Ainda dá para dar desculpa, não é? Oito meses, coisa e tal, blablablá, o orçamento ainda é importado, mas a gente vai ter que responder. A gente não veio aí apenas para manter como está. A gente veio para mudar. E, se a mudança não aparece, tem que ser cobrada, tem que ser reclamada com firmeza.

Que tal, caro leitor, imaginar tais palavras na boca de um ministro do governo Lula, durante uma palestra a estudantes secundaristas? E imaginar mais: que o mesmo ministro, ao segredar suas dúvidas e angústias, tenha confessado que o problema que mais o constrange é não estar fazendo ainda tanto quanto deveria, e não poder dizer sequer em que ano vai fazer como deve, sugerindo que a estrutura a que ele serve não o deixa fazer bem feito.

Pois é, caro leitor, esse ministro existe, é Cristovam Buarque, da Educação. E disse mais do que o acima transcrito quase ipsis litteris. Ele concitou os estudantes a fazerem passeatas, exigindo mais verbas, uma reclamação recorrente sua, em desobediência clara à orientação do chefe presidente, que proibiu choramingas por dinheiro escasso. Prontificou-se, inclusive, a orientar os estudantes, fornecendo a data mais adequada, para que os protestantes pudessem melhor organizar o ato. Aconteceu – segundo a crônica – na quarta-feira que passou, durante palestra proferida numa escola pública de Brasília. Poucos dias antes, o ministro protagonizara o lançamento, ao lado do presidente Lula, de um ousado programa nacional de alfabetização, que prevê acabar com vinte milhões de analfabetos em apenas três anos…

O ministro da Educação é conhecido por suas múltiplas idéias. Múltiplas e copiosas. É conhecido como o “semeador de utopias”. Para uns, ele é desconexo. Para outros, um homem de muitas realizações, de grandes sonhos. “É um privilégio ter uma pessoa como ele na Educação”, diz o coordenador do Núcleo do Ensino Superior da Universidade de Brasília – UnB, da qual Buarque foi reitor no final dos anos 80.

Acontece que o presidente Lula, segundo a mesma crônica brasiliense, não ficou nada contente com o que seu auxiliar direto andou dizendo – embora tenha, depois, tentado desdizer ou amenizar o dito – aos jovens. Sem a necessidade de estímulos extras, o governo já está sendo emparedado por todos os lados, embora tenha até aqui usado a artimanha de dirigir quase todos os descontentamentos ao Congresso Nacional, onde o argumento das reformas rende discursos para muitos gostos. Imaginemos se cada ministro, em sua área, convocar os seus para panelaços, apitaços e passeatas… sem-terra, famintos, empresários, agricultores, prefeitos… todos em marcha sobre Brasília, pedindo mais recursos no Orçamento, mais verba para estradas, segurança, saúde, moradia, educação!

Buarque é senador da República. Antes de assumir o ministério, iniciou programa de visitas às escolas para ensinar os estudantes como funciona o Orçamento da União e, assim, criar no meio um movimento. Agora ministro, reconhece que fazer isso pessoalmente pode criar constrangimentos ao governo a que serve. Mas, para não ter duas caras, sugeriu continuar o programa indiretamente: “Consigo que venham aqui umas pessoas apresentar no telão como é o Orçamento. Para vocês verem quanto vai para a Educação, quanto vai para outros lugares, para vocês ficarem irritados com isso”.

Pelo visto, o polêmico ministro prestaria mais serviços à nação como senador.