. “O tratamento não é eficaz”, diz. Lembra também que o problema é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como uma doença. Hoje, cerca de 40 pessoas freqüentam o JA, e 15 familiares o Jog-Anon. A coordenadora também ressalta que não é contra os estabelecimentos responsáveis pelo jogos.

Serviço

– Os compulsivos são dependentes em diversos tipos de jogos, mas o que tem predominado nas reuniões do grupo são os eletrônicos. As reuniões para jogadores compulsivos e de familiares ocorre na Rua Trajano Reis, 457, em Curitiba, as terças-feiras e sextas feiras, às 19h30.

Videoloteria volta a funcionar

Poucas casas de bingo de Curitiba arriscaram abrir as portas ontem, mesmo com uma orientação do Sindicato das Empresas Administradoras de Bingos do Estado do Paraná (Sindibingo) de que as atividades de videoloteria estariam liberadas. A entidade se diz amparada em uma decisão da 3.ª Vara Federal do Espírito Santo, que concedeu uma certidão em 16 de abril de 2003, garantindo o funcionamento de diversão eletrônica, com validade para todo o território nacional.

Mas essa informação não animou a maioria dos proprietários das casas de bingo, que preferiram manter os estabelecimentos fechados. Apenas alguns locais abriram as portas, como o Big Bingo, no centro da cidade. O gerente do local, Rudney Caron, disse que a casa não fechou nenhum dia, pois mantém apenas o bingo de mesa. “São prêmios baixos e não tem com fazer lavagem de dinheiro”, disse. Até ontem, nenhum órgão de fiscalização tinha vistoriado a casa, conta o gerente.

O Bingo Las Vega, na Praça Rui Barbosa, também estava funcionando, mas ninguém quis atender a reportagem de O Estado. Um funcionário informou que as atividades continuam normais, com exceção das máquinas de videoloteria que haviam sido retiradas durante uma blitz policial.

A polêmica do fechamento das casas de jogo começou no início do mês de abril, quando o governador Roberto Requião baixou um decreto proibindo a atividade no Estado. Várias ações policiais, em parceria com o Ministério Público, foram realizadas para obrigar o cumprimento do decreto. Os proprietários das casas têm ingressado com ações na Justiça para tentar reverter a situação.

Na última sexta-feira, o Sindibingo protocolou um agravo de instrumento no Tribunal de Alçada, contra a decisão da 4.ª Vara de Fazenda Pública de Curitiba, que havia indeferido, na quarta-feira (30), o pedido de liminar para a abertura das casas. A entidade espera também a decisão de outro recurso impetrado no Tribunal de Justiça do Paraná. (Rosângela Oliveira)