?Pior cego é aquele que não quer ver?. Melhor seria, por dedução, aquele que quer ver. Mas a discussão sobre a crise ou apagão aéreo empaca quando os controladores de vôo insistem que muitas vezes, nos céus do País, voam aviões fantasmas. Os controladores, à falta de equipamentos atualizados, não os vêem nem os localizam. E cegos também ficam os pilotos, que não sabem com precisão por que vias e em que direção estão voando.

Pás de cal poderiam ter sido jogadas sobre os corpos e o episódio da queda do Boeing da Gol que matou mais de uma centena e meia de passageiros e tripulantes há quase nove meses, não fosse a revolta dos controladores, que eram responsáveis, no dia do desastre, pela orientação dos pilotos. Estes e a tripulação de um avião executivo dirigido por pilotos norte-americanos, de fabricação da Embraer, que bateu no Boeing da Gol, foram responsabilizados, o que desencadeou uma reação geral deles e de seus colegas. Nos Estados Unidos, especialistas negam a responsabilidade dos pilotos norte-americanos. Aqui, os nossos controladores de vôo põem toda a culpa no sistema de controle aéreo brasileiro e nos equipamentos utilizados, que seriam obsoletos.

Ouvido na Suíça, na semana passada, um especialista com experiência em choques de aviões, líder mundial de sua classe e que esteve no Brasil examinando o nosso caso, também afirma que nosso sistema e equipamentos são absolutamente inadequados.

Ao longo de todas as discussões que se desenvolvem sobre o grave problema, cujas conseqüências continuam se desenrolando, mais de um observador, mais de uma autoridade, mais de um responsável pelo sistema de controle aéreo, autoridade civil ou militar, admitiram que é preciso fazer urgentes investimentos para dotar o País de instrumental confiável.

Nos últimos dias, mais atrasos nos aeroportos, cancelamentos de vôos e protestos ruidosos, mas até agora inócuos dos passageiros. Não conseguem nem explicações. E quando as recebem, ou são desencontradas ou simplesmente escusas que nada resolvem. Há casos de passageiros que estão tentando viajar a passeio. Há casos de viagens por motivos de morte de pessoa da família ou doenças. Há viajantes que vêem prejudicados os seus negócios. E prejudicada – falando de negócios – tem sido toda a nossa indústria de turismo. Gente que pretendia visitar o Brasil vindo do exterior e brasileiros visitando o próprio País ou saindo para outros países, cancelam os pacotes turísticos.

O ministro da Fazenda, o confuso Guido Mantega, deu uma explicação para este último apagão que é risível. Disse que ele se deve, em grande parte, ao extraordinário desenvolvimento econômico do Brasil, o maior desde a proclamação da República, segundo o presidente Lula. Pelo jeito, o ministro Mantega foi um dos poucos ou o único brasileiro a aceitar o conselho de sua colega Marta Suplicy, da pasta do Turismo, que diante de multidões de passageiros revoltados nos salões dos aeroportos, disse que o melhor é ?relaxar e gozar?.

O governo demorou a admitir que o apagão aéreo é um problema de Estado. Todo o sistema a ele está subordinado. Mas quando teve de dar-se por achado, quis fazer valer sua autoridade exigindo que em hora certa e prazo determinado dessem uma solução ao caos aéreo. Na época, chegou-se a falar na demissão do ministro da Defesa ao qual está subordinado o chefe da Aeronáutica. E a este os controladores de vôo. O ultimato de Lula passou batido. A crise continuou e o chefe da Aeronáutica, brigadeiro Saito, admite que novos capítulos da crise poderão surgir.

A solução até aqui aplicada tem sido punir os controladores que são militares e lideram sua classe. O presidente Lula, em sua conversa matinal pelo rádio, acaba de exigir que se faça o que tem de ser feito, lembrando que os controladores são militares e devem obedecer a hierarquia militar. Com base em declarações do brigadeiro Saito, disse que o sistema de controle de vôo e os equipamentos utilizados são da melhor qualidade, de última geração. Não é o que afirmam os técnicos nacionais e estrangeiros. A única certeza que perdura é que, em novas ocasiões, teremos dias caóticos nos aeroportos e nos céus do Brasil. Céus que, para voar, cada dia nós e os nossos visitantes estrangeiros desconfiamos que estão sendo controlados por cegos. Cegos que querem ver e cegos que não querem ver.