A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Paraná (OAB-PR) constatou que foram policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) que agrediram presos da delegacia de Araucária, na terça-feira passada, durante uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público. A constatação é diretor da Comissão, Herbert Rehbein, que colheu dezenas de depoimentos. O Gaeco pediu apoio operacional do Bope para cumprir mandados de prisão e busca e apreensão, numa investigação de tráfico de drogas comandada de dentro da cadeia.

“As lesões existiram, e foram gratuitas. Os presos não sabem porque apanharam”, afirma Rehbein, que ouviu os presos e alguns policiais. De acordo com ele, a operação começou antes das 8h, quando os presos ainda dormiam. Sonolentos, eles demoraram a levantar para ir até o corredor. Quem demorava mais, levava golpes de cassetete e do escudo dos policiais.

Rehbein apurou que apenas os policiais do Bope ficaram no corredor com os presos. Um delegado do Gaeco; o delegado-titular de Araucária, Amadeu Trevisan; um promotor e funcionários de plantão do Departamento Penitenciário (Depen) ficaram na sala do plantão, sem ver o que acontecia. A carceragem é de responsabilidade do Depen, da Secretaria Estadual de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos.

Sabão

Aliocha Maurício
Trevisan abriu inquérito.

No corredor, os aproximadamente 90 presos ficaram em pé, enquanto os policiais revistavam as celas. Segundo Rehbein, os policiais jogaram no chão sabão em pó usado pelos presos para lavar roupa. Os presos descalços, com os pés suados, escorregavam e caíam. “Eles eram levantados a chutes”, explica o advogado. Os alimentos dos presos, encontrados durante a revista, de acordo com Rehbein, foram jogados no buraco utilizado como privada.

A revista nas celas durou cerca de duas horas. Pelo menos 30 presos relataram que foram agredidos e onze deles, com lesões aparentes, foram encaminhados para o Instituto Médico-Legal, para exame de corpo de delito. Dois laudos comprovam as lesões e os outros devem ficar prontos nesta semana.

Inquérito

O delegado Amadeu Trevisan ouviu os presos e instaurou inquérito. Ele disse que eles são unânimes em dizer que ninguém se negou a cumprir as ordens ou provocou os policiais. O caso é acompanhado pela promotoria de Justiça de Araucária.

Notas desmentem exageros

Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Polícia Militar afirmou que, ao contrário do que foi apurado pelos representantes da OAB, “as ações da PM foram acompanhadas por integrantes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e da Polícia Civil e, a princípio, não houve nenhum exagero”.

A mesma informação havia sido dada terça-feira da semana passada, pelo Ministério Público, que também emitiu nota esclarecendo que “a ação foi feita em cumprimento a mandado judicial e realizada dentro dos parâmetros legais, com o devido respeito às pessoas dos presos, sendo acompanhada por representantes de diversas instituições diferentes: do MP-PR, do Batalhão de Operações Policiais Especiais e da Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania. Acompanharam também a inspeção o delegado de polícia Adilson Ricardo da Silva e o promotor de Justiça José Carlos Faria de Castro Vellozo, que atuam no Gaeco”.

Clima tenso

O diretor da Comissão da OAB-PR, Herbert Rehbein, esteve ontem na carceragem e disse que o clima está ,tenso. Em um espaço para 16 presos, com a chegada de novos detidos após a operação do Gaeco, terça-feira passada, já estão mais de cem homens.

No sábado, os presos serraram barras de ferro para tentar fugir e, como castigo, ficarão um mês sem receber visitas. Os presos prometeram se rebelar caso fiquem, realmente, sem visita. O vice-diretor da Casa de Custódia esteve ontem na delegacia e disse a Trevisan que tentaria encontrar vagas para transferir a maior parte dos presos.

Indício de tráfico

A investigação de tráfico de drogas comandado por celular, de dentro da carceragem de Araucária começou em março. Na terça-feira da semana passada foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão, um deles na delegacia, que resultou na agressão.

Segundo Leonir Battisti, coordenador do Gaeco, já foram feitas escutas telefônicas e há fortes indícios de que realmente o tráfico acontecia sob ordens dos presos. As investigações continuam para descobrir como os celulares entraram na carceragem e se há mais pessoas participando do esquema.