Desfigurada, Maria tenta se
recuperar no Hospital Cajuru.

Maria Aparecida Martins é uma mulher de 44 anos igual a tantas outras que vivem nos bairros de Curitiba. Separada, tem uma filha adolescente, um emprego no serviço de limpeza do Tribunal Regional Eleitoral, um namorado com quem dividia uma casa no Cajuru, amigos e parentes morando perto. Tudo mudou na tarde do último dia 2, quarta-feira passada, quando Aparecida entrou para o triste rol de mulheres agredidas pelo próprio companheiro.

Depois de uma discussão aparentemente banal com o amásio, Aparecida foi esfaqueada diversas vezes. O homem, Raimundo Fernandes Sobrinho, está foragido. Ela, que atribui “a Deus” o milagre de ter sobrevivido à agressão, ficou desfigurada, perdeu dois dedos da mão direita e corre o risco de perder os movimentos da mão esquerda.

Desespero

A dona-de-casa Ilda Martins, mãe de Aparecida, está tão desesperada com a situação que recorreu à imprensa para desabafar. “Minha filha está presa na cama e a gente nem sabe o que vai ser dela. Já o bandido que fez isso e quase tirou a vida dela está solto por aí”, diz, chorando. Ela tem passado os dias ao lado de Aparecida no Hospital Cajuru, mas ontem não pôde fazer companhia à filha. Devido ao nervosismo, Ilda passou mal e teve que ficar em casa de repouso.

O delegado Antonio Macedo Campos Filho, do 6.º Distrito (Cajuru), afirma que o caso está sendo investigado e nega que esteja havendo negligência por parte da polícia. Vera, irmã de Aparecida, registrou o boletim de ocorrência no dia seguinte à agressão, citando o nome do acusado. Ontem, a arma do crime – um facão que Raimundo teria comprado um dia antes da agressão – foi recolhida pela polícia. Parentes de Aparecida dizem que Raimundo, que não foi mais visto no Cajuru, pode estar escondido em uma chácara em Antonina.

Inferno

Aparecida contou à reportagem da Tribuna que, na tarde da quarta-feira passada, estava em casa descansando quando Raimundo iniciou a discussão. “Ele disse que não queria comer a minha comida e avisou que naquele dia todo mundo ia pros quintos dos infernos”, relatou. Ela, então, teria dito que iria embora da casa. Já seria a terceira vez que Aparecida tentava deixar Raimundo. “Nos últimos cinco anos ele não fazia outra coisa que não fosse beber. Qualquer dinheiro que conseguia fazendo bicos, em vez de pôr na casa, ele gastava na cachaça”, relembrou.

O homem ficou transtornado ao ouvir que Aparecida ia deixá-lo mais uma vez e saiu atrás dela armado com o facão. Atacou-a na calçada, gritando que se ela não fosse dele não seria de mais ninguém. “Eu nem sei quantas facadas tomei. Me defendi com os braços, quando não aguentei mais caí, e ele começou a esfaquear minha cabeça. Daí não lembro de mais nada”, disse a vítima. “Ele estava tão diferente que desconfio até que tinha alguma droga na cabeça”.

Ela foi socorrida por um vizinho enquanto Raimundo fugia. No hospital, Aparecida terá que passar ainda por diversas cirurgias -uma delas, marcada para hoje -na tentativa de recuperar o tendão do braço esquerdo, que foi seriamente atingido, correndo o risco de perder os movimentos.

Afiado

Testemunhas contaram que Raimundo estava premeditando o crime. Ele teria comprado o facão um dia antes – estava, inclusive, com a etiqueta ainda pendurada quando foi usado para agredir Aparecida – e, no dia do crime, passou o dia afiando o instrumento. “Foi Deus quem salvou minha vida e colocou tanta gente boa no meu caminho. Os médicos, as enfermeiras, todo mundo aqui no hospital me trata bem demais. Só não sei o que vai ser de mim depois”, finalizou, entre lágrimas.