Rapaz diz que matará o pai.

O crime bárbaro cometido pelo adolescente de 17 anos, que na noite de quarta-feira assassinou a própria mãe, não revoltou apenas a população e os familiares da vítima. Levado à Delegacia do Adolescente, ao ser detido na quinta-feira, o rapaz foi jurado de morte pelos internos, que diziam "ele também deve morrer", e por isso teve que ser transferido, ontem, para o Educandário São Francisco, em Piraquara.

De acordo com o escrivão da delegacia especializada, Alan Rodrigues, na tarde de ontem o menor teve a primeira audiência na Promotoria da Vara Criminal do Adolescente Infrator. Em princípio, ele ficaria detido durante 90 dias na delegacia, onde receberia atendimento psicológico e aguardaria a decisão judicial quanto ao tempo de reclusão. Porém, com a revolta dos internos, ele foi removido, por medida de segurança, ao Educadário. O menor ficará preso durante o tempo a ser determinado pelo Ministério Público, permanecendo, provavelmente, em uma cela individual, em regime fechado. Ele poderá receber punição de até três anos de internamento – tempo máximo previsto pelo Estatuto da Criança e Adolescente.

Ameaça

Em 2002 o infrator foi detido por furto pela primeira vez. Desde então, ele retornou outras quatros vezes à Delegacia do Adolescente pelos crimes de furto, posse e uso de drogas. Durante a audiência, ele confessou ter cometido o crime de forma consciente, sem ter feito uso de álcool ou de qualquer entorpecente. A polícia não pode fazer exame toxicológico no acusado, por ser menor de idade. O exame só seria realizado se houvesse autorização judicial. "Ele é muito perigoso e, depois de matar a mãe, agora garante que vai fazer o mesmo com o pai", contou o escrivão, lembrando que, no Educandário, o acusado também receberá acompanhamento de psicólogos.

Crime

Na manhã de quinta-feira a enfermeira – mãe do acusado – foi encontrada morta pelo marido dela, caída sobre sua cama, na Cidade Industrial de Curitiba. O filho confessou tê-la esganado com uma toalha e depois a degolado com uma faca, que foi encontrada debaixo do corpo da vítima. Eles estavam morando no local há duas semanas. Tinham mudado para o apartamento assim que o adolescente saiu da delegacia, depois da mãe ter pago o valor de R$ 3 mil em fiança.

A falta de limites ao filho resultou na separação temporária da enfermeira e seu marido, uma vez que o homem não era conivente com o protecionismo da mulher. Tamanha dedicação culminou em fim trágico para todos. A enfermeira foi cruelmente assassinada pelo filho, que foi novamente preso e agora passa a ameaçar o pai, que ficou desolado.

Drogas potencializam a violência

Matar a própria mãe é, sem dúvida, um ato bárbaro que fere os princípios básicos de qualquer sociedade. Por isso, o episódio ocorrido na noite de quarta-feira, envolvendo o adolescente de 17 anos, e a mãe dele, uma enfermeira, de 34, chocou e gerou uma discussão: o que leva um filho a retribuir a dedicação e amor materno com tamanha crueldade?

Trabalhando no campo das hipóteses, o médico psiquiatra e chefe do Laboratório de Hipnóse Forense do Instituto de Criminalística, Rui Fernando Cruz Sampaio, acredita que o garoto sofre de um transtorno de personalidade. "Não o conheço o suficiente para poder diagnosticar o que o levou a cometer tamanha crueldade, mas ao que tudo indica ele possui um perfil psicológico bastante perturbado, que, no entanto, não o exime da culpa", diz Sampaio.

De acordo com o médico, pelo histórico de agressividade do adolescente, uma vez que ele foi preso várias vezes e há alguns anos esfaqueou o pai, certamente possui uma pré-disposição latente para ser agressivo e explosivo. Estas características já nascem com a pessoa, sendo muitas vezes hereditária, e são agravadas pelo meio em que ela vive. Desde a infância esse perfil pode ser percebido pelos pais. "Geralmente, quando crianças, estas pessoas são manipuladoras, mentirosas e explosivas, o que contribui para que, no futuro, virem criminosas, tendo como vítimas qualquer um, inclusive um parente próximo", explica Sampaio.

Porém, estes distúrbios não os exime da culpa de seus atos. O médico conta que se o adolescente se inclui neste quadro, pode-se dizer que ele matou a mãe de forma consciente e por isso deverá ser punido como qualquer outra pessoa. Diferente disso, são os esquizofrênicos, que podem cometer um delito durante um surto. "Estes agem de maneira inconsciente, sem noção da gravidade de seus atos, por isso são julgados de maneira diferenciada", explica o médico.

Apesar de o adolescente afirmar ter cometido o crime sem ter feito uso de drogas ou álcool, Sampaio salienta que a cocaína e o crack potencializam as características de agressividade dos dependentes, principalmente se houver tempo prolongado de uso. Já, a maconha não possui tamanho efeito.

Limites

A falta de limites imposta pela mãe do acusado pode tê-lo encorajado a cometer o assassinato. Ainda de acordo com Sampaio, a adolescência é uma fase que naturalmente desperta revolta e contestações. "A vida tem limites e a sociedade tem regras que devem ser respeitadas, e as primeiras são impostas pelos pais. Quando os filhos são superprotegidos e deixados à vontade, eles acham que são onipotentes, nas no mundo lá fora se deparam com a dura realidade. Não ter um modelo em casa, possuir ausência de limites e ter uma superproteção é extremamente maléfico. Por isso um adolescente sem limites é sem dúvida um adolescente infeliz", finalizou o médico.