Quinze anos depois, o mistério do desaparecimento do garoto Ewerton de Lima Vicente Gonçalves pode estar perto de chegar ao fim. Um exame de DNA será feito hoje para comprovar o que os pais do menino já têm certeza: de que o corpo da criança encontrada morta em 16 de fevereiro de 1989, 53 dias depois do sumiço, é mesmo o de Everton.

Em 2001, o oficial de justiça José Vicente Rossini Gonçalves, 44 anos, e a dona-de-casa Eliane de Lima Gonçalves, 37, pais do garoto, receberam anonimamente a cópia de um laudo emitido pelo Instituto de Criminalística de São Bernardo do Campo (SP). O documento referia-se à morte de um menino encontrado dentro de um saco, com sinais de espancamento, na vegetação à margem do quilômetro 36 da Rodovia dos Imigrantes, naquela cidade do ABC paulista. Pelas fotos do laudo, nas quais o rosto aparece com nitidez, e pelas características do cadáver, os pais não tiveram dúvida em afirmar que a criança era Ewerton. “Ele tinha as mesmas cicatrizes e os dentes cariados do nosso filho, que apontamos mesmo antes de ver o corpo”, contou José Vicente.

Mas faltava a prova oficial e dois anos depois, os pais se submeteram a um exame de DNA em São Paulo. A longa demora deveu-se à burocracia e pelo fato de a polícia ter que separar os ossos da criança em meio ao ossário de um cemitério paulista – o menino havia sido enterrado como indigente. O resultado do teste foi “inconclusivo” – ou seja, o material analisado não permitia o veredicto técnico.

Hoje, os pais coletam novo material no Instituto Médico Legal de Curitiba, para outro exame de DNA. Se o resultado determinar que o menino é Ewerton, ele será oficialmente considerado morto e o inquérito – que chegou a ser arquivado duas vezes – passa a investigar a autoria do seqüestro e morte.

Os pais cumpriram orientação da polícia para manter o caso em sigilo e só ontem levaram a situação à tona. “Esperamos passar o julgamento do caso Evandro (ocorrido no mês passado), para que o público não misturasse as histórias”, falou José Vicente. “E também precisava de tempo para me estruturar. A dor foi muito grande”, acrescenta a mãe,que se diz, de certa forma aliviada por ter chegado tão perto do fim da angustiante procura. “Claro que preferiria que o final fosse feliz. Mas pelo menos agora terei um lugar onde possa homenageá-lo, dizer o quanto o amo e que não foi culpa minha”, chorou Eliane.

Garotinho teria sido torturado e assassinado

Ewerton era uma saudável e bonita criança de 4 anos quando desapareceu em frente de casa, na Rua Celeste Santi, Ahú de Baixo. Era 23 de dezembro de 1988, e a família se preparava para descer ao Litoral. Sabendo que o pai logo chegaria com o presente de Natal – um helicóptero de brinquedo – o menino foi esperá-lo do lado de fora do portão.

José Vicente chegou e a esposa contou que não sabia onde estava Ewerton. “Não dei muita bola e continuei arrumando a bagagem”, lembra o pai. Mas o sumiço passou a preocupar. A viagem foi cancelada e teve início o drama que perdura há 15 anos.

Os pais percorreram vários Estados do Brasil, procurando pistas e distribuindo fotos do menino, que tornaram seu rosto bastante conhecido. A mãe conta que jamais perdeu a esperança de encontrá-lo com vida. “Sempre acreditei numa adoção ilegal, imaginando que ele estivesse sendo bem tratado em algum outro país. Por isso doeu tanto quando vi as fotos do laudo e soube que era ele”, contou Eliane.

Corpo

O corpo encontrado em 1989, na Rodovia dos Imigrantes, apresentava hematomas e escoriações, principalmente no tórax e na cabeça, e sinais de queimadura provocadas por cigarro. A causa da morte foi traumatismo craniano. Outro indicativo que liga o corpo a Ewerton é o saco de ráfia que o envolvia, com o logotipo da empresa Frangosul – que à época tinha uma filial a uma quadra de distância da casa do menino.

O delegado Carlos Madureira, designado para o caso desde 2001, prefere não detalhar as investigações. “Sem a certeza de que o corpo é do Ewerton, não posso comentar sobre indícios ou suspeitas”, falou. Mas pessoas ligadas ao delegado apontam que já existem indícios da autoria do seqüestro e morte do menino.

O casal, que tem outros três meninos (Ewerton era o mais velho), prefere não vincular o episódio aos desaparecimentos de outras crianças no Paraná. “Achamos que cada caso e um caso”, diz Eliane.

O delegado, que se disse surpreso com a divulgação do caso, afirma que a investigação será lenta e difícil, uma vez confirmada a identidade do cadáver.