Campo Grande (AE) – Na casa grande onde morou por 30 anos, com pátio cheio de árvores e bichos, a viúva do ambientalista Francisco Anselmo de Barros, Iracema Sampaio, recebeu hoje (15) a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, com um almoço feito em panela de ferro. Marina foi dizer a Iracema que o governo federal está trabalhando para impedir a aprovação do projeto que autoriza a construção de usinas de álcool em áreas próximas do Pantanal. Ouviu da viúva que o ambientalista festejou quando ela foi indicada para o ministério e que Francelmo, como era conhecido, fez o que achava necessário.
"Ele não pensou na gente quando tomou essa decisão. Se pensasse, atrapalhava. Ele fez o que achava que devia fazer para salvar esse pedaço da casa de Deus", disse Iracema, de 67 anos, casada por 32 anos com o ambientalista e mãe de três filhos adotivos. Ainda abalada, ela tenta entender. Afirmou que ele também não pensou em si, mas "numa causa maior, mais justa". "A gente vai ter de aceitar."
O plano apresentado pelo governador de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, levou Barros a atear fogo ao próprio corpo durante um protesto no sábado, no centro de Campo Grande. Levado para a Santa Casa, ele morreu no domingo.
Nas 16 cartas que deixou para família, amigos e imprensa o ambientalista mostrou que já sabia de antemão o impacto que sua atitude causaria – e poderia enterrar o projeto de construção das usinas próximas ao Pantanal.
Depois de admitir que a decisão não tinha sido fácil, deixou instruções sobre seu enterro. "Faça o velório na capela 13, dá mais repercussão", disse na carta dirigida ao amigo Jorge Gonda, que, a seu pedido, deverá presidir a organização não-governamental fundada e presidida por ele, a Fundação para Conservação da Natureza de Mato Grosso do Sul (Fuconams).
Na noite antes de morrer, Francelmo não dormiu. Iracema conta que ele a fez dormir com a cabeça em seu ombro. Hoje, ela sabe, era uma despedida. Naquele dia, brincou: "Acho que vem mais uma lua-de-mel por aí."
Na carta que dirigiu aos amigos, Francelmo explica que foi difícil tomar a decisão "em sã consciência". Mas a defende: "Minha vida sempre foi um sacerdócio em defesa da natureza. Ela é a nossa casa e o presente maior de Deus. Se Ele deu a vida por nós, eu estou dando a vida por Ele, defendendo o futuro de nossos filhos. O mundo corre perigo e esta é a minha modesta contribuição", escreve num texto de duas páginas, manuscrito em letra de fôrma.