Quem é obrigado a descer no ponto final do ônibus que faz a linha Tupi – única que faz interligação com o terminal do Pinheirinho, em Curitiba – também convive com o medo, principalmente à noite.

Cláudia P.S., 23 anos, trabalha como doméstica, é mãe de dois filhos e mora na Rua Jovino da Paz, no Jardim Turim, em Araucária. Mas ao contrário do que o nome da rua sugere, ela não sabe o que é ter paz na região onde reside. A jovem mãe já sofreu três tentativas de assalto em sua casa, teve os vidros das janelas quebrados e foi obrigada a comprar um revólver para se sentir um pouco mais segura.

Cláudia é apenas uma das moradoras daquele bairro que vive amedrontada. Praticamente toda a vizinhança dela já sofreu assaltos e as pessoas vivem em constante clima de pavor. O local conta com cerca de 200 casas, pertencentes a pessoas de menor poder aquisitivo. Ruas sem asfalto e muitos terrenos cobertos por mato são locais propícios para a ação dos assaltantes. Assustados, os moradores têm medo de contar seus dramas e principalmente de apontar os ladrões.

Quem é obrigado a descer no ponto final do ônibus que faz a linha Tupi Ä única que faz interligação com o terminal do Pinheirinho, em Curitiba Ä também convive com o medo, principalmente à noite. A pouca iluminação e o pequeno movimento de carros pelas principais vias, transformam o local num “ninho” de criminosos. “Eles se escondem no mato e quando o ônibus deixa os passageiros, aparecem de surpresa, armados, e levam tudo”, comentou um rapaz, sem querer se identificar.

Tiros

A história de Cláudia chama a atenção. Nos últimos meses recebeu a ingrata visita de ladrões por três vezes, sempre à noite. Na primeira, os criminosos ultrapassaram o portão de grades, chegaram ao carro e furtaram o toca-fitas. Ela acredita que eles pretendiam levar mais coisas, mas não conseguiram. Na segunda vez, os ladrões foram mais atrevidos. Com uma chave de fenda removeram a massa dos vidros da janela e tentaram abrir o cadeado. O marido dela acordou, movimentou-se na casa e os espantou.

“Naquela ocasião nós chamamos a polícia, pois já estávamos apavorados com o que vinha acontecendo”, conta ela. Os policiais disseram que nada poderiam fazer, já que ela não sabia dizer quem eram os criminosos. “Então perguntei se eu tivesse uma arma em casa, se poderia reagir, atirar contra eles”, contou a vítima. A resposta dos policiais, segundo a mulher foi surpreendente: “Atire para matar, depois puxe o corpo para dentro do terreno e fuja do flagrante. Quando você reaparecer, vai responder a um processo que não dá em nada”.

A doméstica e seu marido seguiram o conselho. Embora com dois filhos menores em casa, compraram um revólver para se proteger, ignorando o perigo que a arma pode representar se cair nas mãos das crianças. “Na terceira tentativa de assalto eles vieram em seis. Ficaram dois de cada lado do portão e dois entraram. Ouvimos o barulho, meu marido apanhou o revólver e deu uns tiros. Eles fugiram mais uma vez, sem nada levar”, confidenciou a jovem senhora.

A arma porém, não é garantia de segurança. A família continua amedrontada, temendo que a qualquer momento a quadrilha retorne, talvez para agir com mais violência.

Comércio

Os comerciantes do local, em sua maioria proprietários de bares, mercearias e pequenos mercados, também já sofreram assaltos. O inacreditável é que praticamente todos têm medo de denunciar os ladrões. “A gente já nem procura mais a polícia, pois os bandidos voltam depois, mais raivosos”, comentou Aremisio C., 29 anos, proprietário de uma mercearia. Ele lembrou ainda que vários dos crimes são praticados por menores de idade.

O comerciante até parou de estudar, pois precisava freqüentar um cursinho pré-vestibular em Curitiba no período noturno. “Fui assaltado uma porção de vezes no ponto final do ônibus. Então desisti de sair à noite”, explicou. Os moradores também já fizeram um abaixo-assinado pedindo à Prefeitura que mude o local do ponto final do coletivo, de forma que os usuários possam descer mais próximos de suas casas e conseqüentemente mais longe dos locais de risco. “Mas a Prefeitura também não tomou nenhuma providência”, reclama Aremisio, mostrando vidros quebrados na fachada de sua mercearia. “Eles passam à noite e atiram pedras”, explicou.

Fuga

Casas fechadas são comuns na região, pois muita gente, depois do segundo assalto, decide arrumar as coisas e ir embora. Uma mulher ficou tão apavorada ao ter a moradia invadida por uma gangue, que desmontou até a casa de madeira e se mudou. Ficou no terreno somente o banheiro da casa, construído em alvenaria.

Outro rapaz, um garçom, estava dormindo quando a residência foi invadida. Os ladrões quebraram a porta de entrada a pontapés, o obrigaram a ficar embaixo da cama, e roubaram os pertences de maior valor. Outra mulher ficou trancada com os filhos no banheiro, enquanto os criminosos tratavam de levar o televisor, o aparelho de som e outros objetos.

“Esta é uma terra sem lei. Precisamos de mais policiamento, de mais atenção das autoridades da segurança pública”, salientaram os moradores.

Ponto final

Também os motoristas do ônibus que fazem a linha Tupi sofrem com a insegurança. Gilvan P.S., 42 anos, já foi assaltado duas vezes. “Levaram o dinheiro do caixa e algumas passagens. Eles entram em dois, armados e fazendo ameaças. A gente não tem como se defender”, diz ele, que há muito tempo deixou de usar relógio e qualquer outro acessório. “A gente sai só com a roupa do corpo para não ter prejuízo”, confidenciou.

Delegacia não recebe queixas

Embora os moradores do Jardim Turim, em Araucária, relatem inúmeros casos de assaltos, a delegacia da cidade não tem conhecimento de nenhum dos violentos episódios ali acontecidos. De acordo com o delegado Joel Bino de Oliveira, as vítimas não registram as queixas e dessa forma não há como investigar as ocorrências nem prender os responsáveis pelos crimes.

“Eu estou trabalhando em um caso de invasão de residência que aconteceu no Jardim Ipê, próximo dali. Mas no Turim não tenho qualquer informação de crime”, salientou o policial, pedindo que as vítimas registrem todas as ocorrências, das menores às maiores. “Eu prometo que se for procurado, vou tomar todas as providências cabíveis”, garantiu Bino de Oliveira.

Algumas denúncias de moradores dão conta de que a grande maioria dos roubos é praticada pela “gangue do Anderson”, cujo “quartel general” fica no Jardim São Franciso, ao lado do Turim. A polícia também desconhece a existência desta quadrilha, mas promete investigá-la.