Laertes: “Comandos e facções só levam à morte”.

Trocar o serviço de faxineiro pelo de padeiro e mais tarde, quem sabe, montar a própria padaria para trabalhar com a mulher e os três filhos é o sonho de Laertes dos Santos, de 49 anos. Um sonho que só poderá começar a se realizado daqui a dois meses, quando ele completar 30 anos de prisão.

Mesmo sendo condenado a mais de 130 anos de cadeia, pela prática de assaltos e furtos, Laertes será beneficiado pela lei brasileira que prevê 30 anos como pena máxima no País. Depois de passar mais da metade da vida atrás das grades, ele acredita que este será o último Dia dos Pais que comemorará no interior da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara. Como um dos mais antigos da cadeia, o preso conta que já viu de tudo, principalmente muita violência.

Possuidor de dois apelidos ? um é “Grandão”, devido a sua estatura, e o outro ele não revela, mas tem a ver com sua falta de dentes ? Laertes conta com orgulho que no início deste ano conseguiu, finalmente, ter uma profissão. “Agora sou padeiro formado, fiz curso durante um período que passei lá no Ahu. Sei fazer vários tipos de pães, quindins, doces diversos e gosto da coisa. Tenho jeito para lidar com a massa”, garante. Mas as mãos calejadas que agora direcionam a vassoura durante a faxina que faz todos os dias no prédio administrativo da PCE já empunharam muitas armas. Laertes foi protagonista de assaltos ousados mas nunca teve a sorte do seu lado. Dos crimes que praticou nada restou, além da condenação. “Sempre fui pobre e continuo pobre”, diz ele.

Filhos

Se no mundo do crime Laertes não se deu bem, a sorte acabou lhe sorrindo de outra forma. Ele é um homem feliz no amor. A paixão pela companheira que o visita há 17 anos e com a qual tem três filhos ? todos fruto de encontros amorosos embaixo de toldinhos feitos com toalhas lhe valeu a recuperação e a ressocialização. “Se não fosse ela, eu talvez não tivesse nenhum plano para o futuro”, garante, sem revelar o nome da mulher e dos filhos para não constrangê-los.

“Ela trabalha como zeladora em uma empresa e as crianças, dois meninos de 16 e 13 anos, e a menina de 9, estão estudando. São bons alunos e ela é uma excelente mulher”, garante Laertes, orgulhoso da família.

A forma como o casal se conheceu parece até história daquelas antigas fotonovelas que arrancavam lágrimas de quem as lia. Em 1985 Laertes trabalhava na prisão como “chamador”, o sujeito que chama os demais presos para audiências, encontro com advogados ou qualquer outra coisa. Caminhando pelo pátio, onde na época existiam dois telefones públicos à disposição dos detentos, ele lembrou de ligar para uma irmã que morava na periferia de Curitiba e que hoje está em Atlanta, nos EUA. Porém ao fazer a ligação, ele errou um número e quem atendeu foi R., uma jovem de 19 anos, recém-chegada do interior, que trabalhava como doméstica.

Amor

“Pedi desculpas pelo engano, desliguei e continuei o meu trabalho”, conta o preso. Mas algo havia lhe chamado a atenção na voz da jovem que o atendeu. Algum tempo depois, Laertes voltou ao orelhão, ligou novamente para aquele número e começou a conversar com a jovem. Galanteador, teceu vários elogios e preparou o terreno para contar que falava de dentro do presídio. “Quando eu contei ela ficou muda, mas depois continuou a conversar comigo. Disse que a minha pena era pequena, que era por acidente de trânsito, e ela se acalmou”, confidencia.

As conversas por telefone foram acontecendo durante semanas, até que um dia ela foi visitá-lo no presídio. “Ela disse que vinha toda de branco e eu fiquei esperando, vestido todo de preto. Eu a vi chegar e fiquei apaixonado mesmo. Uma loirinha, bonitinha, de 19 anos”, conta ele. Naquela ocasião, já dono da cantina existente próximo ao Pátio do Pinheirinho, Laertes preparou um lanche com café, leite e salgadinhos e agradou a jovem. Desde então ela nunca mais deixou de visitá-lo aos domingos.

“Quando eu sair, quero trabalhar muito e dar conforto para a minha mulher, que sempre deu um duro danado para cuidar das crianças e de mim também”, resume o apaixonado marido.

Aprendendo a sobreviver em meio à violência

Três décadas atrás das grades conferiram a Laertes alguns ensinamentos para sobreviver em meio a violência. Um deles é se fazer respeitar e outro é respeitar os companheiros sem se meter em confusões. Ele conhece todos os artigos do Código Penal, os caminhos que tem que percorrer ? com advogado do próprio Sistema Penitenciário ? para conseguir a liberdade definitiva, e aprendeu a ter paciência. Contrário a rebeliões e manifestações violentas, o preso fala da inutilidade de formar comandos e facções. “Isso que acontece hoje em dia, de presos se envolverem em organizações, não dá em nada. Todos acabam morrendo”, salienta.

Em agosto de 1974 ele conviveu com a primeira rebelião registrada na Penitenciária Central do Estado, quando o diretor era Luiz Chemim Guimarães. Na ocasião foi assassinado o chefe de segurança, Júlio Biss. “Fazia três meses que eu estava na unidade e não me envolvi”, recorda. Já nos idos dos anos 80 ele conviveu com os irmãos Savagim, que dominaram a Penitenciária Central do Estado por algum tempo e promoveram rebeliões. “Todos estão mortos.” Viu também a formação do Comando de Pedro Leal e da Falange da Panela, que resultaram em matanças. Mais recentemente assistiu o “Comboio do Geléia”, que organizou duas rebeliões na PCE. “Disso tudo sobrou sangue e destruição. Não vale a pena. Quem entra nesses comando não consegue sair mais. Mesmo quando ganha a liberdade precisa voltar para o crime para mandar dinheiro para dentro da cadeia. É uma fria”, explica.

No entender de Laertes, o Sistema Penitenciário atual continua sendo uma escola do crime, já que condenados pelos mais variados delitos convivem juntos e acabam aprendendo o que não devem. “O melhor é que existissem alas separadas para autores dos diferentes artigos. Assim cada um cumpriria sua pena e iria embora, sem aprender coisas novas”, diz. Por fim, Laertes arrisca até um conselho para as autoridades do sistema, para que não aceitem presos de fora (de outros Estados), porque normalmente são esses que desestabilizam o ambiente na cadeia e instigam as rebeliões. (MC)