Foto: Fábio Alexandre/Tribuna

Marilza tem dificuldades
para controlar a filha.

Não importa se foi bala perdida, acerto de contas ou uma discussão banal. O disparo de uma arma de fogo, que tira a vida de pais praticamente todos os dias, deixa um buraco muito maior que o que causou a morte. O vazio sentido pelos órfãos da violência acarreta traumas e conseqüências, muitas vezes irreparáveis.

No último domingo, Nicoly Oliveira de Lara, de 2 anos 8 meses, viu o pai morto, com um tiro no peito, caído dentro de um boteco.

Daniel Ribeiro de Lara, 20, foi assassinado com um disparo destinado ao irmão. O jovem, segundo a esposa, não tinha envolvimento com drogas e era amigo do criminoso.

A menina foi com a mãe até o bar e ficou nos fundos do estabelecimento, com vizinhos. Ela escapou e viu o pai. Nicoly pedia para que ele abrisse os olhos, sem entender que Daniel já estava morto. Desde então, a mãe da criança, Marilza de Jesus de Oliveira, 35, não tem mais sossego. ?Minha filha está revoltada.

Ela grita, morde, me bate e chora muito a noite inteira. Preciso ter muita paciência para ajudá-la a superar esse trauma. Quando entra em crise eu a deixo com minha outra filha e começo a chorar escondida?, disse a mãe, lembrando que a filha chegou a empurrar outra criança, quando ela falou que o pai de Nicoly estava morto.

Segundo Marilza, Nicoly pergunta sempre por Daniel. ?Ela me pergunta quando ele vai voltar. Para tentar amenizar as lembranças, fui obrigada a tirar todas as fotos dele da estante?, completou. Mesmo sem ter a percepção de morte, mas já entendendo que a figura paterna não está mais presente, Nicoly começa despertar um dos sentimentos comuns da perda: a agressividade.

Afetividade é o alívio para traumas

Segundo o médico psiquiatra Rui Fernando Cruz Sampaio, cada criança reage de uma maneira diferente quando o pai ou a mãe morrem. ?Toda perda envolve luto, e esse processo é muito individual. Geralmente em casos de morte violenta a criança reage com agressividade ou desenvolve comportamentos depressivos. Ela pode até mesmo perder a fala, se isolar e não interagir mais com outras pessoas?, explicou Sampaio.

No caso de Nicoly, a situação se agrava porque ela viu o pai morto, e o trauma pode ser irreparável. Nestes casos é imprescindível acompanhamento psicológico. ?Ela pode não entender o conceito de morte, mas sabe que algo acabou. O que presenciou pode ser apagado da memória, mas ficará registrado para sempre no inconsciente. Ela poderá desenvolver medo diante de qualquer cena de violência na TV, sem entender o porquê?, finalizou Sampaio, lembrando que a perda do pai ou da mãe na infância vai, sem dúvida, interferir na vida adulta. Por isso, afeto e carinho dos outros familiares são extremamente necessários para preencher um pouco o vazio deixado.