O presidente Lula tem agora um bom motivo para sair viajando pelo Brasil afora: defender a política econômica de seu governo, comandada pelo médico Antônio Palocci, que tem em Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, seu braço-direito. Esqueçam o Waldogate, o escândalo que quase atirou nas cordas do ringue político o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ainda não livre de todo. Esqueçam também as críticas recorrentes de falta de ação e de obras, inclusive aquelas no campo social, onde o Fome Zero não tem mais importância alguma. Se a economia vai mal ou sobre ela existem dúvidas, nada dará certo.

Pode ser – mas há quem duvide – que o presidente do Partido Liberal, deputado Waldemar Costa Neto, esteja falando a pura verdade quando diz que nem Palocci, nem Meirelles, têm condições de ficar no governo. O primeiro, segundo Costa Neto, não deveria ter saído da Prefeitura de Ribeirão Preto. Sem condições para ser ministro da Fazenda de um país desse tamanho, ele é um cidadão que decide economia por conta própria e faz isso com Meirelles, um homem que não tem afinidade com o PT, nem com o governo, nem com a aliança dos partidos. “Jornalista – segundo o deputado – defende jornalista, engenheiro defende engenheiro, metalúrgico defende metalúrgico, e banqueiro, como Meirelles, só defende banqueiro.” Logo…

Caíram de sarrafo em cima de Waldemar Costa Neto, que escolheu o campo de teatro da posse do novo ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, também do PL, para disparar sua metralhadora giratória. Lula acabara de defender a integridade de todos os seus auxiliares, com certeza também a do companheiro José Dirceu. Na oposição, líderes riram pelos cantos, afirmando que quem tem amigos como Costa Neto, não precisa de adversários. Mas a tese da cortina de fumaça não está descartada.

Poucos dias atrás, o PT dissera o mesmo em outras palavras. Ao defender seu arranhado patrimônio ético, tropeçou na gramática para exigir mudanças na condução da política econômica do governo que é seu. A tática diversionista provocou poucos efeitos ou, pelo menos, não os desejados. E já perdia força outra vez diante dos fatos novos que surgiam no horizonte da Casa Civil, cujo titular já não consegue explicar como mantinha um amigo como Waldomiro Diniz no comando da “cosa nostra”. Aí vem o presidente do partido do vice-presidente José Alencar, de conhecidas posições contra juros altos, e solta o bode, aliás, a bomba na sala.

O curioso é que, incontinenti, o mesmo PT que antes exigira as mesmas mudanças em nota pública e oficial, passou a defender Palocci e Meirelles. “O Palocci fez e está fazendo um grande trabalho para o País” – disse o líder do governo no Senado, o retumbante Aloizio Mercadante. “Sua política austera permitiu a mudança nos indicadores econômicos.” Ora, o PT precisa se decidir pelo que quer. Daqui a pouco ninguém mais estará dando ouvidos ao que dizem seus líderes. Para cumular, vem o ministro do Planejamento, Guido Mantega, e diz que não existe queda-de-braço dentro do governo. Se não é queda-de-braço, o que é, então? Desdobramentos da mesma tática diversionista?

O fato novo criado o obriga agora a sair em defesa do que entende ser as bases sólidas para o que de bom todo mundo espera. Já que a agenda positiva não emplacou ou, melhor, não foi suficiente para dissipar o calor das denúncias de envolvimento de gente próxima do governo com o submundo do crime e da corrupção, defender Palocci de ataques tão ferozes, quanto acadêmicos, não deixa de ser um bom motivo para continuar discursando. Ora, não era este o espetáculo que os brasileiros estavam esperando. Se ninguém entendeu mal, o presidente Lula havia prometido – e continua a prometer em vão – o espetáculo do crescimento, com geração de empregos aos borbotões, distribuição de renda como nunca vista, bem-estar geral e satisfação em todos os quadrantes…