Átila Alberti
Integrantes são testados continuamente.

Nos últimos seis anos, 34 pessoas foram seqüestradas no Paraná e em todos os casos o refém foi libertado ileso e nenhum resgate foi pago. Poucos sabem, mas para chegar a um resultado como esse, homens ficaram sem dormir, deixaram de lado suas esposas e filhos, ausentaram-se de casa, colocaram a vida em risco e não receberam um centavo a mais que o salário. Os heróis anônimos não mostram a cara, não dão entrevistas, não falam sobre suas técnicas e táticas. Parte do segredo do sucesso eles atribuem ao silêncio e à discrição.

Esses policiais compõem o Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial da Polícia Civil, o conhecido grupo Tigre -tido como o grupo anti-seqüestro mais preparado do Brasil.

Quando o Grupo Tigre recebe a informação de um seqüestro, duas equipes, cada uma composta por um delegado e dez policiais, são destacadas. Começa então a corrida contra o tempo.

As folgas são suspensas, as férias adiadas e o sono proibido.

Os policiais dormem em média duas horas por dia, sempre divididos em escala.

?Nós estamos de prontidão, pois é no momento que o marginal vacila que a gente ataca. Isso pode durar horas ou até mesmo 50 dias, como foi o último seqüestro que solucionamos?, conta o delegado Riad Braga Farhat – o único que tem autorização para falar com a imprensa.

Até se descobrir o paradeiro do refém, o sigilo é absoluto. Os policiais não contam nem para suas famílias sobre o caso que estão trabalhando.

A imprensa noticia o seqüestro apenas quando ele está solucionado. Esse é um dos segredos do sucesso das operações: fazer com que as táticas de investigação jamais cheguem aos ouvidos dos criminosos.

Quando o cativeiro é descoberto o Tigre inicia a segunda etapa do trabalho, que consiste no planejamento tático para o regaste do refém. A vida da vítima e dos policiais está em risco, o seqüestrador está armado e a operação é altamente perigosa. ?Nós estouramos a porta do cativeiro e quando o bandido percebe já tem um policial em cada cômodo da casa. O marginal está tão preocupado em proteger a própria vida, que, em segundos, resgatamos a vítima. Quem corre risco são os policiais, mas eles são muito bem-preparados.

O Tigre não perde munição?, enfatiza o delegado.

Novatos têm que esperar

Para integrar esse seleto grupo de policiais, o caminho é longo.

Os candidatos devem ser investigadores que já passaram por algum distrito e não podem ter processo algum na Corregedoria da Polícia Civil. Eles passam por um rigoroso teste físico e, se aprovados, entram para a equipe. Entretanto, os novatos só começam a agir na ?linha de frente? ao concluir o curso, que dura um mês. Durante esse período, além de todas as técnicas táticas e de investigação, eles fazem outros testes físicos. A prova final do curso é ficar cinco dias sem dormir. ?Essa é a realidade que encontrarão se ingressarem no Tigre?, disse o delegado Riad.

Depois de entrar para a equipe, toda semana os policiais recebem treinamento e, a cada quatro meses, são submetidos a um teste físico, e se reprovados eles devem deixar o grupo. Segundo o delegado Riad, o segredo do sucesso nas operações está na dedicação dos policiais. Todos eles têm curso superior ou estão cursando uma faculdade, geralmente Direito. Eles são voluntários e podem deixar a unidade sem burocracia. Além disso, ganham o mesmo salário que os investigadores de outras delegacias. ?Trabalhar no Tigre é fascinante. Gostaria de contar mais sobre o nosso trabalho, mas têm coisas que vão morrer comigo?, finalizou.

Procura grande de outros estados

O Grupo Tigre é a única unidade do Paraná que pode viajar sem prévia autorização da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Até hoje, quatro vítimas foram levadas para outro estado – uma delas no Paraguai. Os custos são altos para o Estado, e o delegado não os revela.

Segundo Riad, o que diferencia o trabalho do Tigre e o torna único em todo o Brasil, é que o grupo atua em duas frentes: na investigação e na parte tática, que consiste no estouro dos cativeiros. Não há outra unidade policial que desenvolva esse mesmo trabalho. ?Para se ter idéia, temos 500 policiais do Brasil inteiro na espera para fazer o nosso curso. Paradoxalmente, são poucos os policiais do Paraná que querem entrar para o Tigre e, às vezes, sobram vagas?, disse o delegado, lembrando que, em 15 anos, apenas uma mulher passou no primeiro teste físico, mas que, no segundo teste, foi reprovada.

Bandidos vêm de São Paulo

De acordo com o delegado-chefe do Tigre, metade dos seqüestros praticados no Paraná são cometidos por marginais paulistas, uma vez que São Paulo é considerado o ?celeiro? desses crimes no Brasil. No Paraná, apesar da migração dos marginais paulistas, os índices são considerados baixos. Nos últimos seis anos a média tem se mantido em seis casos por ano. Desde que o Tigre foi criado, há 15 anos, todos os seqüestros foram solucionados, bandidos foram presos e apenas seis policiais foram baleados. Todos se recuperaram e ficaram sem seqüelas.

50 dias

Entre os feitos cometidos pelo Grupo Tigre está a prisão de Alexandre Ferreira Viana, 30 anos, considerado um dos principais seqüestradores do País. Ele é apontado como mentor do mais longo seqüestro do Paraná (ocorrido em novembro de 2005), que durou 50 dias. Desde então, Alexandre era procurado. A refém foi resgatada em São Paulo e mesmo depois os policiais continuaram as investigações para prender o seqüestrador. Alexandre foi preso em janeiro deste ano.

Segundo Riad, Alexandre segue o perfil da maioria dos seqüestradores. ?Esses marginais geralmente têm longa ficha criminal e larga experiência em assaltos. Os seqüestradores são os bandidos mais bem-preparados e inteligentes. É o estágio mais alto da criminalidade. No Brasil não existe seqüestro ideológico. Em todos os casos os bandidos pediram resgate?, finalizou Riad.