Brasília – A venda recorde em janeiro de R$ 40 bilhões de papéis do Tesouro Nacional corrigidos pelo IPCA – índice oficial de inflação – garantiu uma melhora nos principais indicadores da dívida interna do governo em títulos, que fechou o mês em R$ 984,93 bilhões. Apesar do aumento de R$ 5,27 bilhões do estoque (0,5% sobre o valor de dezembro), a dívida chegou ao final de janeiro com a menor participação de títulos indexados pela taxa Selic desde outubro de 2001: 49,48%. Por outro lado, os papéis corrigidos pelo IPCA e pelo IGP-M, considerados de menor risco para o governo, ganharam espaço, aumentando a sua participação de 15,53% para 19,15% do total da dívida, uma marca recorde.

A chamada dívida cambial (considerando os títulos e também contratos de swap vinculados à taxa de câmbio, que são operados pelo Banco Central, ) foi zerada em janeiro e o governo em vez de devedor, passou a ser credor do mercado, em dólares, em valor equivalente a R$ 5,56 bilhões.

A zeragem da dívida cambial interna já havia sido prevista no mês passado pelo BC e foi possível com o resgate dos papéis atrelados à moeda norte-americana, a valorização do real e os leilões diários de contratos de "swap cambial reverso", que funcionam, na prática, como uma compra de dólar no mercado futuro.

Outro indicador positivo divulgado hoje (15) pelo Ministério da Fazenda foi a diminuição da parcela da dívida de curto prazo, aquela que tem vencimento em no máximo 12 meses. Ela caiu de 41,64% para 40,57% do total. Esse é um dos indicadores observados pelas agências internacionais de classificação de risco para avaliar a solvência financeira dos países.

A expectativa do governo é de que esse conjunto de novos indicadores favoráveis impulsione uma melhora ainda maior da avaliação da economia brasileira, que ganhou força com o anúncio da recompra de parte da dívida externa e dos estudos para a isenção do Imposto de Renda sobre aplicações de investidores estrangeiros em títulos públicos. Essas notícias fizeram o risco país despencar nos últimos dias.

Segundo os dados divulgados hoje, o estoque da dívida aumentou, apesar de o Tesouro e o BC terem feito um resgate líquido (emissões menos resgates) de R$ 7 bilhões. Isso porque a conta de juros, no mês, chegou a R$ 12,2 bilhões.

O coordenador de Operações da Dívida Pública do Tesouro Nacional, Ronnie Tavares, informou que R$ 24,3 bilhões dos R$ 40 bilhões dos papéis corrigidos pelo IPCA vendidos em janeiro foram pagos pelos investidores com outros títulos corrigidos pela taxa Selic, chamados de LFTs, e que tinham prazos de vencimento mais curtos.

Foi essa troca que permitiu a queda para abaixo de 50% da participação desses papéis no estoque da dívida. De quebra, o prazo médio da dívida aumentou de 27,37 meses para 28,76 meses porque os papéis corrigidos pelo IPCA vendidos pelo Tesouro têm prazo de vencimento muito mais longo do que as LFTs recebidas em pagamento.

Segundo Tavares, nos últimos três meses cresceu a demanda por títulos prefixados (que têm a taxa de juros definida na hora do leilão) ou atrelados ao IPCA. Os principais investidores que estão fazendo esta migração de títulos são os fundos de pensão, os fundos de investimentos e as tesourarias de bancos.

Tavares disse que é esperado que os fundos de pensão intensifiquem esse movimento de troca de investimentos nos próximos meses. Isso porque, com o processo de redução da Selic pelo BC, a rentabilidade das LFTs está caindo. "Nos fundos de pensão, que são os mais interessados, o movimento ainda é tímido O potencial de migração é alto e ainda não ocorreu", avaliou.

O coordenador avaliou que a aceleração da substituição de papéis corrigidos pela Selic pelos prefixados e os vinculados a índices de preços reflete a expectativa de queda da taxa de juros e a confiança na convergência da inflação para as metas traçadas pelo governo. "Isso tem permitido que os investidores saiam de aplicações em títulos indexados à Selic para outros ativos", disse.