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Painel do Crime

Cope põe onze skinheads na cadeia

  • Por Patrícia Cavallari

SESP
Eduardo e Edwiges:
"orgulho branco" fora das ruas.

Onze presos e a localização de um arsenal com bandeiras com a suástica nazista, desenhos em grafite, gibis, capas de revistas e livros com a imagem de Adolf Hitler foi o resultado da ação do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope) que desmontou ontem, em Curitiba, um dos grupos de "skinheads" mais organizados do país.

O indivíduo conhecido como "Brasil", cujo nome é Eduardo Toniolo Del Segu, 25 anos, é o cabeça do casal acusado de liderar o grupo. "Brasil", que é professor de jiu-jitsu, e a esposa dele, Edwiges Francis Barroso, 26, foram reconhecidos por um jovem, esfaqueado em setembro, no centro da cidade.

O casal de neonazistas foi preso em uma casa no bairro Santa Felicidade. Também foram presos Bruno Paese Fader, 20; André Lipnharski, 25; Estela Herman Heise, 20; Fernanda Keli Sens, 24; Drahomiro Michel, 28, conhecido como "Gavião", e mais quatro adolescentes.

Segundo os detidos, entre eles três mulheres e quatro adolescentes, o bando existe há 10 anos, tendo como filosofia o repúdio a negros, homossexuais e judeus.

Ao identificar os "skinheads", cinco mandados de prisão e dez de busca e apreensão foram expedidos e cumpridos ontem, na operação que começou às 6h da manhã, deflagrada por 40 policiais do Cope. Dez investigadores foram até a residência, onde realizaram as prisões e apreenderam farto material nazista.

Investigações

O trabalho teve início no final do mês de setembro, quando adesivos assinados pelo grupo que se intitula "Orgulho Branco" e "Frente Anti-Caos", com as mensagens "Mistura Racial? Não, Obrigado!", "Homossexuais afrontam a natureza" e "Homossexuais molestam crianças", começaram a ser disseminados em Curitiba. Na mesma época, um jovem de 19 anos, gay e negro, afirmou ter sido vítima da intolerância do grupo, quando foi ferido com um golpe de tesoura na barriga, perto da Rua 24 horas, local de concentração dos "carecas". Depois desses fatos, a pedido do Instituto de Pesquisa Afrodescendência (Ipad), a Secretaria da Segurança Pública do Paraná solicitou a abertura de inquérito policial ao Cope.

Adesivo foi "importado" de SP

De acordo com os policiais, os adesivos com dizeres racistas foram trazidos de São Paulo pelo namorado de Estela, que está sendo procurado pela polícia. Todos foram presos e deverão responder pelos crimes de racismo e formação de quadrilha.

O casal vai responder ainda por tentativa de homicídio, lesão corporal e ameaça, e os menores foram levados à Delegacia do Adolescente, onde serão punidos de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. "Este grupo comete ataque a judeus, homossexuais e negros praticamente toda a semana. Estamos investigando os homicídios e espancamentos, que possivelmente tenha o envolvimento dos skinheads mas, para isso, precisamos que as vítimas nos procurem para denunciá-los. É inadmissível que grupos como estes continuem agindo", finalizou o delegado Marcus Vinícius Michelotto.

O material apreendido foi recolhido das dez residências vistoriadas pela polícia. No porão da casa dos líderes do grupo Eduardo Toniolo Del Segue, 25 e Edwiges Francis Barroso, 26, foi apreendida uma bandeira preta, com o símbolo 88, que remete à saudação nazista "Heil Hitler", uma vez que a letra "h" é a oitava do alfabeto. Também foram apreendidos CDs com músicas e mensagens nazistas, e fitas de vídeo e fotos do casal em meio a outros "carecas".

"Vovô"

"Nós também recolhemos uma foto do filho deles, de dois anos, e da filha dela fazendo a saudação nazista. O mais absurdo é que quando o menino via a foto de Hitler o chamava de ?vovô?. As alianças do casal também tinham o símbolo da suástica", contou o delegado Marcus Vinicius Michelotto.

O que também chamou a atenção dos policiais foi um gibi, confeccionado por um dos membros do grupo, que traz a história "ressuscita" Hitler, que lidera um grupo de skinheads para matar negros. No gibi haviam frases preconceituosas, como "queremos apenas a preservação de nossa raça e não a destruição das outras, mas se esse for o único modo, assim faremos, para a continuação da doutrina de Adolf Hitler". Outras frases diziam "precisamos nos organizar, formar partidos, entrar nas forças armadas, policiais, nos formar advogados, juízes e promotores para sustentar o partido, com lei em prol de nossa raça para novamente erguemos o ideal". Os desenhos são de skinheads espancando e exterminando negros. Também foram apreendidos socos-ingleses, e um manual de como fabricar bombas.

O delegado acredita que este seja o grupo mais forte de Curitiba e que existam outras ramificações que ainda estão sendo investigadas. "Eles têm ligação com os grupos de todo o país através da internet, e por enquanto sabemos que os skinheads estão presentes em São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Pela internet eles recrutam adolescentes e custeiam a participação no grupo", informou o delegado, salientando que todos os presos confessaram o repúdio aos negros, homossexuais e judeus, afirmando ter ódio dessas raças. As investigações contaram com a ajuda de ex-integrantes do bando, que alegaram estar sendo ameaçados depois que deixaram de partilhar da ideologia nazista.

Intolerância copiada de fora

Os skinheads curitibanos seguem a mesma ideologia que se disseminou na europa. Os primeiros grupos apareceram na Inglaterra, como subcultura jovem no fim dos anos 60 como uma classe trabalhadora em reação ao movimento hippie. Eles usavam o cabelo cortado rente ao couro cabeludo, camisetas de trabalhadores com jeans e suspensórios e calçavam botas pesadas e vermelhas. Naquela época, os skinheads se envolviam, principalmente, em ataques contra asiáticos migrantes na inglaterra e em confronto de torcidas de futebol (hooligans). No Brasil, o movimento foi assimilado principalmente em São Paulo, onde desde a década de 70 as agressões discriminatórias têm sido freqüentes. Os "Carecas do ABC", um dos maiores grupos desta vertente, são conhecidos por suas agressões contra negros, nordestinos e homossexuais. Ele é formado por moradores da Zona Norte e Zona Sul e se reúne no bar do Bixiga nos finais de semana. Em São Paulo, os skinheads começaram a organizar-se a partir de 1977 no ABC, no movimento punk. No começo dos anos 80, divergências ideológicas causaram um racha no grupo. Uma parte dos punks virou "carecas" e a partir de 1986 os skinheads, conhecidos como "Carecas do ABC", voltaram-se contra os imigrantes e passaram a pregar o racismo e o neonazismo.

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