Portos Casela / Tribuna do Paraná
A farmácia ficou fechada após o roubo.

Dois homens armados prejudicaram o tratamento de 66 pacientes de leucemia mielóide crônica, assistidos pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná. Os assaltantes roubaram mais de R$ 90 mil em comprimidos de Glivec, medicamento utilizado por portadores da doença e distribuído gratuitamente pelo HC. Em todo o País, cerca de 1.200 pessoas dependem dele. A Polícia Federal foi acionada para investigar o roubo, que pode envolver quadrilha com ramificações internacionais.

Assim que entraram na Farmácia Ambulatorial de Programas Especiais do HC, por volta das 9h, os ladrões surpreenderam as pessoas presentes no local e portando três bolsas, pediram pelo Glivec, sem apontar os revólveres. Estavam na farmácia uma professora, duas estagiárias, uma funcionária e a farmacêutica responsável, Yoshie Sbalqueiro, de 42 anos, que indicou o armário em que era guardado o medicamento. Os bandidos levaram 23 caixas do remédio, cada uma contendo 120 comprimidos (totalizando R$ 92.730,00), além de quantidade não apurada de morfina e as jóias da farmacêutica. Os bandidos, que de acordo com as testemunhas eram jovens, fugiram com destino não identificado. “Um ficou com a gente na parte interna, enchendo as sacolas, e o outro estava na frente, guardando para que eles não fossem atrapalhados”, contou Yoshie.

Revenda

Como o medicamento roubado é fornecido gratuitamente em vários hospitais públicos brasileiros, uma das hipóteses aponta para uma possível revenda no Exterior. Foi o primeiro caso de roubo registrado na farmácia ambulatorial do HC, inaugurada em agosto de 2002.

Na farmácia do HC os medicamentos são distribuídos gratuitamente para portadores de câncer, doenças sexualmente transmissíveis, hanseníase e vítimas de violência sexual, desde que cadastrados pelo hospital. O Glivec é comprado com recursos do próprio hospital, que depois é ressarcido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS repassa o dinheiro para o HC após a apresentação da fatura de compra. Com o roubo, o prejuízo terá que ser bancado pela própria instituição.

Diretoria

Durante uma entrevista coletiva ontem à tarde, o diretor geral do HC, Giovanni Loddo, se pronunciou sobre o roubo do remédio. “Nunca imaginamos que isso pudesse acontecer. É um remédio específico e de altísssimo custo, algo em torno de R$ 6 mil por mês a cada paciente e é gratuito no Brasil. No mercado negro é possível que existam compradores certos e interessados”, afirmou o médico.

Ele explicou também que o estoque roubado atenderia 23 pacientes em fase inicial de tratamento. Uma sindicância interna para apurar o caso será realizada, como parte do procedimento adotado pela instituição. Segundo a direção do HC, lotes de Glivec chegam a cada dez dias, e o último veio na tarde de sexta-feira. Há suspeitas de que os assaltantes sabiam que o estoque do remédio era grande na manhã de ontem.

Segundo Giovanni Loddo, mesmo com o desfalque, os pacientes continuarão recebendo o medicamento que ainda não havia sido colocado no estoque da farmácia. Os assaltos de medicamentos já preocupam outras instituições de saúde do País. Em Porto Alegre, no Hospital da Conceição, foram registrados dois roubos, o último no final do ano passado. Outra ocorrência aconteceu no Hospital da Universidade de Campinas (Unicamp). “Sem dúvida eles tiveram algum informe e sabiam quando o remédio estaria na farmácia. Estavam com três sacolas e, por isso, sabiam que a quantidade de medicamento era grande. Aguardamos agora as investigações policiais para que tudo seja esclarecido”, diz o diretor.

Remédio é usado por doentes com câncer

A leucemia mielóide crônica (LCM) corresponde a 15% de todos os casos de câncer no sangue e afeta especialmente adultos e idosos. Fadiga, fraqueza, dores de cabeça, irritabilidade, febre, suor noturno e perda de peso são os principais sintomas da doença, diagnosticada através de um exame de sangue comum.

Calcula-se que um em cada 100 mil adultos são portadores da LCM.

Fabricado pelo laboratório paulista Novartis, o Glivec, aliado ao transplante de medula óssea, são considerados as principais alternativas terapêuticas ao paciente com leucemia mielóide crônica. O HC, referência nacional neste tipo de transplante, fornece o medicamento regularmente a 66 portadores da doença, cadastrados pelo Ministério da Saúde. O Glivec também está sendo testado para tratamento de tumores sólidos, mas ainda não foi comprovada sua eficácia.