Atuavam há pelo menos treze anos, segundo afirmam agentes da Polícia Federal. Mas foram presos agora, acrescentando mais um ao rol de escândalos que ponteiam o governo do PT. Os vampiros presos com a mão no jarro valiam-se de dinheiro destinado à Saúde Pública, a mesma que os contribuintes foram chamados a socorrer com a criação do imposto do cheque. Gente graúda, ligada ao primeiro escalão do Ministério da Saúde e uma outra servidora da Anvisa – a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, quem diria!

Caçada farta, o batalhão de agentes da PF que saiu quarta-feira de manhã com mandados de busca e apreensão, voltou para casa satisfeito: dólares, euros, reais, computadores, documentos, telefones celulares e apontamentos de contabilidade, mais de uma dezena de detidos, entre funcionários públicos, lobistas e empresários envolvidos no negócio sujo do sangue. Mas a pequena fortuna apreendida é nada diante do que se calcula (algo em torno de dois bilhões de reais) tenham os vampiros embolsado ao longo de todo o tempo em que operavam, às barbas do ministro da Saúde, Humberto Costa, que pediu a apuração. Quanta gente (de doentes iniciantes a pacientes terminais) prejudicada diretamente, não se sabe.

Um dos chefes da gangue, ou pelo menos o mais graduado deles na hierarquia do governo, é Luiz Cláudio Gomes da Silva, o coordenador-geral de Logística do Ministério da Saúde, homem de confiança do ministro, por ele contratado logo depois de assumir a pasta. Se a gangue atuava há tanto tempo, ele deve ter caído na teia logo que assumiu, em agosto do ano passado, depois de um passado, ao que dizem, limpo por órgãos públicos de Recife. Conforme a polícia, que ainda não encerrou o caso, mais gente deve estar envolvida no intrincado caso de fraudes em licitações internacionais para a compra de derivados de sangue usados em hemodiálise.

Para não ter as mãos chamuscadas, o ministro da Saúde, que por sinal estava no exterior quando soube da notícia, fez questão de dizer que tudo será apurado “doa a quem doer” até as últimas conseqüências. E que os responsáveis serão punidos exemplarmente. Em vez de enfraquecido pela descoberta, disse sentir-se fortalecido. Afinal, foi ele mesmo quem determinou a apuração, já chateado com um suceder de problemas que vem enfrentando à frente da Saúde Pública. Ficou surpreso, sim, com o envolvimento de um de seus braços-direitos, mas o azar é de quem faltou com a confiança.

Pelo menos neste escândalo, o governo está agindo como deve. Sem dó nem piedade de quem embolsa o dinheiro público, ri do povo e brinca com a parte mais funda da saúde de todos nós – o sangue, base da vida. Deveria fazer assim todas as vezes que a negra fumaça da corrupção se levanta no Planalto.

Isso nos faz lembrar do Waldogate – o episódio que ainda envolve outro braço-direito de ministro, até aqui não esclarecido, causa da paralisia que acometeu o governo desde antes do Carnaval. Contente, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, garganteou dia desses que no governo do PT não existe corrupção. Pinóia. Que tudo fazia seu assessor parlamentar e em nome de quem agia, eis uma questão que ainda clama por esclarecimentos. O governo, entretanto, jogou todas suas forças na tese de que a investigação parlamentar seria despicativa ante as investigações que determinara pela via da Polícia Federal. Até aqui, nada. Ficou no ar a impressão de que era verdade tudo e muito mais do que as fitas contaram.

Os ralos da República – termo cunhado por Fernando Henrique Cardoso quando ministro da Fazenda, no arranque do Plano Real – precisam ser vigiados com desvelo. Só a certeza da severa punição desencoraja o crime.