Para conseguir um helicóptero que invadisse uma penitenciária paulista, uma quadrilha seqüestrou a família do piloto e proprietário de uma empresa de táxi-aéreo em Curitiba, José Melo Viana. O grupo, que manteve os reféns em cativeiro desde a manhã de quinta-feira, foi preso na manhã de ontem por policiais do Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial (Tigre) e da Polícia Federal (PF). Enquanto isso, uma rebelião "estourou" na Penitenciária de Mirandópolis (SP), onde líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) estão presos. Desde o dia do seqüestro a Tribuna tinha conhecimento do caso, mas não o divulgou para preservar a vida dos reféns e não prejudicar o trabalho policial.
Uma casa alugada no começo da semana, na esquina das ruas Doutor Simão Kossobudski com Carlos de Laet, no Boqueirão, serviu de cativeiro. Por volta das 4h de ontem, os policiais invadiram o local e conseguiram libertar a mulher, a filha de 11 anos e a empregada do piloto. Foram presos Edimar Alves, 37 anos, o "Fininho", que teria ligações diretas com o PCC; a mulher dele, Ana Lucia da Paixão, 36; Elondri Marcelo Santos Boza, 24, o "Cabelo", e Alessandro de Jesus Alves, 19, conhecido como "Colorau". As vítimas foram encontradas sem amarras, embora no chão dos quartos improvisados retalhos de lençol mostravam que elas poderiam ter sido amarradas. Em um dos aposentos foi localizado um manual de Direitos Humanos, que ninguém soube explicar sua utilização.
Explosão
Na abordagem, Edimar, que já cumpriu pena por roubo em São Paulo, disse que não iria ser preso novamente e tentou pegar uma arma. Ele foi hospitalizado com suspeita de fratura nas costelas. Foram apreendidas uma pistola calibre 9 mm, duas calibre 380, e outra 765. As armas estavam com a numeração lixada, com exceção de uma, cuja numeração não é cadastrada. "Os marginais não desconfiaram, em nenhum momento, que a polícia havia sido acionada e isto facilitou nossa ação", contou o delegado do Grupo Tigre, Riad Braga Farhat.
Peri Borges das Chagas, 60 anos, morador próximo ao cativeiro, contou que ouviu uma explosão na madrugada e pensou que era o transformador da rua, que havia estourado. Quando saiu para ver, entre a neblina, percebeu tratar-se da ação policial. "Eram vários carros que trancaram todas as ruas de acesso", disse. O barulho ouvido foi o de uma bomba de efeito moral usada pela polícia, para intimidar os seqüestradores. "Eles não dispararam um tiro sequer", comentou Peri.
Corrida contra o tempo
O piloto escolhido pela quadrilha é conhecido por sua habilidade no manejo de aeronaves. Segundo a polícia, os bandidos investigavam a rotina da vítima há cerca de dois meses. Ele foi seqüestrado no Ahu, quando levava a filha para a escola. Em seguida, a mulher e a empregada do piloto também foram rendidas.
Enquanto as mulheres e a criança eram levadas para o Boqueirão, no Ford Ka, o piloto recebeu instruções dos marginais. Ele teria que conseguir um helicóptero para fazer "um serviço", naquele dia. O piloto, que também é dono de uma empresa de táxi-aéreo, não tinha aeronave disponível, pois a sua estava em manutenção, e recebeu R$ 16 mil para alugar outra. Esse imprevisto atrasou a ação dos bandidos, que determinaram esta segunda-feira como prazo final para o piloto conseguir o helicóptero. Em paralelo, o serviço de inteligência da polícia conseguiu localizar o cativeiro e, com ligações com a polícia paulista, descobrir o alvo do resgate.
Os seqüestradores colocaram uma falsa escuta no piloto enquanto estavam na casa e disseram que ele estaria sendo monitorado o tempo todo. Ele recebeu também um celular para manter contato com a quadrilha. No cativeiro, também foram recolhidos seis celulares.
Bandidos se dividem em células organizadas
A casa, no Boqueirão, foi alugada na segunda-feira, em contrato para seis meses. "Eles pagaram R$ 350,00, pelo primeiro aluguel", relatou o proprietário, completando que a transação foi acompanhada de toda a documentação. Segundo a polícia, foi Elondri, morador em Curitiba, quem encontrou o imóvel e foi ele quem guardou o Ford Ka bordô, usado para transportar as vítimas. "O Elondri foi detido na casa dele, onde estava guardado o veículo", relatou o delegado Riad, do Grupo Tigre.
Ana Lúcia disse que ouviu falar sobre o resgate do preso, mas sua função era apenas cuidar dos reféns. "Mantinha o mínimo contato possível com eles", disse. Alessandro, por sua vez, afirmou ter vindo de São Paulo para visitar a tia Ana Lúcia, e que não teria envolvimento no crime. "Esta era a ?célula’ do cativeiro, falta pegarmos quem formava a do seqüestro e a do resgate do preso", comentou o delegado da Polícia Federal Fernando Franceschini. A divisão em células da ação é usada pelo PCC, para que a prisão de uma equipe não comprometa as outras.
O preso que a quadrilha foi contratada para resgatar atende pelos apelidos de "Vô", "Tio" ou "Cara Gorda". Ele seria um dos líderes do PCC e está preso em Mirandópolis (SP). O valor do resgate foi estimado em R$ 1 milhão. Segundo a polícia, neste fim de semana uma rebelião estourou no presídio. "Seria para facilitar a fuga", comentou Franceschini.
A solução do seqüestro foi realizada em conjunto entre o Tigre e a Polícia Federal. "Essa parceria, pela constância e sistematização que é feita, não se repete em outro lugar do País. Sabemos que o PCC tenta formar ligações no Paraná, mas, até agora, ele sempre se deu mal aqui", afirmou o secretário da Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari.
Fuga frustrada provoca rebelião
Revoltados com a prisão dos seqüestradores e com o fracasso do plano de resgate no Paraná, detentos da Penitenciária 2 de Mirandópolis, no interior de São Paulo, dominaram parte do presídio e fizeram reféns 16 agentes penitenciários. Cinco presidiários renderam os carcereiros e dominaram a ala hospitalar e os três setores onde ficam as celas. Entre os presos está o "Tio" , cuja identidade não foi divulgada, e que seria o alvo do resgate. Ele teria pago R$ 1 milhão pelo plano frustrado. Segundo o delegado Riad Braga, chefe do Grupo Tigre – a divisão anti-seqüestro que atuou no caso -, o motim foi liderado por outro detento ligado ao PCC. A tentativa de fuga teve início às 12h50.
No momento do motim, havia cerca de 250 pessoas visitando os detentos.
Por volta das 15h30 os detentos entregaram as armas, uma delas de brinquedo. Quatro detentos seriam os líderes do motim e foram transferidos para penitenciárias de Valparaíso e Lavínia.


