São Paulo (AE) – O período de inverno está para o setor farmacêutico como o Dia das Mães para o comércio. As vendas de medicamentos não controlados, como analgésicos, antigripais e vitaminas disparam. Para aproveitar a sazonalidade que este ano chegou um pouco mais cedo, redes de farmácias intensificam a guerra no varejo e os laboratórios ampliam a publicidade de “produtos de época”. A Procter & Gamble (P&G), fabricante da linha Vick, dobrou a verba publicitária este ano. A Bayer, dona da Aspirina, vai gastar 50% mais em mídia.

O advogado Crispim Felicíssimo, que mora em Vinhedo e tem escritório em São Paulo, é um dos que ajudam o setor a engordar o faturamento neste período. Hoje (25), pela terceira vez em uma semana, ele foi à farmácia comprar antigripais. “A gripe começou há uma semana, daquelas bem fortes, mas não conseguiu me derrubar.” Ele escolhe o produto por “hábito”.

Segundo o gerente de Marketing da P&G, Eduardo Takara, 70% das vendas de produtos relacionados ao frio ocorrem entre abril e setembro. Este ano, com a onda de gripes os negócios cresceram 30% já no primeiro trimestre. Essa categoria de medicamentos, que não precisam de receituário, representa um mercado de US$ 290 milhões. A linha Vick, com xaropes, bálsamo e pastilhas, tem 10% dessa fatia. A P&G, que lançou produtos como o Vick-mel, vai gastar R$ 26 milhões em publicidade, ante R$ 13 milhões em 2003.

Na Droga Raia, com 121 lojas em várias capitais, as vendas de remédios para gripes e resfriados cresceram 140% e os analgésicos, 30% até abril. A rede oferece descontos para quem tem cartão de fidelidade e doa parte do faturamento a instituições sociais indicadas pelos clientes. O grupo espera faturar 20% mais neste ano, atingindo R$ 560 milhões, e ampliou a atuação na área de higiene e beleza para compensar o que o vice-presidente-comercial Eugênio Zagotts considera “estagnação na área de medicamentos.”

Com previsão de abrir 14 lojas até o fim do ano, a Raia tem 55% do faturamento com a venda de remédios com tarja (exigem prescrição médica) e 45% com os demais produtos. A rede Pague Menos, tradicional no Ceará, mas em plena expansão em São Paulo, prefere diversificação maior. “Oferecemos biscoitos, sorvete, chocolates e brinquedos”, diz o fundador da empresa, Deusmar Queirós. A rede vendeu 10 toneladas de ovos de Páscoa este ano. Esses itens contribuem com 8% do faturamento, previsto em R$ 600 milhões, 20% mais que em 2003. Com 250 lojas, o grupo quer abrir uma unidade por mês. Em São Paulo, onde há 20 lojas, a meta é ter 50.

Na mão inversa, a Drogão, com 48 unidades na capital, prefere manter-se mais fiel aos remédios, que respondem por 80% dos negócios. “Não acho compatível oferecer produtos que não sejam ligados à saúde”, diz o diretor de Marketing, Nelson de Paula. As vendas de produtos de inverno aumentaram 12,5% ante igual período do ano passado. A Drogão é uma das poucas redes a manter promoções com prêmios, como eletrodomésticos e viagens. Também oferece descontos de 10% a 60% para cerca de 2 mil itens.

A Bayer voltou a colocar na mídia a tradicional Aspirina C, que não era alvo de campanhas desde 1999. O gerente de Marketing, Humberto De Biase, diz que a concorrência é acirrada e o produto foi reposicionado. Hoje, responde por 12,4% das vendas de antigripais (atrás de Naldecon e Benegripe). “Em janeiro, era 8%”, lembra ele.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sérgio Mena Barreto, a sazonalidade é natural no setor. Segundo ele, produtos de higiene e limpeza, que há 4 anos respondiam por 15% do faturamento, hoje participam com 25%, o equivalente a R$ 1,5 bilhão.