O trágico desastre com o avião da TAM, o maior da história da aviação brasileira, não tem mais solução. O acidente já aconteceu, as vidas perdidas não poderão ser recuperadas e a dor de familiares e amigos das vítimas e de toda a nação não tem analgésico que a amaine. Talvez a solidariedade. Mais importa agora é tomar medidas para que novos desastres não ocorram. A busca de culpados é uma imposição da lei e um desejo irreprimível da sociedade. Mas não será a solução.

A estas alturas, é certo que uma conjunção de fatores levou ao acidente. A este acidente, aos outros e ainda a muitos que – felizmente – não chegaram a ocorrer. Mas quase. Casos em que aviões atravessam perigos e chegam perto de novos desastres continuam ocorrendo. O governo, que pouco ou nada fez de conseqüente durante anos para melhorar suficientemente a malha aérea nacional e sua infra-estrutura em terra, afinal falou. Isso pode ser um passo rumo à busca séria de soluções, embora até aqui muitas tenham sido anunciadas e esquecidas, mal-aplicadas, aplicadas pela metade ou procrastinadas por falta de verbas. Verdade que verbas enormes foram gastas nos aeroportos para embelezá-los, aumentar o conforto dos passageiros (ainda longe da suficiência), sem entretanto chegarem ao essencial, que é a melhoria dos controles de vôos com uma equipe numericamente suficiente, bem treinada e bem paga e dotada de equipamentos de última geração e em quantidade suficiente para desempenhar seu papel essencial, e pistas adequadas em extensão, com áreas de escape, ranhuras para ajudar o freamento das aeronaves e o que mais os técnicos recomendam e os políticos não entendem. Os que são técnicos e entendem, nada fazem por falta de recursos, seguros pela mão-de-vaca da turma de Brasília. Em pleno caos aéreo, em janeiro deste ano, o governo incluiu no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) verba para investir em infra-estrutura aeroportuária no País. Passaram-se mais de seis meses. Uma análise dos investimentos governamentais em aeroportos mostra a enorme distância entre as promessas e os investimentos efetivamente realizados. Dos R$ 350 milhões do PAC na rubrica transportes aéreos destinados ao Ministério da Defesa neste ano, nenhum tostão foi liberado até agora.

Outros setores do governo também responsáveis pelos transportes, excluídos os aéreos, já receberam dinheiro. Uma ninharia, é verdade, mas pelo menos a coisa começou a sair do papel.

Se dividirmos o processo em quatro fases: a das promessas, a da papelada, a da liberação de recursos e a de realização, diríamos que estamos, no caso da infra-estrutura dos aeroportos, ainda na promessa. E não esqueçamos de uma fase que é usada com freqüência: a gaveta. A fase das promessas de solução do problema, que mostrou-se insuportável com a tragédia do avião da TAM, veremos que é recentíssima. Depois de longos e aflitivos três dias depois do desastre, Lula fez seu primeiro pronunciamento. Nele, prometeu reduzir o tráfego aéreo em Congonhas, destiná-lo só à ponte aérea e a vôos sem escalas de aviões de menor porte, enfim, tudo o que outros pregavam, inclusive o governador José Serra, de São Paulo, e até mesmo este jornal. Relevante a promessa de construção de um novo aeroporto na capital paulista, um benefício para a cidade e para todos os brasileiros. A ministra Dilma Rousseff, instada pala falar do assunto, negou-se a dizer onde será o novo aeroporto, que, se não ficar nas promessas, já vem muito tarde. Ela justificou de forma correta o silêncio sobre a localização, pois revelá-la seria desencadear especulação imobiliária.

Agora, é esperar torcendo para que alguém mais do governo, como a ministra Dilma, tenha participação nessa empreitada. Deste governo de muito papo e pouca ação, ela parece ser o que há de mais eficiente e confiável no Executivo em Brasília.