O presidente Lula está otimista e contente com o momento econômico. Diz que nem na melhor fase do real estivemos tão bem quanto agora. Seu otimismo, é verdade, tem a ver com o segundo turno das eleições nas maiores cidades brasileiras, mas ninguém contesta o presidente quando ele diz que o importante é que o Brasil continue crescendo ao longo dos anos, pois “o País tem que ser pensado para 30 anos e não de quatro em quatro”. Ou a cada eleição.

Entre outras afirmações também não contestadas, pelo menos pelo empresariado, Lula afirmou que sua administração vem procurando desonerar o empresariado para incentivar a produção. Sobre isso há controvérsias. Faz pouco tempo comentamos aqui o crescimento substantivo dos índices de inadimplência das empresas com relação aos tributos federais. Somente no governo Lula, o número de companhias com dívidas tributárias, isto é, que não conseguem pagar os impostos, taxas e contribuições exigidos, cresceu 24,3%. Além do número de empresas que devem, também o volume devido é maior: cresceu 37,3%, chegando a R$ 239 bilhões. Assim, dizer que está tudo azul é quase fazer como as avestruzes – enterrar a cabeça na areia para não ver o temporal. O espetáculo da inadimplência tem a ver com o aumento da carga tributária que somente no primeiro semestre deste ano teve alta de 1,2%, superando já a marca dos 38% do Produto Interno Bruto.

É provável que o otimismo de Lula tenha mais a ver com os mercados externos. Em função do esforço para aumentar as exportações (e do qual fazem parte suas inúmeras viagens internacionais), ele assegura que em nenhum dos 48 países visitados o percentual das exportações brasileiras subiu menos do que 30%. Um tremendo resultado. E para comprovar a assertiva, números: no Oriente Médio, as exportações subiram 50%; na África, 37,5%. Da China nada disse e, segundo o presidente, “ainda está faltando o Japão”…

Enquanto alguns cantam conquistas internacionais, há os que se preocupam com a nossa situação interna. E com relação ao imenso mercado brasileiro, nem o coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile, divide a impressão otimista de Lula. Chamado pelo ministro da Educação, Tarso Genro, para participar dos debates acerca da modernização do ensino superior num momento de “recoesão social”, ele voltou a desancar o sarrafo sobre a equipe econômica do governo petista: “Onde houver um microfone ou um trombone, nós valor reclamar dessa política econômica”, assegura Stédile sem meias-palavras. Um trombone a serviço de despossuídos que reúne pelo menos cinco mil rádios (boa parte clandestina), cartilhas, periódicos impressos, programas de televisão e vídeos populares. Aliás, com tanto poder de fogo na comunicação, Stédile foi guindado a interlocutor qualificado no projeto de reforma universitária em arrumação, estreitamente “conectada com a sociedade”, como quer o ministro Genro.

De que não está tudo azul – incluído o mercado internacional – é prova também o episódio da suspensão das importações de carne por parte da Rússia, no passado mês de setembro. Até hoje o governo brasileiro não conseguiu convencer os consumidores russos de que a aftosa alegada é coisa restrita ao distante Pará, onde um único caso foi detectado. O embargo comercial continua a fazer estragos. Causou fortes reflexos na Bolsa de Valores de São Paulo e empresas brasileiras da área de alimentação continuam acumulando muitas perdas. É claro, dirão muitos, este é um episódio isolado. Mas ele reflete a fragilidade com que navegamos num mercado global, onde têm maior credibilidade que o Brasil países como a China comunista ou até alguns emergentes do Leste Europeu. Assim, o esforço para que os outros parem de olhar o Brasil como “coitadinho”, como quer o presidente Lula, terá que prosseguir. E não sem cuidar um pouco – como sentenciou o ministro Furlan, do Comércio Exterior – também do fortalecimento do mercado interno. Afinal, o Brasil é, antes de mais nada, dos brasileiros que, entra governo, sai governo, continuam a esperar pelo futuro. Que não vem.