A chuva umedeceu a laje e facilitou o trabalho.

Vinte e seis dos 127 presos do cadeião da delegacia de São José dos Pinhais escaparam do xadrez no final da madrugada de ontem. Os presos aproveitaram o barulho da forte chuva e cavaram um buraco de aproximadamente 15 centímetros, por onde outros detentos já tinham ganhado a liberdade no ano passado.

Com a forte chuva dos últimos dias, a laje umedeceu, e os presos começaram a cavar um buraco, que já havia sido tapado no ano passado. Eles retiraram o ferro do concreto para facilitar a abertura do buraco, situado no teto de uma das celas. Alguns presos que estavam no corredor estouraram o cadeado para aproveitar a oportunidade de fugir pelo buraco. Depois quebraram as telhas de eternit e pularam para o quintal de uma casa vizinha, situada na Rua Tenente Luís Campos Valeixo. “Parecia um batalhão correndo ao lado da minha janela. Eram 5h28, telefonei para a PM porque fiquei com medo de que eles ficassem escondidos aqui, como já aconteceu. Passaram por aqui, mas ninguém entrou no meu quintal. Hoje fiquei mais tranqüila quando o pessoal da delegacia veio dar uma olhada”, lembrou Carla Renata de Almeida, mostrando as marcas de sapatos deixadas no muro pelos fujões. “Eles sempre fogem pelo nosso quintal. Já estamos acostumadas, mas sempre é um susto”, disse Fernanda Almeida. Ela comentou que no horário em que ocorreu a fuga seu marido sempre está chegando do serviço. “Sorte que a escala dele mudou. Meu medo é que os presos passem por aqui, encontrem a polícia na frente e para escapar entrem na nossa casa e nos peguem como reféns”, comentou Fernanda. “Aqui é o centro da cidade e não deveria ter tantos presos nessa delegacia”, emendou Renata.

As mulheres lembraram que no dia 11 de janeiro, quando os presos escaparam por um buraco ao lado do aberto neste fim de semana, também passaram por suas casas. “Acho que já é a quarta vez”, calcula Renata. Quando os plantonistas perceberam a fuga, acionaram a Polícia Militar, já que eles também não podiam deixar o local, pois tinham que cuidar dos detentos que ficaram. Foram feitas buscas em toda a região, mas somente John de Goes Floger voltou para trás das grades.

Foragidos

Estão em liberdade os assaltantes Ailton Rodrigues de Oliveira, Alex Pereira do Nascimento, Claudinei Rodrigues de Souza, Jackson de Souza e Wandair Valeriano da Silva; os ladrões Antônio Valaski, Carlos de Lara Novaes, Jonacir Bernardes, José Carlos dos Santos Buava, Paulo Francisco da Silva e Ricardo Calixto da Silva; os traficantes Adriano Martins, Egor Marcelo Kretilow e Valdinei Alves de Assis; os homicidas Marcelo da Silva Polli e Welligton Cobertine Leite. Além de Anderson Isac Ferreira (lesão corporal) e Odilio Felix dos Santos (uso de drogas). Cleverson Gustavo de Oliveira, Francisco C. P. da Silva, Janiel Filakoviski Gonçalves, Jonathan Borges de Espíndula, José Davi Bornea, Silvano de Lima e Vanderlei Brant estavam presos por porte ilegal de arma.

Delegacia de São José “alagou” ontem

Além da falta de policiais que atinge as delegacias da Região Metropolitana de Curitiba, a de São José dos Pinhais sofre como as outras com o problema da superlotação e a falta de estrutura. A chuva que caiu na madrugada de ontem alagou toda a cadeia, formando um pequeno riacho nos corredores. No xadrez há infiltração e goteira, piorando ainda mais a situação dos detentos.

Com capacidade para 60 pessoas, distribuídas nos doze cubículos, a cadeia estava com 127 presos antes da fuga. De acordo com dados da própria delegacia, somente 35 deles foram presos no ano passado, os outros 92 foram recolhidos este ano. Além disso, 26 detentos saíram do xadrez com alvarás de soltura, 30 foram transferidos para o sistema penitenciário, cinco mulheres estão na cadeia de Quatro Barras e 18 menores foram apreendidos. Ao todo 171 pessoas passaram por ali somente este ano.

Segurança

Com a falta de segurança dos policiais que permanecem no plantão das delegacias, que exercem a função de carcereiro, a Secretaria de Estado da Segurança Pública divulgou na última quarta-feira o lançamento do programa “cartão”, onde os policiais militares passam nas delegacias para dar um “apoio” aos policiais civis. Na madrugada de ontem, por volta da 1h da madrugada, uma equipe de policiais esteve na delegacia, perguntou se estava tudo bem e foi embora. Pouco depois, os presos escaparam.